Arquivo de Maio de 2006

A diferença entre

O maradona desvalorizou o trabalho infantil, esse tema «acessório», informando-nos que ele próprio trabalhou que nem um moiro e, como putativamente A Causa Foi Modificada provará à saciedade, não se perdeu nada com isso: «para aí dos meus 12 aos meus 15 aninhos», escreveu num daqueles posts que depois apaga (do seu blog: eles ficam por aí, nos arquivos da rede, nada do que atiramos para ela se perde, desiludam-se), «tinha por hábito ir à ameijoa na Ria Formosa (Ameijoa Boa 900 escudos o quilo; Ameijoa Cão 300 escudos o quilo) acompanhado por meia duzia de gandulos sem pais nem mães. Para mim a coisa servia para emagrecer, para esses meus companheiros servia para comerem, calçar e vestir (e gozarem comigo)».
Bem sei que maradona, dezenas de pessoas muuuito blasés como ele, e centenas de outros insalubres intelectuais e similares são incapazes de a ver mas há uma diferença entre trabalho infantil praticado com gosto (ou motivo) pelo infante e trabalho infantil praticado à força (ou por necessidade vital) pelo infante. E do que se fala quando se fala, nas notícias, de trabalho infantil é deste último. Do que não devia existir.
Se sou capaz de entender fechar os olhos à exploração do trabalho em países fustigados onde sem essa alternativa a vida das populações seria ainda pior (como se ser explorado fosse um devir histórico, como certas direitas e proto-direitas parecem afirmar implicita quando não explicitamente), não sou capaz de ficar impávido perante os acontecimentos revelados na última edição do Expresso. O problema, como é óbvio, não está na Zara, mas sim no sistema que permite ilibar as zaras, filtrando e diluindo as reponsabilidades numa cadeia de valor roubado que até tem o devido selo legalizador.
Eu trabalhei desde que me conheço. Com gosto e recompensa. Foi com pequenos trabalhos diários de auxílio que tive aquilo que se pode chamar de “semanada”, foi a vergar a mola duas semanas a escavar as ruínas do Milreu que comprei a flauta transversal dos meus sonhos, mentindo quanto à idade porque não aceitavam abaixo dos 16 anos (se bem me recordo), a servir à mesa e ao balcão pude ter a minha sonhada aparelhagem e a motorizada saiu-me de umas férias de Verão a ir à praia nos intervalos, em vez de sensatamente fazer do bronzeado flirt dunar a ocupação principal. E, embora nunca o tenha feito com um parvalhão de um bucha queque que não precisava de bóia, apanhei ameijoa (boa e de cão), conquilha e berbigão na Ria Formosa. Ah, também explorei selvaticamente os vícios alheios enchendo (num jogo) as máquinas de flippers com bónus, que vendia por cinco escudos para poder comprar tabaco (uma vez até cobraram pelo espectáculo que eu e o Salústio dávamos a jogar e a fazer estalar as máquinas até ao limite dos 20 bónus, quantas vezes com a primeira bola – vendendo também as restantes). Esta é a minha coroa de glória, mas aí eu já tinha 14 ou 15 anos e de infantil, só a virgindade.
Nunca me passou ou passará pela cabeça confundir as minhas actividades (e as de maradona) com trabalho infantil. Claro que é trabalho, claro que eu era infantil – mas a minha vida, as nossas vidas, caro maradona, não dependiam desse “esforço”. Não vivíamos em condições miseráveis, não fomos obrigados a cumprir horários esclavagistas, não fomos espancados nem torturados por um pai bêbado ou um patrão sádico por (não) trabalhar, não tivemos de apanhar a ameijoa para dar de comer à família (como centenas de miúdos na mesma Ria Formosa, alguns ao nosso lado), tínhamos alternativas, famílias que nos amparavam e vigiavam, podíamos estar a fazer outra coisa, caro maradona, fazíamos por escolha. Ou por desporto, no seu flácido caso.
Uma coisa é ver um miúdo de 11 anos a servir cafés numa esplanada de Verão, até se lhe dá uma gorjeta boa e uma palmada nas costas porque se entende que está a ganhar uns trocos nas férias por um motivo lá dele, e admira-se-lhe o empreendedorismo enquanto os colegas andam a gastar solas a jogar à inútil bola (“este miúdo vai longe”), outra coisa bastante diferente é ver um miúdo de 11 anos cuja única alternativa na vida é coser sapatos a 40 cêntimos o par sete ou oito ou nove ou dez horas por dia, seis dias por semana.
O neo-realismo dos Esteiros já passou de moda, o que a mim tanto se me dá. Importa é que o país de hoje não é, felizmente, o mesmo de Soeiro Pereira Gomes e de Portugal e da Europa do entre guerras. Evoluímos. Temos menos trabalho infantil, menos mortalidade infantil. Mas que as “conquistas” da sociedade de consumo não o ceguem, caro maradona: tire as lentes de classe (ou origem), olhe de frente e verá a diferença entre.

O ensino e a escola

A berraria vai alta. A mim nada me interessa discutir as escolas. Umas terão mais “disciplina”, outras serão pardieiros de “problemas sociais” e entre os extremos há a maioria delas, que segue uma vida turbulenta como qualquer escola de qualquer época e lugar, porque as escolas precisam de ter turbulência (o contrário é uma escola de mortos). Privadas ou públicas, a diferença está no grau de apaziguamento das consciências dos respectivos paizinhos.
Que temos nós, sociedade, para ensinar aos rebentos? Eis a questão.
Como queremos que nos aceitem jovens que olham para o mundo à sua volta, olham para os livros e os currículos e ouvem os professores e não vêm a mínima relação entre as coisas?
Como queremos educar miúdos com quem não sabemos falar e cujas linguagens e comportamentos achamos impróprios e bizarros, to say the least?
O actual fosso geracional só é comparável, e por baixo, com o generation gap dos anos 60 e, em certa medida, com a geração no future dos 80, que hoje se embebeda e aliena nos arrabaldes de Londres e de todas as londres europeias, aos fins de semana e nos intervalos de tirar fotocópias, empilhar tijolos ou puxar alavancas. O revivalismo punk devia fazer tocar as campaínhas dos nossos minúsculos cérebros, se não estivessem demasiado ocupados a discutir se é melhor atirar os putos para a privada ou a pública.
Alguém que se dê ao trabalho de analisar verificará que os miúdos de hoje (dos 4 aos 16, para ser preciso) não se revêem nos mundos físico e valorativo dos pais, têm com eles escassa simbologia operacional comum, e sobretudo intuem, quando não descortinam e antecipam e vêem, que raros dos instrumentos que insistimos em lhes enfiar no bornéu escolar terá qualquer utilidade no mundo deles, o mundo de depois de amanhã, que operará de formas substancialmente diferentes das actuais.
Não é preciso ser sábio para perceber a desconstrução em curso dos modelos de organização política, social e do trabalho. Basta ter tempo e um olhar despreconceituado. Algo que sobra aos miúdos e adolescentes.
( Muitos professores sabem disto, melhor ou pior; estão habituados a lidar com “eles”, estão mais perto “deles” do que a esmagadora maioria dos paizinhos. Mas, como se sabe, os professores não riscam uma vírgula nesta história das escolas e do ensino.)

Imagens do trabalho em Felgueiras, Portugal (II)

trabalhos2.jpg

(Crédito: José Ventura, Expresso)

O engenho

O furacão asiático fez definhar os têxteis de todo o mundo. Todo? Não. Numa pequena vilória do Norte da península ibérica, um grupo de bravos industriais resistia. Aplaudido pelos economistas do país.
Esta vantagem competitiva portuguesa foi finalmente explicada ao mundo. Felgueiras saiu do anonimato para as infografias com mapas a situar geograficamente o reduto dos heróis. Só é pena que a vantagem competitiva venha de miúdos de 11 anos a coser sapatos em condições inaceitáveis. E não do engenho dos empresários. A menos que… o engenho seja isso mesmo.

Imagens do trabalho em Felgueiras, Portugal

trabalho infantil, foto de Jose Ventura

(crédito: José Ventura, Expresso)

O jornalismo segundo Helena Matos

A propósito da insultuosa desfeita da revista do Expresso de sábado passado, com a insidiosa reportagem publicada a partir da página 58 e cujo título não ousaremos sequer reproduzir, foram decretadas novas regras para o jornalismo nacional, internacional e marciano, quando o houver (por sugestão de JPP enquanto Grande Mentor do Liberalismo Serôdio Blogosférico Português, GMLSBP).
Sem prejuízo das sanções a aplicar de imediato ao jornal, ao jornalista e ao director (ilibado, por inerência das Suas Santas Funções, o Presidente do Conselho de Administração, que não passa de outra vítima a ressarcir, ver abaixo) mas sobretudo e em especial aos leitores que tiveram a lata de ler aquelas páginas e olhar aquelas fotografias sem dúvida alguma manipuladas pela Grande Maquinação Contra o Capital (GMCoC), sanções essas descritas no final deste enunciado, eis um apanhado das principais REGRAS, que podem em qualquer altura ser revistas à luz dos princípios anti-estalinistas em geral, do sacrossanto mercado, dos espirros de George W. Bush (ou alguém por ele nomeado, ou auto-nomeado, para espirrar por ele), do globalismo (qualquer regra tem imediata aplicação), dos livros de ficção que passam por doutrina económica do “liberalismo” e do humor da Humilde Escriba Das Purificadoras Medidas, Helena Matos herself.

Regra 1: enquanto não forem todos substituídos por uma nova geração ensinada por Helena Matos (ou um seu clone, ou alguém indicado por ela como por exemplo Helena Matos), os actuais jornalistas estão proibidos de escrever uma linha sobre grandes empresas.
Regra 2: Nenhum jornalista ousará publicar um texto, imagem, registo de voz ou de multimedia acerca de uma grande ou mesmo de uma média empresa sem antes obter autorização escrita da empresa, seu patrão, departamento de comunicação e departamento eventualmente visado no texto, imagem, registo de voz ou multimedia.
Regra 3: O termo visado, na regra 2, é por si só objecto de uma regra: nada, numa grande ou mesmo numa média empresa, poderá ser visado por um jornalista. As pequenas empresas, que se fodam, claro está: não são para aqui chamadas, daah, onde é que já se viu a desfeita? Cresçam e apareçam!
Regra 4: Em adenda à regra 2, é fundamental o parecer, com carácter absolutamente vinculativo, das seguintes entidades: de Helena Matos, das associações de industriais do Norte, Centro, Sul e Ilhas, se as houver e no caso de não haver de um representante local indicado pelo industrial mais rico (este ponto é importante: tem absolutamente de ser o mais rico), da Confederação Nacional da Indústria de Calçado, mesmo que a empresa em questão seja de lenços de papel; de qualquer outra associação ou grupo ou preferencialmente corporação com fins lucrativos e interesses directos ou indirectos na matéria em causa, e a montante e a jusante dela e similares.
Regra 5: O texto, imagem, registo de voz ou de multimedia que sobrar das intervenções supra-citadas só passará a letra de forma (ou a conjunto de bits, sinais de fumo, ondas electromagnéticas e qualquer outra forma de edição esquecida não prevista selvaticamente omitida por este vosso humilde escriba que aguarda o respectivo castigo em solitária rodeado dos posts de JoaoMiranda) uma vez aprovado por Helena Matos (segunda via) ou, na sua ausência, pelo GMLSBP.
Adenda à regra 5: em caso de absoluta necessidade (viagens ou cabeleireiro, para dar uma ideia), José Manuel Fernandes poderá assinar a aprovação. Ao menos ele nunca viaja nem vai ao cabeleireiro, como se prova pela assinatura nos editoriais do seu blog.
Regra 6: Um jornalista não pode escrever sobre negócios sem antes consultar as Santas Entidades Referidas nas Regras Anteriores (SERRAs).
Regra 7: Um jornalista não pode reproduzir ou traduzir textos de qualquer proveniência não autorizada previamente pelas SERRAs.
Regra 8 e final, por enquanto: qualquer suspeita de violação a este enunciado é considerado traição e punível de imediato com despedimento com justa causa e indemnização do jornalista à entidade patronal por danos causados (a estabelecer pelas SERRAs).

Posto isto, as
SANÇÕES

Primeira: Hugo Franco (texto) e José Ventura (fotografias) são excomungados, colocados na lista negra, acusados de estalinistas, declarados membros efectivos de células do PCP que ficaram escondidas em 1974 não fosse o Diabo tecê-las.
Segunda: O Expresso é condenado (sem recurso) a pagar à Zara € 10.000.000.000 por utilização abusiva da marca da empresa numa fotografia de página inteira (págs 60 e 61).
Terceiro: é declarada a Sagrada Inocência das empresas citadas no artigo, todas elas, de montante a jusante.
Quarto: O ónus dos despedimentos que venham a verificar-se na sequência da publicação do Expresso recaem (isto é fundamental) EXCLUSIVAMENTE SOBRE O PRÓPRIO EXPRESSO, que fica doravante cunhado como um Grave Impedimento à Justa Expansão do Trabalho Português, da Economia Portuguesa e Grande Obstáculo ao Livre Empreendedorismo Dos Sábios Empregadores Ibéricos.
Quinto: estas sanções fazem jurisprudência: qualquer utilização de qualquer marca comercial que não seja para o efeito laudatório que tem andado arredio do jornalismo e a ele deve ser de imediato devolvido, para a publicidade, para o incensamento da dita marca ou, em alternativa, para denegrir Estaline e seus aviltantes seguidistas, será considerada uso abusivo incorrendo os prevaricadores na condenação imediata (este conjunto de regras É o pré-julgamento necessário para os oficiais de Justiça) que consiste na coima fixada para este caso (sujeita à taxa de inflação em vigor na economia mais inflacionária do planeta, seja ela qual for, não importa).

Publique-se.

Os jornais online portugueses são exemplares

Nos EUA o Washington Post, por exemplo, já tem (e publica) informação sobre a sua relação real, nada de paneleirices de opiniões publicadas como se de Grandiosas Verdades se tratassem em blogues duvidosos, com a blogosfera. 1/3 dos referrals do Washingtonpost.com são de blogs (várias fontes, escolhi o Engrenagem porque tem uma versão pessoal acoplada).
Os jornais online portugueses são exemplares a fugir da realidade que os cerca. Um link numa notícia é um luxo raro (incluindo em jornais que nasceram na rede!). O RSS é uma estrondosa inovação já descoberta por alguns e usada sem qualquer preceito ou discernimento, apenas para ter um botão cor de laranja para dizer que são modernos e “distinguirem-se” dos outros. Referrals? Isso são os árbitros de que desporto?!?
Se não forem os mecanismos externos a fazer contas deste tipo… bem podem os investidores e os anunciantes tentar saber quanto vale um título online. Saberão o que uma marktest qualquer lhes enfiar debaixo do nariz ao preço que quiser. É a vida. Podem os caros leitores não acreditar, mas ainda há quem pague 10.000 euros por um website dinâmico que se pode ter, template incluído e MUITO MAIS BONITO, funcional e moderno e com links, RSS, contadores e o diabo, tudo joly e automático e fixe, GRATUITAMENTE em dezenas de alojadores. Há, acreditem em mim.

Silêncio.001

silencio, desenho por zexinia

Grafite sobre papel de rascunho, A4. De Zexinia.

Domingo à tarde

applebroog-paint2-003.jpg

Ida Applebroog, “Mother mother I am ill”, 1993
2 painéis de óleo sobre tela, 110 x 72 polegadas
Colecção The Corcoran Museum of Art, Washington, D.C., EUA.
Foto de Jennifer Kotter, cortesia de Ronald Feldman Fine Arts, New York, copiada do website da PBS

O futuro imediato do jornalismo e do blogging

Bruá bruá bruá. Calem as matracas. O futuro imediato do jornalismo e do blogging já é. Até final deste ano, digo eu, será em todo o lado. Se não for em Portugal, azar do jornalismo em Portugal.

When readers visit an AP member Web site that uses AP Hosted Custom News, they will see a module featuring the “Top Five Most Blogged About” AP articles right next to the article text, dynamically powered by Technorati. Additionally, when readers click on an AP article, Technorati will deliver “Who’s Blogging About” that article. Now, if you have commentary about an AP story, you can get mentioned in that module simply by linking to that AP news URL, akin to what you can do with Washington Post articles, Newsweek articles, Der Spiegel articles, and a host of other media partners that currently work with Technorati.” (Technorati Teams With The Associated Press to Connect Bloggers To More Than 440 Newspapers Nationwide em Technorati News, via Ponto Media)

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ACERCA
mini fotografia paulo querido Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (Mais)

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