Arquivo de Abril de 2010

Leonídio no país dos atrasados

O título é de empréstimo de uma das aventuras de Tintin, o intrépido repórter imaginado. Mas este repórter não é imaginário, pelo contrário. Nem o país dos atrasos de vida que ele descreve em crónica no Diário de Notícias, assim se vê a força do TGV.

Pessoalmente, o que mais me irrita nas forças políticas que têm andado a bloquear o avanço lusitano para o comboio de alta velocidade é saber que eles sabem que eu sei que eles sabem que é tudo manobra política: o TGV é fatal como o destino, não apenas por razões exógenas, mas ainda por razões económicas. Far-se-á mais tarde ou mais cedo, seja qual for o partido no mando. É um assunto com o prefixo eco, e os assuntos com o prefixo eco não dependem das “decisões” políticas nem das opiniões alugadas a economicistas da moda.

O comboio a que alguns acham que temos direito

Deixo-vos com aperitivos para a leitura integral de uma crónica pertinente:

Imagine-se sentado no Maglev, o comboio chinês que anda a 500 km/h. Quando terminar de ler esta crónica terá já viajado 13 quilómetros. [...] Se um dia tivermos finalmente um TGV a ligar Lisboa a Madrid seria excelente a média de 250 km/h. Dava para avançar seis quilómetros enquanto lia este artigo sobre como o mundo se está a render ao fenómeno da alta velocidade sobre carris. Com os projectos em curso, em Marrocos como na Rússia ou na Coreia, a rede global passará de 11 mil quilómetros para 42 mil. O que dá que pensar, sobretudo se um dia destes viajarmos no Lusitânia, que todas as noites liga as capitais ibéricas a um ritmo em que, após lidos estes 2600 caracteres, só se andou dois quilómetros.
[...] Há 18 anos que a Espanha se rendeu à alta velocidade, com a pioneira ligação Madrid-Sevilha a bater por grande margem o avião, o que mostra que, mesmo na época das low-cost, a centralidade das estações e a ausência de check-in tornam o comboio competitivo.
[...] Os sauditas vão ligar por TGV Meca e Medina, os russos Moscovo e Sampetersburgo, os brasileiros Rio de Janeiro e São Paulo. Uma febre pela alta velocidade parece ter–se apoderado do mundo. Até nos Estados Unidos, onde o avião é rei e o carro imperador, está projectada a linha Los Angeles-Sacramento, relembrando esses tempos em que o comboio ajudou à conquista do Oeste

(Leonídio Paulo Ferreira, assim se vê a força do TGV. Imagem de cedezinho4)

Cebrián: “cabe-nos perguntar é que tipo de jornalismo queremos ter na rede”

Não dá para resistir a republicar algumas frases de Juan Luis Cebrián sobre O jornalismo e o fim dos jornais, como aperitivo para a leitura atenta da entrevista que o Observatório da Imprensa brasileiro reproduz do Estado de S.Paulo, 17/4/2010; título original “As teclas de Juan Luis Cebrián, fundador do El País”.

Ah, a isenção!…

“O envolvimento da imprensa com a política é um fenômeno antigo. O que é novo é a instantaneidade, a globalidade e a capacidade de transmissão de dados que, por si só, configura um poder fabuloso.”

Lá como cá (e alguém devia reflectir sobre isso):

“Na Espanha, a rede está ocupada pela extrema direita, que é sempre muito cáustica. Os chamados confidenciales, pretensamente noticiosos, são blogs que mentem, caluniam, sabotam, sem qualquer apuração.”

Fim “destes” jornais:

Os jornais, tal como os conhecemos, se acabaram. Adiós… (diz em tom teatral, balançando no ar um exemplar do El País). Não significa dizer que deixarão de existir. Esse adiós resulta tão somente da constatação de que os impressos pertencem à sociedade industrial, e não estamos mais nela

Umbigo e ego? Pobre blogs, aprendizes de feitiçeiro…

Nós continuamos a fazer jornais como se fôssemos o centro do mundo. Obama ganhou as eleições porque teve dois ou três editoriais favoráveis no New York Times ou porque contou com uma avassaladora campanha na internet? Creio que já me livrei da dúvida de se a internet é uma ameaça ou uma oportunidade.

Sobre o acordo ortográfico:

Fez muito bem o Brasil em estabelecer um acordo ortográfico que unifica a língua, pois se há 190 milhões de brasileiros, há outros tantos milhões de falantes do português em lugares como Angola, Moçambique, Macau ou Portugal mesmo, totalizando um mercado linguístico imenso. Vejo como uma boa oportunidade o Brasil globalizar suas publicações não só para o mundo que fala português, mas estendendo também ao mundo que fala espanhol. Se temos alguma dificuldade para entender o que vocês falam, não temos para ler o que vocês escrevem. E há uma cultura em comum. Sempre digo que Portugal não se separou da Espanha, somente da Galícia. E fez bem (ri).

E a jóia da coroa:

Gastamos horas e horas de discussão para saber se devemos ou não cobrar por nossos conteúdos na internet ou oferecê-los de graça. A esta altura do jogo, me parece uma pergunta sem sentido. O que nos cabe perguntar é que tipo de jornalismo queremos ter na rede. Não está claro.

Areia:
Penso que avestruzes já só restam no quintal português. Ignorem-nas e leiam O jornalismo e o fim dos jornais.

Ainda sobre os salários dos CEO: custos invisíveis

Há dias reflecti a propósito do salário de António Mexia (e outros CEO) e havia um pormenor que queria ter metido no texto mas escapou. Aqui vai.

Como disse, o salário de um CEO quase nada tem a ver com o seu desempenho particular, reflectindo sobretudo uma imagem de estatuto e de poder: imagem destinada ao interior da empresa ou grupo, ou imagem destinada ao mercado.

Acontece também o salário reflectir custos invisíveis. Qual é o custo para a minha empresa se este CEO for trabalhar para o meu concorrente direto? Avalio o que perco em competitividade, ou segredos industriais, ou metodologia de abordagem ao mercado cliente (ou aos produtores), o custo da transferência de imagem, e uma série de outras questões que, nada tendo a ver com o desempenho propriamente dito, os accionistas não podem dar-se ao luxo de ignorar. Essa avaliação pode facilmente fazer um salário anual disparar para o dobro ou o triplo, por razões que nunca se confessarão em público.

Devo acrescentar que estes custos invisíveis não são exclusivos dos CEO. Mesmo os quadros intermédios de uma empresa beneficiam — ainda que em escala geralmente mais modesta — do preço de um valor intrínseco que, sendo indiscutivelmente seu, não se associa à capacidade produtiva ou de trabalho (logo, ao desempenho) mas à informação (que é poder).

Estou a lembrar-me de exemplos de quadros de empresas públicas ou participadas e também de empresas privadas que, no impedimento de ganharem acima de uma tabela fixa, acumulam o cargo com consultorias e outras formas de remuneração indireta.

Sendo uma camuflagem, queiramos ou não, este tipo de remunerações que não contempla a produtividade (o que pode ser muito flagrante…) gera por vezes anti-corpos e incompreensões. Como pode um board explicar aos funcionários que o quadro X recebe mais tanto apenas como forma de não o deixar sair para a concorrência — ou abrir uma chafarica nova e passar a ser ele a concorrência?

Quanto mais acima numa hierarquia empresarial, mais frequentes serão estes casos em que ao valor produtivo de um funcionário se adiciona o seu valor informativo. Seja pela imagem (“então a empresa Zzz deixou sair fulano? Devem estar mal”), seja pelos contactos ou posicionamento (hoje chama-se networking).

Tudo isto me foi suscitado pelo caso Mexia. Não faço ideia quais destas explicações podem, ou devem, ser associadas ao caso. A mim parece-me um salário demasiado excessivo para este país nesta altura. Sei contudo que a EDP é uma empresa internacional, metade da sua facturação (ou do seu lucro, não recordo agora com precisão) vem dos mercados externos.

E sei que a EDP é uma das raras empresas de origem portuguesa (bem) posicionadas para abordar o mundo completamente diferente que vem aí nos próximos 10 anos. Um mundo com eventualmente menos decisão política e mais decisão económica. Um mundo com menos energia fóssil e mais energias das outras. Um mundo onde se deu uma transferência de poder dos intermediários para os destinatários. Uma economia que trucidará as classes médias como as conhecemos, incentivando o low cost e o brutal gain através da intermediação das tecnologias de informação de preço irrelevante e eficiência extrema.

O PSD, um alívio

É com um misto de tristeza e alívio que o digo. Tristeza pelo encargo suplementar que representa para o governo. Alívio pelo que representa para o país. Cá vai: o PSD voltou a ser um partido de oposição e a sua direcção voltou a fazer política.

Não é que eu não passasse muito bem com um PSD assarapantado, anquilosado e negativo. Passava mesmo muito bem e até me proporcionava material para divertidos posts. Mas é um alívio voltar a ouvir um discurso político em vez da caça ao homem. Mesmo que por causa disso este blog passe a ter (ainda) menos posts.

A propósito do salário de António Mexia (e outros CEO)

Nas leituras de fim de semana vi no New York Times a tabela “The Pay at the Top”, que relaciona os salários dos 200 CEO de topo nos Estados Unidos da América. Decidi partilhar e, para chamar a atenção dos leitores (defeito profissional, sem dúvida) decidi relacioná-lo com a realidade próxima, nomeadamente com a conversa sobre o salário de António Mexia.

O meu tweet foi:

O salário de Mexia colocá-lo-ia na tabela dos 200 + bem pagos CEO dos EUA. cf. tabela do NYT http://s3g.me/8qm

Foi imensamente retransmitido, e ainda bem. Algumas pessoas interpretaram o pequeno texto (tem estrategicamente 111 caracteres, para facilitar o retweet) como uma posição minha sobre o salário de Mexia. Quando tuitamos um link com uma mensagem nossa, e não apenas o título do artigo ligado, não fica claro se estamos a endossar, criticar, elogiar ou simplesmente a convidar as pessoas a lerem o artigo no destino. É da natureza do Twitter e nem vou entrar por aí.

A minha ideia quando publiquei esta nota não era discutir o merecimento, mas proporcionar uma comparação para um assunto que tem ocupado manchetes e conversas nas redes sociais.

Para entrar na conversa propriamente dita, vamos a isto.

Quanto ao merecimento, quero apenas dizer que se eu fosse accionista de qualquer empresa com voto na definição do salário do CEO, faria o que me fosse possível para que este não ultrapassasse 20 x o salário médio do país em que a empresa pagasse impostos. Isto à partida. Pois admitiria aumentar ou diminuir em 20% esse tecto em função da realidade social do país em causa. Também aceitaria prémios anuais em função da avaliação dos resultados financeiros, económicos e sociais da empresa, com pesos diferentes — mas com um limite máximo.

Transpondo isto para o Portugal actual: 16 x o salário médio seria a minha recomendação para o CEO da empresa, 8x para o board, 6x para os altos quadros e 2x para o resto do pessoal.

O salário de um CEO pouco ou nada tem a ver com o “merecimento”, e muito ou tudo tem a ver com o poder e a hierarquia dentro de uma estrutura.

Repetindo este conceito-chave: o salário de um CEO não decorre da produtividade do próprio, mas sim do curso do poder, da figura do próprio e da estrutura interna da empresa ou conglomerado. Os resultados financeiros de uma empresa são o exercício de um contínuo que envolve muitas peças, muitas pessoas, muitos tempos, não apenas o presente — e quanto mais complexa for a empresa e a sua dispersão de mercados, receitas e geográfica, menor é o contributo individual de qualquer dos seus assalariados, peças instrumentais (como participadas e sub-contratadas) ou mesmo políticas.

Resulta que o salário do CEO é sobretudo simbólico. Simbolo de poder, muitas vezes para fora da estrutura accionista, para o mercado, ou para os clientes; outras vezes para reforço do poder interno.

Para terminar: nem eu sou presentemente accionista de qualquer empresa cotada, muito menos com voto, nem a EDP é uma empresa privada normal, e António Mexia ganhou mais que Steve Ballmer (isto ao menos eu acho justo).

Eu não prego petas de 1º de Abril. E abomino-as

É uma embirração, se quiserem. Desde pequenino. Eu não prego petas de 1º de Abril. E abomino-as.

Serei pessoa de embirrações, admito.

Pregar petas no 1º de Abril está no mesmo saco de chupar música brasileira até à náusea na passagem de ano. Ou sair uma vez por ano, no dia 31 de Dezembro. “Divertir” por obrigação no Carnaval. Ou, quando em presença de elevada concentração de testosterona, assobiar às raparigas que passam, como um cão que faz chichi no pneu.

Estas são as minhas embirrações. Nunca me esquecerei da minha estupefacção, teria os meus 9, 10 anos, por ver um bando de alarves a divertirem-se puxando o chapéu aos trauseuntes, isto em pleno Carnaval. Detesto comportamentos em bando — deve ser esse o meu “problema”. Rio de mim ao espelho, como qualquer pessoa decente, e rio das palhaças e palermices que fazemos. Como quando um chapéu voa. Mas não consigo achar piada a essa cobardia infanto-juvenil de usar a força da maioria para achincalhar o incauto.

Hoje, mais um primeiro de Abril, protestei com a hashtag #diganaoaidioticedo1deabril no Twitter, fazendo contravapor ao que vai no #1deabril. E no Facebook juntei-me ao grupo diganaoaidioticedo1deabril.

Então não é que veio alguém protestar comigo, pregando moral? O 1º de Abril está ao nível religioso. Uma seita intocável, pelos vistos.

Desculpem qualquer coisinha, OK? Mas enquanto for um homem livre numa Internet livre, posso embirrar e ser socialmente incorrecto. Não temo ser minoritário. Ou mesmo único, quero lá saber, um ser humano é ele e as suas embirrações.

(Post em estéreo com o Ondas na Rede, o 1º blog do Correio da Manhã)

ACERCA
mini fotografia paulo querido Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (Mais)

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