
O Público publicou esta segunda-feira, 8, um artigo sobre os blogs. Intitula-se Uma década depois do boom, o que é feito dos blogues? e contém algumas declarações minhas.
Naturalmente, não couberam todas as minhas respostas às questões do repórter Mauro Gonçalves. Como é hábito aqui as publico um dia depois, para efeitos de memória e de arquivo.
As respostas dão, lá está, resposta a algumas dúvidas que já vi circularem agora, a propósito do artigo, dúvidas colocadas pelas mesmas mentes capazes de declararem veredictos, e professarem assassinatos de carácter, baseados em títulos de artigos e peças que nunca leram ou até num comentário de terceiro emitido por razões de ego — uma prática que ganha cada vez mais adeptos também nas redes sociais, onde começam a escassear os critérios para partilhar os assuntos, mas esses é um tema para outra altura. Como já escrevi antes, porque a ignorância militante é recorrente, as pessoas lêem o que cérebro as deixa ler.
Em Novembro de 2008 tinha introduzido o tema do fim da blogosfera, que de resto levei ao IV (e último, pelos vistos) Encontro Nacional de Blogs. No artigo sobre o fim da blogosfera publiquei a apresentação visual que serviu de base à comunicação apresentada no Encontro, bem como as explicações que quase ninguém leu mas cujo título ainda hoje é comentado, de tal forma o assunto impactou.
Seguem as respostas às perguntas do jornalista Mauro Gonçalves, autor da peça de ontem no Público.
P. Quais os principais “sintomas” que identificou que o levaram a falar no “fim da blogosfera”, há três anos atrás? A migração (por questões práticas) dos bloggers para outras plataformas, a perda do sentimento de “militância” partilhada pela comunidade de bloggers ou o natural esmorecimento de um entusiasmo inicial?
R. Uma mistura de duas coisas. Por um lado, a multiplicação de alternativas de comunicação de segunda e terceira geração. Nomeadamente o que hoje conhecemos por redes sociais. A componente de socialização é fundacional na blogosfera; à medida que as plataformas de socialização, como o Facebook, e de recomendação e partilha, como o Twitter, foram ganhando qualidade e volume, esvaziaram os blogs enquanto instrumentos de socialização, partilha e debate.
Por outro lado, o esmorecimento é um facto. Comprovado por dezenas de milhar de blogs abandonados. O surgimento de blogs coletivos nos últimos 3 anos é também sinal de cansaço, na medida em que é um reforço do estímulo: é mais fácil continuar a escrever num blog com mais autores, onde um dia — ou uma semana — sem um post de um dos autores não tem impacto no fluxo de posts que mantém a animação no blog.
Admito que o fim da ideia militante da construção de um “espaço novo”, de uma “alternativa ao jornalismo”, também contribua de forma afluente. Até porque os jornais começaram, muito oportunamente, a absorver alguns dos autores mais populares e, até, de qualidade. Mas as razões principais são: o surgimento de alternativas de comunicação e partilha mais apuradas e eficazes, em ambientes social e tecnicamente menos agrestes que a blogosfera, e o esmorecimento da maioria das pessoas, sobretudo das que publicavam histórias mais pessoais e intimistas, que eram o grosso quantitativo da blogosfera.
P. O abandono de muitos blogs que ainda hoje vemos é uma consequência dessa “morte”?
R. Não vejo outra explicação além das que já citei: novas plataformas mais eficazes para a conversa, o endosso e a partilha, e cansaço da “novidade”.
P. Em que sentido tem evoluído o blogging desde então, em Portugal?
R. No sentido da profissionalização, da competitividade e da especialização. O número de bloggers profissionais, que tiram um rendimento direto, em espécie, do seu blogging, aumentou, como previ. Se incluirmos os bloggers part-time, que tiram rendimento não desprezível do blogging mesmo que essa não seja a sua principal fonte de receita — e devemos fazê-lo, quanto mais não seja porque em avaliações semelhantes noutros países eles são incluídos entre os profissionais –, o número subirá para a casa das centenas.
Há, também, o blogging profissional sem remuneração direta: a motivação não decorre do sucesso comercial do blog, mas do que o blog apoie indiretamente. Um projeto, uma empresa, um setor de atividade, um lóbi — há diversos blogs com atividade séria e profissional, mantidos por razões deste tipo. Cada vez mais, diria. E tenderão a empregar bloggers, profissionalizando-os.
Há ainda um grupo de bloggers que compete pela atenção geral, procurando obter uma vantagem que permita o acesso aos postos de opinion-makers disponíveis nos meios convencionais — função que tem vindo a aumentar na razão inversa da descapitalização das Redações.
P. Numa primeira impressão pode perceber-se que, hoje, blogs temáticos como os de cinema, moda e gastronomia são os que mais persistem. É uma impressão com fundamento? Porquê?
R. Sim. A observação fundamenta-se em dois pilares interligados: o da capacidade criativa e o do potencial de retorno. Os autores com um gosto especial, uma conceito, um tema — uma especialização, se quisermos acabam a prazo por ser mais relevantes no que publicam do que os autores que comentam o dia a dia, a política, o desporto, a sociedade. E, porque têm um objetivo para o seu blog, têm ainda ganhos de persistência.
A Internet, com a sua já bem relevada característica “long tail”, recompensa os nichos e permite micro-operações de media impossíveis de reproduzir noutros meios. Uma publicação especializada, de foco estreito, como um blog de cinema, obtém um rendimento em publicidade contextual superior a uma publicação de espectro largo.
Os blogs de nicho permitem: a) fidelizar audiências de qualidade, pois são as interessadas naquela temática; e b) obter, para os assuntos relevantes no seu nicho, posicionamentos mais elevados nos resultados dos motores de pesquisa do que os blogs generalistas, recebendo leitores novos em maior quantidade, garantindo a renovação da audiência.
P. Actualmente existe ainda uma blogosfera ou apenas blogs?
R. Não tenho a certeza que possamos falar de uma blogosfera como falávamos em 2004 ou 2005. Mas seguramente temos várias blogosferas. A de esquerda, a de direita, a dos blogs de economia, a das agências de comunicação e relações públicas — microcosmos com núcleos fragmentados que mantém (ou aparentam) o nível de intercomunicação mínimo para que possam ser vistas como coletivos sociais e não apenas autores individuais.
P. Como caracteriza a actual actividade de blogging em Portugal?
R. Como oportuna e de qualidade. É curioso que estejam pela segunda vez a mostrar o caminho aos meios incumbentes e a colmatar algumas das suas falhas mais gritantes.
P. Considera que o universo das redes sociais substitui a “blogosfera”?
R. Penso tratar-se de uma evidência. A quantidade de conversas entre blogs diminuiu — hoje vemos posts seguidos sem um link, um contraponto, uma discussão. E a quantidade de comentários por post diminuiu na esmagadora maioria dos blogs — as pessoas que persistem tendem a concentrar as controvérsias nos posts dos blogs mais emblemáticos. A atividade social, uma marca distintiva da blogosfera na sua génese e período expansionista, passou para as plataformas que a facilitam, privilegiam a exploram.
P. Depois de “morta e enterrada” acha que ainda é possível revitalizar a “blogosfera”? Porquê e/ou como?
R. Não creio que ela esteja morta. A blogosfera simplesmente mudou. Deixou de ser notícia — o que, no nosso mediatizado mundo, é considerado como “morte”. Perdeu alguma importância social, mais que política, e viu-se esvaziada de algum poder mediático — que passou em parte para as redes sociais. Mas se isso desagrada a alguns egos inflados, representa uma normalização bem vista pelos que desejam usá-la, ou estar nela, com objetivos profissionais — ou meramente lúdicos.
Também não creio que a blogosfera da vaidade e do pretenciosismo possa ser revitalizada. Com tanta estrela na net, ninguém vai frequentar planetas e cometas.

Mas certamente que sim! é uma publicação de Paulo Querido, jornalista e consultor de comunicação. Também autor de livros, artigos e algum código. Na net desde 1989. (
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