Blogosfera: terra de factos ou de ficções? 

opiniao.jpgA blogosfera é uma terra onde os factos se misturam com as ficções, o real com o imaginário. Raramente se debate este aspecto — aconteceu esta semana em Lisboa, na sequência da apresentação de um livro de Luis Carmelo (escritor e blogger também aqui no Expresso, com Episódios e Meteoros).
A apresentação da obra “A expressão na rede — o caso dos blogues” levou à Casa Fernando Pessoa alguns bloggers conhecidos, a começar por Eduardo Pitta, do Da Literatura, a quem coube a introdução ao livro. Mas não é do livro que aqui se trata: o debate que se seguiu teve os seus momentos desconcertantes, mas separada a irrelevância houve uma ou duas interrogações sublimes. Destaco duas.
A resposta à questão recorrente de Paulo Gorjão (O cachimbo de Magritte) acerca do jornalismo do cidadão — um crítico dos media que em regra é pertinente nas fragilidades que aponta, o que é de saudar num meio abundante em crítica de chouriço, superficial e óbvia — não é dada pelo instante que os dois meios, blogosfera e Imprensa, atravessam.
É claro que num suporte que democratiza o acesso à comunicação de massas os jornalistas perdem a quase exclusividade de contraponto e de garantes de informação válida.
Mas é menos claro que das massas de editores venha alguma vantagem além da meta-informação que poderemos retirar da sua crepitante actividade opinativa: podemos mais depressa ver as tendências de resposta pública de certos grupos sócio-profissionais, por exemplo. De tais massas — isto é, da blogosfera — emerge um punhado de vozes que se importa e que ao longo do tempo estabelecerá, ou ajudará a estabelecer, novos acessos e novos padrões. O caso dos bloggers acreditados para cobrir as eleições americanas, como notou Eduardo Pitta, é um comprovativo: são numericamente ínfimos, irrelevantes no contexto colossal da blogosfera.
Somos levados a pensar que essas vozes teriam facilmente lugar nos tradicionais meios de comunicação de massas — e é seguro que teriam, caso eles vivessem debaixo de uma ordem económica de menor escassez, digamos assim. Como os media só se mostraram capazes de absorver uma quantidade ínfima de talento, não necessitando de mais para viver, os outros talentos encontraram agora um mecanismo de se fazerem notar.
Mas extrapolar daqui que todas as vozes são iguais na blogosfera é um óbvio disparate.
O que me leva à outra interrogação — que já esbocei muito levemente numa conversa com Luis Carmelo, mas o tempo é-nos inimigo: a interrogação sobre as fronteiras entre o verdadeiro e o falso, entre o real e a ficção.
Nos últimos 200 anos (estou a simplificar) a aprimoração da indústria da edição de jornais e livros (a edição vinha de trás, de Gutenberg) habituou-nos a olhar o mundo fragmentado: de um lado a busca da verdade (os tomos de história, o jornalismo), e do outro a ficção (os romances, as escritas técnicas para as artes e performances).
Um dos produtos dessa aprimoração foi o estabelecimento de uma identidade autoral — como bem notou Carmelo — que tem raízes pouco profundas, não indo para lá do Romantismo.
Antes disso, a autoria era uma excepção e não uma regra.
Os blogues e a edição fácil num meio relacional instantâneo (prefiro assim por oposição à noção do directo radiofónico e televisivo, onde ocorre uma ditadura sobre a assistência sem voz) devolvem-nos de alguma forma a uma Idade Média onde a autoria é pouco relevante no contexto, seja da obra, seja do diálogo.

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Com menos instrumentos que separem com clareza aceitável, pelo menos, nas suas duas prateleiras a ficção e a descrição do real como ele é convencionado nesta época e sociedade, caímos (vou descontextualizar uma palavra que Pedro Rolo Duarte empregou) num caos no qual os mirones serão incapazes de distinguir, numa mesma página, o facto da ficção.
Não é por acaso que a blogosfera — que não poucos autores de nomeada vêem como o popular instrumento do resgate da verdade escondida pelos jornalistas e elites culturais — é um terreno fértil para a gama completa de teorias da conspiração, completa em género, grau e também meio, com a força do video a comandar via YouTube os destinos intelectuais de milhões de jovens (se achavam que não havia meio de manipulação de massas mais perigoso que a televisão, desenganem-se).
Como a Wikipedia levanta a questão do poder discricionário sobre o estabelecimento da verdade, a blogosfera levanta a questão da fronteira entre facto e ficção. Numa idade de trevas como esta, o papel do jornalista não está ainda claro — mas é evidente que a sociedade precisará de informação certificada e de linhas claras entre ficção e realidade. Levantará por muito tempo — até que os mecanismos de certificação das vozes (em torno do qual se estabeleceu a economia da informação ora espatifada pela rede) sejam reencontrados.
Se é que vão voltar a ser encontrados.

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