Os bloggers dependem bastante mais do trabalho dos jornalistas do que o inverso 

A revista Jornalismo & Jornalistas aborda exaustivamente o tema Os Media e a Blogosfera e na sua edição de Abril/Junho, já disponível, publica a segunda parte do dossiê, da autoria de Helena de Sousa Freitas.

Uma das peças é uma entrevista em que sou o sujeito. Reproduza-a abaixo, com a nota: a revista tem um natural tempo longo de recolha, preparação e feitura e as minhas respostas foram escritas em Dezembro de 2009.

Antes disso, a apresentação do dossiê:

Simbiose ou parasitismo? Blogues e agenda mediática
O tema é regular em debates e encontros mas o consenso parece difícil, mesmo entre os profissionais com presença nos dois terrenos. Afinal, os jornalistas “picam” os blogues e fazem-se donos da notícia? Ou o procedimento é inverso? E, em termos de agenda, quem dita e quem segue? Admitir que se consulta a blogosfera causa embaraço nas redacções?


Entrevista: Os bloggers dependem bastante mais do trabalho dos jornalistas do que o inverso

Pergunta: Acompanha a blogosfera desde os seus primórdios. Como percepciona, actualmente, a relação entre jornalistas e bloogers? Estão do mesmo lado da barricada ou em trincheiras opostas? Há uma relação de interdependência?

Resposta: Há que separar as realidades. A relação jornalistas-bloggers é diferente em diferentes regiões do planeta e nos EUA não é, sequer, como a portuguesa: do outro lado do Atlântico há muito mais informação publicada em primeira mão por bloggers.

Assim, direi que já passaram os tempos das barricadas: em 2003-2005, no início da explosão da auto-edição, existia essa dicotomia, mas foi desaparecendo.

Hoje há uma relação de interdependência, sendo que os bloggers dependem bastante mais do trabalho dos jornalistas do que o inverso. São os jornalistas que mandam na agenda da relação, uma vez que são eles quem produz a matéria que vai servir de alimento à actividade dos bloggers; o caminho inverso existe, claro, mas com muito menor frequência.

Apesar disso, nas redacções — sobretudo nas secções de política — dá-se muita atenção à opinião dos bloggers e o sentido desta é, por vezes, determinante nos ângulos de aproximação aos factos, acontecimentos e pessoas. Considero isto normal e até desejável: o jornalista está hoje menos isolado do mundo e sabe melhor como pensam, e reagem, alguns públicos — os mais esclarecidos ou, se preferirmos, os mais interessados.

Em Portugal há, curiosamente, alguns sectores onde a relação bloggers – jornalistas não fez faísca alguma. Dois deles: o noticiário sobre celebridades e a informação tecnológica, da Internet, redes sociais e noticiário económico ligado a elas. No primeiro caso, julgo que por o mercado estar bem dominado e circunscrito. No segundo, por causa das inexistências de parte a parte. Falo destes dois por ambos terem algum peso em vários países, incluindo o lusófono Brasil.

P – E que diferenças fundamentais encontra entre estes dois espaços? A oposição jornalismo/blogosfera sublinha a antítese informação versus opinião?

R – Por um lado sublinha-a, sim. Para simplificar, digamos que o custo de produzir opinião é bastante menor que o custo de produzir informação. Um blogger, mesmo que exerça jornalismo amador de alguma forma, não dispõe dos recursos necessários à produção de informação, que envolve vários processos consumidores de tempo e até de dinheiro. A recolha de informações, a procura da verificação, por vezes em muitas fontes distintas, dessas informações, a confirmação, o tratamento, a produção multimedia, quando a haja… Mesmo com os maravilhosos recursos informáticos e da própria rede, todo o processo carece de recursos que não estão ao alcance da maioria dos bloggers.

É claro que algumas vezes, nalgumas situações, um grupo de bloggers pode entreajudar-se e produzir uma peça de informação capaz de rivalizar com a peça de um meio para o mesmo assunto/acontecimento — mas essas são as excepções que confirmam a regra, e a regra é: a informação é cara.

Com isto não quero dizer, muito pelo contrário, que não haja pontos de contacto e até de cooperação no processo, com ganhos mútuos. Estou apenas a responder à questão concreta e a resposta não deixa margem a dúvidas: em geral, a blogosfera não rivaliza com o jornalismo na produção de informação, sendo sobretudo isso que separa os dois mundos.

Dito isto, um reparo: da blogosfera americana, sobretudo, mas também da francesa e da espanhola nasceram diversas novas marcas de media que produzem informação do melhor nível. Publicações como o Mashable e o Techcrunch nasceram como blogs, das mãos de bloggers, mantêm essa matriz mas profissionalizaram processos e tornaram-se tão boas nos seus nichos como as publicações de matriz jornalística, quando não melhores. Aspecto comum a estas profissionalizações: a contratação de jornalistas, articulistas e outros autores e profissionais de media.

Em Portugal não vingou até à data nenhuma publicação alternativa, embora no campo do futebol existam projectos com perspectivas auspiciosas, caso optem por se lançar nessa aventura.

P – A maioria dos sites de órgãos de comunicação tem espaço para o comentário dos leitores. A blogosfera trouxe algo de novo a esta interação com os jornalistas?

P – Trouxe muito: trouxe uma verdadeira revolução. Até aos blogs a interacção entre leitores e jornalistas — ou o que estes produzem, as peças, notícias, etc — era muitíssimo reduzida e sempre filtrada. Era assaz comum um jornalista passar décadas em que as únicas interacções com leitores eram ao nível dos vizinhos do bairro que estivessem a par da sua profissão. E mesmo quando os jornais começaram a abrir, dando algum destaque às cartas, os espaços eram naturalmente subalternizados.

Com a blogosfera tudo mudou. O comentário do leitor não está nem sujeito aos cortes pelas razões de espaço e oportunidade, nem condenado à subalternidade. A hierarquização do comentário depende apenas da qualidade da sua mensagem. Não raro, atinje o patamar da correcção ao artigo; e se contribuir com dados novos, esquecidos, ou pertinentes, melhor.

É claro que a maior parte dos comentários se fica pelos patamares do posicionamento do leitor face à notícia, aos intervenientes ou ao autor dela, mas isso é irrelevante: importa que a interacção aumenta por força da abertura e de maior transparência na relação.

P – É jornalista e blogger. O público fará a distinção entre o cidadão e o profissional? Ou, “uma vez jornalista, sempre jornalista”?

R – O público faz o que lhe apetece — o que é um pouco cruel. Na última campanha eleitoral emiti opiniões e posições claras de apoio a um partido; os apoiantes desse partido sublinharam-nas, acentuando a origem com o intuito de aproveitar parcelarmente o prestígio do jornalista; os apoiantes do partido rival gritaram a minha condição de jornalista, no intuito de afectar a minha credibilidade e assim diminuir o suposto impacto das minhas frases.

Em “público” incluo, até, directores de jornais — também são público. Um director de jornal (e meu ex-sub-diretor meu) chegou ao ponto de fazer lembrar que eu não constava da lista da Comissão da Carteira Profissional — logo, não era jornalista.

Continuo a achar o mesmo de há 30 anos. O jornalista tem direito à opinião e deve expressá-la devidamente identificada. O meu blog é um espaço de opinião, não de informação, que só episodicamente ali terá lugar.

Crédito da fotografia: doingmediastudies

P – No livro “Blogs”, que escreveu com Luís Ene, é dito que foi sobretudo com a blogosfera que os cidadãos passaram a ter um acesso directo às massas, até ao início deste século reservado aos profissionais da comunicação social. A classe jornalística tem, então, de repartir o seu poder?

R – Sim. Isso já está a acontecer um pouco por todo o mundo, em velocidades e escalas diferentes. Um dos mais vistosos poderes, o de provocar e liderar causas sociais, foi um dos primeiros. Com as redes sociais a potenciarem a capacidade organizativa de indivíduos e colectivos, sobram poucas ou nenhumas “causas” para o jornalismo liderar. Pode, quando muito, fazer eco, juntar-se-lhes. Exemplo recente: a pressão de abertura e democracia no Irão nasceu no Twitter e foram cidadãos, usando essa rede de distribuição de informação, que lideraram o processo.

Outro poder que já está repartido, para não dizer perdido, é o poder de certificar a “verdade” e quais das verdades são as mais importantes (a primeira página). A Wikipedia, o Digg e os outros mecanismos de agregação de sabedoria e de crowdsourcing desmantelaram esse poder de certificação.

Terceiro exemplo, o do endosso. A capacidade de influência dos críticos tradicionais — do cinema aos vinhos — diminui na proporção do surgimento de mecanismos alternativos, como os sites de recomendações que também usam técnicas de crowdsourcing, e do alargamento das redes sociais; quanto mais natural é o uso destas, mais as pessoas tomam as decisões do dia a dia, como ver um filme ou escolher o restaurante ou hotel, em função da proximidade, da consulta aos pares, e não em função do crítico/jornalista.

Finalmente, cada vez mais fontes de informação — de empresas a governos — usam as redes para distribuir as suas versões dos factos; a quantidade de informação aumenta, bem como a quantidade de receptores capazes de a avaliar e redistribuir acrescentando valor, através de um juízo (opinião) ou de conjugação de informação para produzir uma análise independente.

Mas o preocupante não é a divisão de poderes. O preocupante é a reacção das empresas jornalísticas à divisão de poderes: surgem aos olhos dos seus leitores com um maior grau de comprometimento com as fontes e com os sectores. Em vez de reforçarem as suas competências para se distinguirem, parecem ter optado por desbaratar o seu prestígio, sacrificando a independência e o rigor.

P – Não estará a blogosfera a alimentar a ideia de que qualquer pessoa pode ser jornalista?

R – A blogosfera trouxe a democratização do acesso aos meios de produção, às ferramentas de edição e de distribuição do produto jornalístico. Antes dela, o indivíduo que queria ser jornalista tinha de ir para um jornal, único local onde dispunha das ferramentas; com ela não precisa de o fazer: vive imerso nas ferramentas e na informação.

Agora, é verdade que no início a vertigem do poder de publicar deu a muitos a ilusão de que podiam atingir o patamar de poder do jornalista só porque tinham um blog. O poder do jornalista conquista-se ao longo do tempo, num processo de fins nem sempre garantidos. Nesse tempo o jornalista é submetido a provas, que tem de superar. Qualquer pessoa pode ser jornalista e hoje é mais fácil chegar lá, contudo não é jornalista quem quer, mas quem consegue superar a aprendizagem e revelar-se competente na função.

P – A prática num blog pode vir a suscitar, no seu autor, interesse pelo jornalismo enquanto profissão?

R – Poder, pode. As semelhanças dos meios — publicação, audiência, resposta — leva alguns a pensar nisso. Mas a esmagadora maioria desiste. O jornalismo profissional demanda em permanência recursos a que um blogger individual acede episodicamente, a começar pelo tempo e a acabar no dinheiro.

P – Criou a primeira plataforma de blogs portugueses, a weblog.com.pt, tendo depois organizado uma rede dos blogs que considerava de referência, a Tubarão Esquilo. Este trabalho de agregação, selecção e disponibilização de informações num único local é, ou poderá vir a ser, uma das funções do jornalista no meio digital?

R – Já é. É um dos primeiros trabalhos remunerados pela rede. Não é por acaso que o Google — e, à escala portuguesa e num contexto ainda mais acentuado, o Sapo — triunfaram. O Sapo deve uma grande parte do seu valor enquanto marca à agregação do produto jornalístico, tendo começado por fazê-lo desde muito cedo, o que foi fundamental e determinante para o seu sucesso.

Mas a agregação de produtos jornalísticos do Sapo obedece exclusivamente a uma lógica comercial. Isto é: agrega o que compra. Não é um critério jornalístico. Funciona numa economia de escala, não persegue o objectivo de noticiar.

A agregação na verdade produz pouco valor — é por isso que só funciona, autonomamente, na escala aplicada pelas tecnológicas. Contudo, o jornalista deve fazê-la na medida em que esse pouco valor se possa somar a outros, num contexto em que o seu olhar, a sua capacidade, tornará as suas escolhas mais ricas que os automatismos e as rotinas.

De qualquer forma: a criação do weblog.com.pt — posteriormente comprado por um grupo de media que não soube fazer nada com ele — só remotamente tinha alguma ligação ao jornalismo. Criei-o para perceber melhor o que eram os blogs e qual o potencial das tecnologias que os sustentam; o êxito veio depois, e para minha surpresa. Já a TubarãoEsquilo partiu de um conceito que é parente do jornalismo: juntar personalidades e projectos com capacidade de conquistar audiências, em especial no campo da opinião, com alguns projectos eminentemente informativos de permeio. Se tivesse vingado, seria hoje uma espécie de órgão de comunicação social distribuído.

P – A blogosfera concorre já, ou tem condições para vir a concorrer, com os órgãos de comunicação social tradicionais? Pode ser, realisticamente, vista como uma ameaça?

Se tomarmos a blogosfera isoladamente, não é grande ameaça… Concorre em áreas como a opinião política, o mexerico (excepto em Portugal, onde os órgãos incumbentes dominam), mas sem ameaçar o essencial dos OCS, que é a informação. Tem, sim, um papel afluente em termos da distribuição da informação produzida pelos OCS: os links, e os comentários, dos blogs levam diariamente milhares de leitores aos sites dos jornais. Na verdade estes deviam pagar pela deferência dos bloggers — e em muitos casos fazem-no, naturalmente nas moedas da rede: o Público retribui os links nas notícias, o Diário2 associa os tweets, e há outros mecanismos de retribuição.

Agora, quando juntamos à blogosfera o resto do que hoje, em traços largos, se denomina por web social — os agregadores como o Digg e, em Portugal e Brasil, o DoMelhor, a Wikipedia, o Twitter e o Facebook, para dar os exemplos clássicos –, então vemos mais poderes ameaçados: o privilégio do acesso às fontes, o poder de certificação, o poder de endosso, o poder de distribuição em massa… Sem esses poderes enclausurados numa cerca com uma caixa registadora na entrada dos consumidores (os leitores) ou da caixa registadora do acesso à audiência (a publicidade), não há negócio para os OCS.

P – Recentemente avançou com dois novos projectos na Internet, o diario2.com, de jornalismo colaborativo, e o jornalist.as, que reúne vários profissionais da comunicação em língua portuguesa. Como descreve estas iniciativas?

R – O jornalist.as é um hóbi e não tem grandes pretensões. Não sei qual será o seu futuro — gostava de o associar às organizações da classe, mas estas parecem não fazer ideia do que se passa na rede, muito menos do que a rede, e os jornalistas que cada vez mais a usam, espera que elas façam. Foi pensado para centrar as actividades ligadas aos jornalistas e ao jornalismo em língua portuguesa.

O Diário2 é diferente. Nasceu da minha necessidade de ter um laboratório para experimentar jornalismo em rede e do completo desinteresse dos OCS portugueses pelo assunto. Algumas das soluções a experimentar ali, nos próximos tempos e à medida que for possível fazê-lo, foram oferecidas a órgãos como o Expresso, a SIC, o Jornal de Negócios ou a RTP, sem falar na Lusa, e senti-me como um viajante no tempo que vá ao século XIX vender aspiradores.

O Diário2 não tem financiamento externo, tem uma visão realista de si próprio e um plano de negócios estabelecido: avançará passo a passo, em função das receitas que obtiver. É um projecto ímpar em Portugal, o que não significa que seja necessariamente o projecto certo. Digamos que é uma experimentação de pessoas que preferem fazer em vez de ficar paradas a assistir.

Publicado por Paulo Querido in blogosfera, media, pessoal. Bookmark permalink.



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