5 cêntimos sobre o “caso” Freeport

O caso Freeport teve o condão de me afastar ainda mais dos noticiários da SIC-Notícias e em especial do Jornal de Mário Crespo. É capaz de ser erro meu, mas eu aprendi que o jornalismo era outra coisa e burro velho não está para aprender aquele tipo de, er, derivados.
Este é o cêntimo um. Os cêntimos dois e três e quatro e cinco:
Val, Ataque à diligência
Eduardo Pitta, Absolut Silly
Pedro Adão e Silva, O fim da presunção de inocência (video)
(“O direito à presunção da inocência em Portugal simplesmente não existe e o Freeport enterrou definitivamente esse direito” – bong bong bong bong bong!)
Isabel Moreira, Dos prognósticos no fim do jogo à revelia do Estado de direito: a concretização de uma ideia gira (ficção)
bluesmile, nos comentários: “Kafkiano, todo este processo.
E a gravidade de tudo isto não é o facto da vítima ser José Sócrates mas de pensar qualquer um de nós pode ser o próximo Sócrates…
Tenho a impressão de estar a assistir em directo ao implodir do Estado de Direito e de todos aquels princípios básicos de Direito Penal que nos ensinaram nos bancos da faculdade.“
A análise política portuguesa hoje, em 3 letras:
Hoje e, suspeito, enquanto não houver incêndios e/ou regresso às aulas. A razão é simples: os “indicadores” económicos são agora todos positivos para o governo, tirando o malvado desemprego, e politicamente é altura de Passos Coelho tirar umas “piquenas” férias da sobre-exposição mediática. Evitar o nariz do Pinóquio e as “mentiras”, porque é por demais evidente que ninguém mais tem um grama de paciência. Resta chafurdar nos restos do Freeport. Ressuscitar o diploma. Vamos lá, rapazes. You can do it! FUD nisso!
Da cartilha dos aspirantes ao poder, ou mesmo só à margem dele
Da cartilha dos aspirantes ao poder, ou mesmo só à margem dele, versões tu (esquerda) e você (direita):
Quando a fação que te/lhe prometeu cargo sair derrotada, tratar cada protagonista da fação vencedora de “arrogante sequioso de poder e protagonismo” e variantes. É o mínimo que se espera de ti/si.
“Mais do mesmo”, “partidocracia”, “inapto”, “negociata”, “factos” são excelentes palavras para temperar os ataques de rotina a desferir através da blogosfera: dão o toque-elite, tão imprescindível para o ego suportar os maçadores e longos períodos entre eleições. Mas cuidado!, não se devem usar na televisão, nem mesmo nos jornais diários, onde isso das elites é uma marca pop. Aí fica mal, dá um de ressentido.
(a suivre)
Rui Tavares cria bolsas de estudo financiadas pelo seu ordenado de eurodeputado
Este é um guest-post da autoria de Marco Santos, publicado originalmente no seu blog, o Bitaites, sob o título O deputado que quer dar 1500 euros.
Actualização: Rui Tavares publicou há pouco no seu blog o texto onde apresenta a bolsa. “Há uns tempos tive uma ideia: tirar uma bolsa do meu bolso. Não o faço para dar a ninguém lições de política, redistribuição, caridade ou o raio: faço-o porque quando satisfazemos um capricho nos sentimos mais livres e porque este é o momento adequado“.
O eurodeputado português Rui Tavares vai lançar bolsas de estudo que cobrem várias áreas profissionais. As bolsas vão ser financiadas por ele: Tavares prescindirá de 1500 euros por mês, sensivelmente 1/4 do seu ordenado, para ajudar candidatos a bolsistas.
Quem estiver interessado em candidatar-se, deve pedir informações para este email: bolsas arroba ruitavares ponto net. O regulamento será publicado no blogue do eurodeputado até ao final deste mês.
Nos meses de Julho, Agosto e Setembro será feita a recolha das candidaturas. «Tenciono começar a dar as bolsas a partir de Outubro», revela Rui Tavares em conversa telefónica comigo.
As bolsas não terão limite de idade, critérios de nacionalidade ou restrições temáticas. A verba poderá corresponder a duas bolsas de 750 euros ou a uma de 1500, dependendo do interesse do projecto.
Quem vai avaliar os projectos é o próprio Rui Tavares, embora possa «mostrá-lo a pessoas que trabalham comigo, colegas no Parlamento, solicitar uma opinião no caso em que estiver inserido numa área que não domino».
Para limpar a iniciativa, Tavares ressalva que os candidatos a estas bolsas excluirão gente com quem tenha relações pessoais, funcionários do Parlamento Europeu, Parlamento português e do Bloco de Esquerda (BE), o partido que o elegeu. «Por lapso, as primeiras notícias afirmavam que os militantes do BE estariam excluídos, mas não é verdade, apenas os funcionários o estão», afirma.
1500 euros é muita massa, pelo que das acusações de demagogia barata deve estar safo. Os próximos tempos dir-nos-ão se o jovem eurodeputado (é irrelevante neste caso o partido a que pertence) não será mais uma vítima da forma como o português encara a classe política: por um lado, os políticos são chulos que não fazem nada; por outro, demagogos que só agem para caçar votos.
Eis o que o próprio Rui Tavares tem a dizer sobre o assunto.
«Demagogia? Estou-me nas tintas!»
Está preparado para as acusações de demagogia e o que tem a dizer aos que o acusam de ser uma decisão populista?
Rui Tavares – Não estou preocupado com isso. Já tinha a ideia de o fazer há muito tempo. Era uma promessa a mim próprio, uma espécie de capricho, quando a possibilidade de ser eleito para o Parlamento Europeu era ainda muito remota. Estou-me nas tintas se é vista como uma decisão demagógica ou populista. Tenho uma enorme satisfação pessoal em fazê-lo.
Também há quem o acuse de brincar à caridadezinha, como cantava o José Barata Moura.
R.T. – Não. A minha preocupação não é avaliar a pobreza dos candidatos, mas contribuir para que as pessoas concretizem os seus objectivos baseando-me na avaliação que for feita à qualidade dos seus projectos – alguns dos quais, estou certo disso, até eu gostaria de fazer. O que sei é que ficarei muito contente por os ver concretizados.
Existe outra acusação: o facto de eu ter divulgado esta iniciativa, não a ter mantido para mim. Acontece que a divulgação é necessária para que surjam bons projectos. É desejável que associações, instituições e ONG’s saibam. Gostaria que se tornasse um catalisador, levasse mais pessoas a envolver-se. Existiram outras iniciativas que só a mim me dizem respeito, mas neste caso achei que seria positivo divulgar.
Tenciona tornar a sua iniciativa num projecto mais abrangente, aberto a todos os que queiram aderir?
R.T. – Dou-lhe um exemplo: o jornal Público, onde escrevo uma crónica semanal, disponibilizou-se a receber na sua redacção um desses bolseiros, caso a área de estudo seja compatível. Seria óptimo que associações ou ONG’s seguissem este exemplo.
Durante quanto tempo manterá esta iniciativa?
R.T. – Até ao fim do meu mandato como eurodeputado.
Afirma que a verba poderá corresponder a duas bolsas de 750 euros ou a uma de 1500, dependendo do interesse do projecto. É você quem irá avaliar os projectos?
R. T. – Sim, a avaliação é pessoal. Posso mostrar os projectos a pessoas que trabalham comigo, colegas no Parlamento, solicitar uma opinião no caso em que estiver inserido numa área que não domino, mas a avaliação é feita por mim.
Já algum colega deputado o abordou dizendo «Agora é que me lixaste, abriste uma caixa de Pandora»?
R. T. – Não, ainda ninguém falou comigo. Os colegas do Bloco de Esquerda que sempre souberam desta iniciativa – Miguel Portas e Marisa Matias – apoiaram-me, acharam uma boa ideia. Por isso, a resposta é não.
De 1 a 10, numa escala de insanidade, que valor atribui à sua decisão?
R.T. (risos) – Bem, é uma insanidade bem intencionada, qualitativa. Prefiro não responder com números!
NOTA: Publicado originalmente no Bitaites sob o título O deputado que quer dar 1500 euros.
Coisas que irritam: receber uma “newsletter” comercial não solicitada com “notícia” de há um mês
Se há coisas que irritam, uma delas é ter na primeira leva de correio matinal uma “newsletter” não solicitada com notícias de há um mês a embrulhar o comercial peixe. E saber que os deputados europeus gostam que assim seja e a União mantenha a inacreditável e anacrónica legislação de opt-out que só protege os scammers e spammers, borrifando-se nos cidadãos.
Uma tal “Clínica Informática” redigiu e expediu o seguinte mimo:
“O porquê da nossa Newsletter ?
A Clinica Informática iniciou uma nova etapa na sua carreira, começando por inaugurar a sua loja online com milhares de produtos e um serviço de newsletter com um formato que julgamos ser interessante, ao qual poderá Subscrever.
Assim, em todas as nossas edições teremos noticias e novidades do mundo tecnológico nas suas diversas áreas, para que esteja sempre a par das formas de rentabilizar o seu negócio em altura tão dificil como esta que estamos a atravessar.
Noticias !!”
E a “noticia” tem mais de um mês.
A tal “Clínica Informática” decidiu incluir à força um endereço de correio meu na sua newsletter julgando que a proteção legal sancionada pela União Europeia a isenta de responsabilidade nessa atitude de violação e invasão da minha esfera pessoal.
Pois fique a “Clínica Informática” a saber que lhe fica muito mal. Há cidadãos que, como eu, colocam automaticamente um filtro no mail que se encarrega de despejar no lixo a vossa tralha não solicitada, sem sequer a ler. Afinal de contas, e respeitando a mesma lei que VOS protege, à primeira todos caem, à segunda só cai quem quer.

Não carregarei em botão nenhum para acção alguma: a responsabilidade da inclusão do meu endereço foi VOSSA e eu não a partilharei seja de que forma for — nem sequer premindo um botão para “sair”, de cujos efeitos duvido desde logo, tendo em conta a vossa aproximação despudorada.
Nem sequer vos direi que mail meu é que usaram para me incomodar — trabalhem, ou paguem, se já o fizeram para o obter, podem certamente fazê-lo de novo. Não contarão com a minha boa vontade porque eu não tenho nenhuma boa vontade para convosco.
Queridos deputados europeus: poderão os cidadãos sonhar com uma revisão da Diretiva 2000/31/CE — conhecida por lei de protecção dos spammers?
Hoje é um bom dia para tirar o pó a esta musiqueta
Complementando este post (com video) do Arrastão, and
Caso Gago comprova: Internet e pirataria, isso é tudo a mesma cáfila
“Hoje em dia um grupo pode adquirir uma notoriedade impensável graças à rede e pode inclusivamente rentabilizar isso em concertos e, porque não, aumentar as vendas de discos graças à popularidade”, era uma das frases atribuídas ao ministro português, que detém a pasta da Tecnologia.
Não leio nesta frase nenhuma ligação à pirataria. É, aliás, uma frase clássica hoje em dia. Clássica de verdadeira, aquelas verdades comprovadas pelo passar do tempo. Tão clássica que fica bem a um ministro dizê-la. Mas isto sou eu. Jornalistas de uma agência espanhola traduzem “Internet” por “pirataria”. Um jornal vai atrás, e todos vão atrás dele, é o caminho natural das “notícias” e das notícias.
E não são só eles. É uma moda que pega depressa, muito depressa num classe ansiosa por encontrar culpados para algo tão banal como a substituição de modelos de negócio por fim de ciclo. E que encontra solidariedades fáceis noutros negociantes do sector dos transportes de cultura, arte e entretenimento, bem ancorados numa teia legal irrealista e desfasada da sociedade actual.
As indústrias baseadas nessa malha legal e no transporte de suportes de produtos culturais, informativos e de entretenimento produzidos por terceiros travam a sua batalha pela sobrevivência num mundo conetado e numa sociedade em rede que tornou esse mesmo transporte anacrónico e retirou o sentido e a razão à existência dessa camada de intermediação (que em regra se fazia pagar muitíssimo melhor do que os produtores originais, que realmente interessavam aos consumidores).
Os seus tentáculos legais, sob a forma de associações, e o exercício do seu poder corporativo, ou das suas influências naturais dentro das suas redacções, são instrumentos poderosos desse combate de resistência. A indústria que se gabou de vender sabão e presidentes não era agora capaz de impingir o seu próprio conceito sobre o que é pirata e ilícito, oh oh.
Nada disto me irrita já, se querem saber. Mas gosto de ver um ministro criticado justamente, não de o ver ser vítima da miopia e dos maus instintos de diversas corporações, incluindo de benfeitores.
Adenda: um bom trabalho do Marco a lançar mais luz sobre o que disse e como disse Mariano Gago: O que Mariano Gago realmente disse.
O PSD, um alívio
É com um misto de tristeza e alívio que o digo. Tristeza pelo encargo suplementar que representa para o governo. Alívio pelo que representa para o país. Cá vai: o PSD voltou a ser um partido de oposição e a sua direcção voltou a fazer política.
Não é que eu não passasse muito bem com um PSD assarapantado, anquilosado e negativo. Passava mesmo muito bem e até me proporcionava material para divertidos posts. Mas é um alívio voltar a ouvir um discurso político em vez da caça ao homem. Mesmo que por causa disso este blog passe a ter (ainda) menos posts.
A Verdade

Enquanto escrevo decorre a contagem de votos no PSD, que apresentará daqui a minutos — provavelmente já apresentou quando o leitor me lê — um novo presidente. Que venha e melhore o partido e faço votos para que não o trucidem, não desejo o mal de ninguém, mas não é dele que quero falar. É da direcção cessante.
O consulado de Manuela Ferreira Leite representou um desastre ao pior nível do PSD. A contabilidade é fácil de fazer.
Ao nível do discurso, apresentou sistematicamente narrativas negativas, sobrecarregadas de ódio, com semânticas negras.
Ao nível das ideias políticas, foi um consulado dominado pelo ataque ad hominem: pouco mais se viu do que um trabalho de minas & armadilhas às pessoas do executivo, com José Sócrates omnipresente no mira das bazucas. Tirando a habilidade temperada de José Pedro Aguiar-Branco no Parlamento, as imagens que ficam são as imagens da crispação e rigidez da presidente a dizer que não fosse ao que fosse e a de Paulo Rangel a por-se em bicos de pés para, esganiçado e afobado, brandir o dedo contra José Sócrates.
Foi uma direcção fixada na pessoa do Primeiro Ministro e incapaz de mostrar ao eleitorado uma alternativa que fosse: de ideias, de pessoas, de soluções.
Ao nível dos combates políticos, a direcção de Manuela Ferreira Leite fica na história por ter perdido para o partido uma oportunidade única, a once in a life time chance: as Legislativas de 2009, onde o Partido Socialista entrou completamente a medo, a meio gás, com Sócrates e pouco mais a empenhar-se na campanha, com o governo completamente desgastado dos 2 combates travados — contra o descalabro financeiro mundial e contra a obsessão das capas de jornais de papel e televisivos pelo Primeiro Ministro.
Esta direcção foi um desastre. Convenceu-se que a vitória de Paulo Rangel nas Europeias tinha alguma consistência e apostou — mal — que o discurso do não e do bota abaixo era o que o país queria.
Como se algum discurso pela negativa ganhasse eleições.
Nem mesmo levado ao colo por 2 das 3 televisões e pelos principais jornais, autores de uma extraordinária benevolência que teve eco na (ou foi reflexo da?) blogosfera dominante, que é a laranja, “aquele” PSD foi capaz de ganhar a maratona eleitoral de 2009. A lebre Rangel fez o melhor tempo no primeiro terço da prova e puff — acabou o gás ao próprio, que passa por Bruxelas incógnito, e as pernas ao resto da equipa, que empatou envergonhadamente (estou a ser benévolo) as autárquicas e na elaboração desastrada das listas para as legislativas comprometeu o resto da esperança que o eleitorado teria.
Claro que as fotografias na parede e os panegíricos no Povo Livre e seus satélites digitais branquearão propagandisticamente o consulado. Mas nas futuras conversas sobre A Situação em 2009/2010, quando alguém perguntar, mas com aquilo tão mau como é que o PSD não subiu ao poder?, alguém olhará em redor, a ver se não há (ex-)maoístas por perto, pigarreará — e dirá A Verdade.
Um país trocado
Poucas, mesmo raríssimas estorietas são tão deprimentes como o episódio “trocas-te”. Não se trata do que o ocupante do cargo merece ou não merece, consoante os desejos de cada um, e sabe _________ que ele há cada uns para tudo o que imaginar se possa e ainda sobra.
Trata-se de verificar o índice de anormalidade a que chegámos como povo. Somos, de facto, um país trocado.

del.icio.us
DoMelhor
Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (
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