Manuela Ferreira Leite diz que o Estado não tem dinheiro para pagar o TGV e o aeroporto. É difícil ver aqui uma posição para quem “está” activo na economia. Como sintetizou João Villalobos em Como a clara do ovo (Corta-fitas), “porque contraria o anunciado novo ciclo do betão (ou obras públicas que no fundo são negócios dos privados) o que aborrece à grande os empresários e o sector financeiro por razões óbvias“.
Se não está a querer agradar à sua tradicional base de apoio, e uma base que sabe perfeitamente que aquelas obras se farão seja qual for a cor do governo porque a economia do país depende delas de diversas maneiras, mini, macro e nos entrefolhos, para quem fala Manuela?
Dispensando a salada russa das contradições de Manuela ao longo dos governos, tenho na minha que é cómodo populismo eleitoraleiro questionar estas obras.
Ainda para mais quando se pergunta ao governo onde está o dinheiro para uma obra que… só avança com a vontade, e por vontade, do sector privado, que vai financiar o grosso da operação do TGV e com ela mais tem a lucrar. Penso que Lino desta vez teve razão para inquirir se MFL terá lido os dossiers: as dúvidas que subsistem entre os investidores referem-se aos modelos de negócio e gestão, ainda por clarificar, já que toda a informação aponta para uma participação mínima do Estado, cerca de um terço, cabendo aos privados a maior fatia do investimento e o remanescente aos fundo comunitários. Estão portanto uns valentes passos à frente da presidente do PSD, a quem esta simples consulta ao Google faria bem.
O PSD passou do populismo versão Vila Nova de Gaia para o populismo versão Restelo. É sem dúvida uma “melhoria” que agrada a alguns — mas que a mim me parece pouco para ganhar eleições.
O sector privado assiste. Percebe que MFL precisa desesperadamente de sacar boas impressões junto do eleitorado. Nem se importa com estes anacronismos: nesta altura ajuda o choradinho para ver se vem mais algum da União (as associações dos empreiteiros fazem a sua parte de lóbi) e manter o PM sob pressão ajuda à poupança, mas o sector privado sabe, tão certo como eu me chamar Paulo, que ela fará o que tem de ser feito — e se lá mais para a frente insistir na peregrina ideia de questionar o TGV e o aeroporto (este ou, preferencialmente, outro mais inteligentemente pensado em função do futuro da aviação comercial) não hesitará um segundo em aplicar-lhe um pouco populista correctivo.
Porque a verdade é esta. Ser conservador com o argumento de não gastar dinheiro serve para gerir uma família e, aceito, um pequeno negócio mas não é adequado à economia de um país. Manuela Ferreira Leite sabe melhor que eu que o TGV e o aeroporto se farão porque, contas feitas, é melhor arriscar fazê-las do que não arriscar.
Manuela Ferreira Leite sabe melhor que eu que na hora da verdade o (candidato a) Primeiro Ministro agirá em função dos interesses de dois dos sectores que comandam a economia portuguesa: a construção civil e o turismo.
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