O animal 

Confesso que quando a barracada estoirou, concordei nas medidas dos governos. Encobrir o buraco financeiro e dar às instituições onde aflui o grosso do produto gerado a oportunidade de se regenerarem — e com isso esperava eu que a política aguentasse o barco da democracia e pudéssemos operar numa lógica de evolução dentro da continuidade.
Começo a desacreditar, devo dizer.
Não é uma questão das pessoas. É o sistema. A natureza do sistema capitalista em que assenta a nossa economia é a seguinte: lucro.
O lucro é o seu objectivo. Razão de existência.
O sistema capitalista é um animal resistente. Mas como o escorpião que atravessa o rio e não resiste a morder o transporte mesmo sabendo que se afoga, como um agarrado à heroína que promete à família a enésima cura e sai porta fora, cego, à procura da dose, para o sistema é mais forte lucrar que viver. Se lhe atiram mais dinheiro, ele vai engoli-lo. E engolirá todas e cada uma das notas que as fábricas dos maiores países forem capazes de produzir porque o seu instinto, admiravelmente bruto, é mais forte que qualquer racionalização da minúscula minoria das suas elites arrependidas, coitadinhas.
O seu instinto diz-lhe para sacar tudo o que houver a sacar do momento. Ainda por cima, nunca teve um lucro tão fácil: basta-lhe estender a mão.
Portanto: começo a achar que há boas probabilidade de isto não resultar. Não se pode fabricar assim tanta nota. Vão pensando na alternativa, gentlemen. De preferência, para melhor. (OK, esta foi wishful thinking)

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