O estranho mundo dos jornais de província (e da província, vendo bem as coisas)
O Alexandre Gamela diz aqui que não percebe “como é que há jornais locais em Portugal que gastam imenso dinheiro em plataformas fechadas — e sites horríveis — criadas por empresas de informática que se encarregam elas mesmo de alterar os conteúdos e layout das páginas, fechando esse processo à redacção”
Eu percebo.
Cenários.
1. Os donos do jornal ouviram falar da Internet e há um amigo que indica uma empresa que vê a mina. Fornece a “aplicação”, que é um backoffice tramado de fabricar, pois então, tem de corresponder às especificidades de uma Redacção (nalguns casos o trabalho do programador consiste em retirar zelosamente os links e menções óbvias de dentro de um CMS obscuro sacado na versão mais barata) Dá uma formação deficiente, ou nem se dá ao luxo, até porque vendo bem as coisas ninguém lá do jornal tem tempo para essas mariquices da net. E acaba a meter os conteúdos — o que é um contrato de “manutenção” simpático.
2. Como em 1, mas alguém no processo sabe que há fundos comunitários, ou mesmo nacionais, que vão pagar a troca cruzada de “serviços” — e fica tido mais fácil para toda a gente. O produto deste negócio não é o jornalismo, reduzido à condição de pretexto, cenoura. O produto deste negócio são os títulos e a sua articulação. Mas há um ganho: o jornal fica online. Bem, pronto, não digam nada: pelo menos uma versão do jornal fica online, parem de armar em esquisitos. Os custos, who da fuck cares, alguém pagou, e quanto mais caro for melhor — incluindo do ponto de vista de quem pagou, e que vê por cima, vê que o dinheiro vai girar, vai entrar na economia, vai render algures, também não vai perder tempo a discutir detalhes como o “jornalismo” e se o jornal interessa ou é do conhecimento de alguém a sua existência.
3. Como em 2, mas sem sequer o cuidado com o detalhe do “jornalismo”.
4. Ignorantes adeptos da teoria do quanto mais caro, melhor, não acreditam na solução que o chavalo de rabo de cavalo, olheiras e t-shirt preta, vulgo geek lá da terra, tenta vender-lhes, armado em herói, só quer ganhar o serviço de instalação e manutenção. Não. A coisa tem de ser o melhor que houver, como lhes aconselham os tios do amigo do chavalo — que fazem dois telefonemas e ganham a justa percentagem por mexer de um lado para o outro um pacote de CDs e manuais que nunca ninguém será capaz de ler, quanto mais perceber. Quando avaria, desliga-se e liga-se ou chama-se o gajo da loja de informática que vende o tonner para as impressoras, e que aproveita para vender mais um disco ou um “upgrade”, para não perder o dia. Ou então deixa-se estar: assim como assim, já se venderam os anúncios e já se mostrou “o site” ao cabeleireiro do banner de topo.
Topas, Alexandre? Ou precisas de mais cenários desse estranho mundo dos jornais de província?
Joomla? Isso é muita revolucionário, muito à frente, méne! Gratuito? Não pode prestar, uma coisa gratuita não vale nada. A menos, bem entendido, que seja o trabalho dos jornalistas, que ganham muito mais do que o que valem.
Espero, sinceramente, que a tua geração de jornalistas consiga mudar isto. A minha nem soube disto: a sua única preocupação foi, é e será o que conhecem, o papel e o microfone.
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Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (
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Eu vivi de perto essa realidade com um senhor que fazia o grafismo de jornais locais e depois deu-lhe para fazer sites. O geek fui eu.Ele cobrava preços imundos e vendia coisas que não percebia, comprava domínios pela tuta e meia que custam e vendia-os por balúrdios a dizer que era esse o preço original, e havia duas realidades: a dele, que dizia que um produto barato era caríssimo (se bem que vi orçamentos para coisas semelhantes de algumas empresas a ascender aos 3000€ sem que nada o justificasse), e a dos clientes, que diziam que não davam mais que 250, e que o sobrinho deles podia fazer o site por menos.
Tens toda a razão, o pessoal não tem noção da realidade, como expliquei no post que me pôs em mais uma lista negra neste país, sobre o site do jornal As Beiras.
Há chicos espertos em ambos os lados da barricada, e um desfasamento brutal da sua realidade umbiguista em relação à realidade que rapidamente se impõe.
Mas que é divertido ver um bando de pacóvios que ainda acham que a net serve para ver pornografia e os blogs dos amigos/inimigos a discutir como se deve montar um site para um jornal, é. E nunca mais me esqueço do tipo que queria um site para o pasquim dele todo em flash, do outro que só sabia falar de FTP(era a única coisa que conhecia e estive muito tempo a dizer que não era preciso com o backoffice da plataforma), e daquele que não queria que ninguém conseguisse tirar conteúdo das páginas, fotos muito menos-mesmo sabendo que ele não pagava nem a jornalistas ou fotógrafos. Mas há mais, muito mais.
O que eu assisti nesse ano foi um dos retratos mais tristes deste país, que na sua maior parte vive afastado da dinâmica do mundo, fechado sobre si mesmo, em decadência, mas orgulhoso, e ao serviço de pequenos aristocratas da santa terrinha. Só faltavam retratos salazarentos para compôr o cenário às vezes.
Mesmo na mouche!
Pior ainda, meus caros e sábios escribas, é saber que este cenário trágico-cómico tb se passa em empresas da mui evoluída e cosmopolita Lisboa.
E olhar para muitos sites, compará-los com equivalentes de outros países e ver como estamos atrasados, como raramente um site nacional funciona convenientemente. Continua a ser um acessório de luxo. Um bocadinho como os suportes para copos nos carros.
Mas não se resume aos pasquim local de Vale de Tremoçais (não sei sequer se esta localidade existe. Sim sim e se ofendi alguém, o meu mais sincero pedido de desculpas). Funciona assim para qualquer empresa que não esteja relacionada directamente com a Internet há pelo menos 3 anos. Porque até mesmo as que estão, têm esta mentalidade. Recentemente um senhor que queria fazer um ISP (leia-se revender hosting do tipo uva-mijona) começava a discussão de orçamento comigo assim: “Pá, se isto custar mais que 200 ou 300 euros prefiro arranjar alguém da américa do sul que me faz isto por meia dúzia de tostões e um saco de amendoins”.
É triste.. mas a verdade é que os “macaquinhos” andam por aí. E argumentar é inútil. A contra argumentação é tão descabida e/ou desprovida de sentido que nos deixa totalmente desarmados. Ficamos na dúvida se devemos pagar ao senhor um café por pena ou espanca-lo com um gato morto até o gato miar (nenhum animal foi magoada durante o processo da escrita desta missiva).
A um senhor de um stand de autmóveis sugeri ele vender-me um carro com o mesmo desconto e argumentos que ele estava a usar comigo. fazia-me 50% de desconto no valor da viatura, eu não dizia a ninguém quanto tinha custado e dizia a todos os meus amigos que o stand dele era o melhor do mundo (quiçá da Europa). Não aceitou.. curioso…
E assim avança o estandarte do Inferno …Dante
minimalista
PS: Ò Paulo, desculpa se me estiquei nas palavras
Havia aquela senhora de um jornal daí de perto de Lisboa que queria colocar o seu site no google, porque outros mais novos (=com menos história) já estavam e o seu jornal merecia. Site ainda não tinha, era um grupo de estudantes que o ia fazer…
Quiz-friday:
Qual o jornal nacional que tem este texto na sua página de acesso à edição em papel (para assinantes e numa versão acrobrat difícil de ler?) Se Googlar não responda!
Eu tive contacto directo com esta realidade dos jornais locais e regionais. E tive chatices com os «pequenos aristocratas» que o Alexandre Gamela refere no seu comentário, e com o chico-espertismo que referes no post.
O ambiente era pitoresco (só para manter as coisas na boa onda) e dava-me um gozo do caraças ouvir o que diziam e ver o que faziam, mas também me dava uma dor de cabeça que dispensava. Era um agridoce forte para caraças.
Esse não é o cenário de apenas os jornais em Portugal, mas sim de quase todo o mundo empresarial. Chega quase ao cúmulo de haver empresas de consultoria informática que nem têm uma gestão de conteúdos decente no seu próprio site, mesmo quando vendem este tipo de soluções.
Caros, eu não quis aproximar demais a coisa de Lisboa, nem sair do ambiente dos jornais. Claro que podia — podíamos encher 300 ou 400 “sites”, em Flash, e em PDF, só com histórias macacas deste género.
enche… e fundas uma “publicação online”…
Carlos, mais?? Não. Eu tou é vendedor delas
Faltou falar-se nas autarquias, onde a realidade é a mesma, mas com dinheiros públicos.
Esqueci-me de referir um dos melhores exemplos em Portugal de como a imprensa regional está entregue ao alfinete de peito:
O Primeiro de Janeiro ou um retrato português
Alexandre, é mesmo um exemplo eloquente. O que passou com o Janeiro foi medonho. Felizmente, o mercado penalizará o “inventor” da situação, com a destruição do título. Infelizmente, os jornalistas foram despedidos e não vejo como possam ser compensados por isso.
Permitam-me acrescentar mais uma pequena “História de Proveito e Exemplo” que acrescenta, a tudo o que foi dito, a ditadura da hierarquia ignorante:
Há alguns anos havia um professor (a profissão não é relevante para o caso) que trabalhava a tempo parcial num projecto de determinada autarquia, ligado ao património. Como dispunha de imensa documentação e tinha um colega que até percebia umas coisas de sites, propôs à Câmara fazer, com a ajuda do amigo, um site onde pudesse ir colocando o material disponível: informação e fotos sobre o património construído em cujo levantamento e estudo participava activamente.
A resposta foi negativa, com base numa razão bem à portuguesa: como a referida câmara não tinha ainda o seu próprio site, a entidade responsável pelo Património não podia ter o seu próprio site antes da própria câmara (qualquer coisa do género do “parece mal…”).
Alguns anos mais tarde a Câmara entregou a uma empresa (daquelas que se fazem pagar principescamente) a criação e manutenção do site, onde foi incluído parte do material informativo que já poderia estar online há que tempos…
Maus exemplos abundam, criaremos bons exemplos ?