O fim do emprego como o conhecemos e o seu efeito na economia de mercado 

Tenho mantido um ping pong mais ou menos permanente no Twitter com várias pessoas acerca da economia de mercado e suas perspectivas tendo em conta os problemas que a afetam. Umas vezes a conversa é mais focada na prática, noutras alturas os argumentos passeiam pela teoria, como é natural uma vez que uma boa parte do exercício consiste em adivinhar — antecipar, vá — o rumo.

Ainda que a maior parte das vezes de forma contida, está sempre subjacente a ideologia. Há uma nítida clivagem – fratura, mesmo — entre direita e esquerda, com a curiosidade de ser agora a esquerda a defender a economia de mercado enquanto à direita não repugnam os modelos concentracionários dos poderes político e económico. Bem pelo contrário, são “naturais”, são um “direito” dos que têm — destes que têm agora.

Numa síntese breve: preservar a democracia passa por defender o modelo económico que lhe é garantístico. A direita nunca se interessou particularmente nem por uma nem por outro — ainda que aceite — e, vá lá, conviva com contida repugnância — a primeira e aproveite o segundo para aumentar diferenças e consolidar riquezas.

O mais antigo interlocutor é o João Caetano Dias (@jcaetanodias). Com ele o ping pong vem de há meses. Mais recentemente têm participado outras pessoas: Carlos Novais (@CN_) mais amiudadamente, Cauê Nascimento (@caue_tuga) e José Manuel Fernandes (@JMF1957) mais esporadica e recentemente.

Ora, é por causa deles que alinho este pequeno artigo. Há um equívoco comum, herdado dos economistas ao que vou lendo, acerca dos efeitos da mecanização do trabalho. Os economistas gostam de projetar da economia a imagem de uma ciência exata. Sem dúvida que uma ou outra parte dela o são — e outras o pareceram ao longo dos tempos, mas no geral a economia é tão exata quanto a história e outras disciplinas cujo objeto se resume à atividade humana.

Todos os meus interlocutores acreditam no postulado de que a mecanização sempre origina mais postos de trabalho do que os que inutiliza. Como a maioria dos economistas, não aceitam sequer a benefício da formulação de hipóteses que mudanças suficientemente densas no quadro em que ocorre a mecanização possam conduzir (conduzam forçosamente) a um resultado diferente, apenas e só baseados no facto de ainda o não termos observado antes.

O meu ponto é, de há muito, este. O surto de mecanização que enfrentamos não tem paralelo na história. Começa por nada ter a ver com a mecanização fabril, industrial ou agrícola, assentes na transformação da matéria por meios mecânicos. Agora lidamos com informática. Sistemas inteligentes de capacidade muito além da humana — embora focada. A fábrica já lá vai, estamos a mecanizar os serviços. O hospital. O banco. O supermercado. Os robots estão a começar a aspirar as nossas casas. Dentro de um par de anos começam a tomar conta dos nossos idosos. A prestar cuidados básicos nos hospitais. Os infobots escreverão os artigos e a atomização dos processos de informação e conhecimento dispensará do trabalho milhões de atuais esforçados colarinhos brancos.

Sim: os empregos anteriormente considerados a salvo dos robots na realidade não estão. Pelo menos a sua grande maioria não está.

Sim: alguns de nós seremos necessários para “operar as máquinas”. Cada vez menos seremos necessários, à medida que os sistemas caminham para a auto-suficiência e para a interligação.

Sim: os setores promissores, das energias alternativas às tecnologias de informação, na saúde e derivados, vão gerar emprego e bons salários — mas em número muitíssimo reduzido, incapaz de absorver sequer a mais bem treinada da mão de obra sobrante nos setores em automação/deslocalização. E parte do emprego gerado será de curta duração, demonstra a paradigmática montagem de painéis solares (a função que mais emprego gerou nos EUA nos últimos meses): uma vez montados a função desaparece e a subsequente manutenção empregará uma fração ínfima dos envolvidos na montagem.

Um número arrasador serve de ilustração: desde 2000 para cá a população americana aumentou em 30 milhões de pessoas; contudo, a quantidade de empregos é praticamente igual à desse ano. Calculado o rácio, a economia americana tem hoje menos 18 milhões de empregos do que devia. Isto em dez anos.

A mecanização não foi aqui a principal culpada. Vai sê-lo mais tarde. Esta década os empregos nos Estados Unidos, como na quase totalidade das economias capitalistas maduras, foram sobretudo engolidos pela deslocalização do trabalho para os países onde ele é mais barato.

Tenho sustentado que a automação de hoje, somada à demografia e à globalização vai erodir irreversivelmente a capacidade das economias gerarem os níveis de emprego que fizeram o grande avanço da humanidade nos últimos 100 anos.

Ora, sem emprego não há salário e sem salário não há consumo — o que afetará a economia de mercado, tendo mesmo o potencial de a terminar.

Recorrentemente o João Caetano Dias acha que eu não leio os livros certos. Entendendo por “certos” os livros que ele gosta de ler, admito. Mas as minhas leituras não são propriamente de tresloucados libertários, perigosos anarquistas ou socialistas delirantes.

Já em 2007, pouco antes da irresponsabilidade impante e impune das empresas líderes da alta finança ter provocado a crise financeira que sobremaneira agravou a situação das finanças públicas de quase todas as economias avançadas, Paul Krugman teorizava alguns destes argumentos em The Conscience of a Liberal.

Mas a mais substancial leitura é a de The Lights in the Tunnel: Automation, Accelerating Technology and the Economy of the Future, de Martin Ford (Amazon, site). Cheguei ao livro não pela vertente económica mas em pesquisas sobre tecnologias de automação. Contudo, o alcance da obra impressiona. É quase antecipação científica. Até agora (3 anos passados sobre a publicação) é praticamente profética. É leitura obrigatória, e que recomendo em especial a dois interlocutores, o João Caetano Dias e o José Manuel Fernandes.

Graças ao plano de estímulo ao emprego apresentado esta semana pelo presidente dos Estados Unidos da América, também The Economist tem um oportuno dossiê sobre estes temas, desmontando de vez os frágeis (e, sobretudo, balofos) argumentos assentes no axioma de a mecanização gerar sempre novos empregos em número suficiente para não só cobrir como ultrapassar os anteriores, dando resposta à maior procura decorrente da expansão demográfica. A não perder The great mismatch — In the new world of work, unemployment is high yet skilled and talented people are in short supply. Tenham atenção aos demais artigos que fazem parte do dossiê.

Para uma vista geral rápida, este excelente gráfico do New York Times que mostra como os melhores períodos da geração de riqueza estão associados a “bom emprego” e como a acumulação da riqueza na ultra-minoria super-rica da população está ligada aos maus tempos (e faz perigar a economia assente na massificação, mas isso não está no gráfico).

Ainda no Times nova-iorquino, The Limping Middle Class, um artigo de opinião de Robert B. Reich a que está apenso o gráfico anterior.

[ Adenda em 11/09, 23:21. Um leitor indicou-me via Google Plus este artigo de Douglas Rushkoff na CNN, no dia 7 de Setembro, Are jobs obsolete?. Pequeno excerto: "What we lack is not employment, but a way of fairly distributing the bounty we have generated through our technologies, and a way of creating meaning in a world that has already produced far too much stuff". ]

Contudo, o fim do emprego como o conhecemos — e, por arrasto, da economia de mercado — é simplesmente previsível pela lei da oferta. As extremas abundância e elevada eficácia, ambas exponenciadas pela robotização e automação, tornam o trabalho num bem de baixíssimo valor. A vantagem — produtos e serviços mais baratos — ofusca o perigo iminente da derrocada social e económica graças a duas outras verdades igualmente simples e muito para além do fenómeno pontual do desaparecimento das classes médias.

Por um lado a transferência de quase toda a riqueza para as ultra-minorias conduz a uma efetiva perda do poder aquisitivo da maioria que até agora fez funcionar a economia de mercado. A maior acessibilidade dos produtos e serviços de nada servirá se não existir um número suficiente de pessoas com poder para os comprar.

Por outro, as massas de humanos sem salário, ocupação e papel na sociedade tornar-se-ão em inutilidades excedentárias nada fáceis — complicadas, vá — de lidar.

José Manuel Fernandes perguntou se eu falava de programas eugénicos. Bem sei que alguns neoliberais e selvagens individualistas aprovariam em delirante aplauso, mas a relação custo-benefício da eugenia eliminativa é muito elevada quando comparada com a da guerra, pelo que não me parece que se enverede por aí. E — atrativo suplementar — os custos financeiros das guerras são contabilizados do lado da despesa pública, tanto melhor se forem guerras civis. Mas podeis deixar de salivar: há outras alternativas.

Se tudo correr maravilhosamente bem quando sairmos desta crise induzida pelo parasitismo do sistema, talvez os processos sérios de regulação — incluindo a auto-regulação — sejam suficientes para, com governância competente, re-equilibrar a balança, redistribuindo os ganhos em proporções menos injustas — logo mais sustentáveis a prazo — e dividindo as horas do trabalho marginal ainda necessário.

Se não for o caso, o livro de Martin Ford equaciona algumas mais atrevidas, talvez num tom um tanto ingénuo, mas na essência corretas. A noite já vai longa, peço misericórdia e leiam o Ford.

(Fotos: Kheel Center, Cornell University)

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