Quem paga as pesquisas do Google (#4)
Quem paga as pesquisas do Google se, como vimos antes, estas custam 8 cêntimos cada uma?
A resposta curta é: você! (Sim: o mesmo “você” da capa da Time de há uns anos…)
Claro que não paga em dinheiro. Mas se acha que a informação quer ser free as in free beer, esqueça: isso é uma treta. A informação tem custos, diferenciados de acordo com o valor acrescentado que encerra, e não há ilusões sobre as relações económicas envolvidas aqui.
A resposta longa é procurada por Chris Anderson num artigo da Wired de Março deste ano já celebrizado e que irá a livro em 2009: Free! Why $0.00 Is the Future of Business. Nele o editor da Wired (que já nos brindou com o modelo da long tail) dá uma explicação para o modelo de funcionamento da economia de custo zero. (Se isto realmente o interessa, leitor, veja a entrevista de Anderson sobre o modelo Free a Charlie Rose).
Tudo tem a ver com o bruto embaratecimento dos custos de produção, sobretudo no digital, mas não só: nas fábricas de bens físicos também assistimos a cortes dramáticos no custo de variados bens (segunda feira, às 11:30: Preços insanamente baixos (#6) aqui no C!).
Mas não só. Um modelo que começou a vida nas cortes — reis mecenas que sustentavam os saltimbancos para ópio do povo e manutenção da paz no reino — e mais tarde possibilitou a Imprensa, o jornalismo e, em última análise, a liberdade de expressão (pilar essencial da economia de mercado) continua a sua brilhante carreira migrando para a web, à qual se adapta como uma luva.
Falo, claro, da publicidade.
A resposta média, portanto, é: você paga as pesquisas que faz prestando atenção aos produtos e marcas que — os métodos agora não interessam — alguém pagou à Google para lhe colocar debaixo do botão do rato.
O valor dispendido nos EUA em publicidade online no ano de 2007 estima-se em 20.000 milhões de dólares — um pouco mais de 50 dólares por americano, por ano. Aí está como — os métodos agora não interessam — “o tal de você” paga, na realidade, o grosso dos custos das indústrias web de serviços e de conteúdos.
PS: outro exemplo bem prático e mais à mão dos europeus é o reportado pelo Remixtures: Operadora de telemóveis Orange testa serviço de música financiado por publicidade
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Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou jornalista free lance, escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (
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É sempre a mesma coisa, o mexilhão é que paga! Não bastava já um gajo ter que pagar a ligação à net, ainda tem de pagar as pesquisa que efectua. Daqui a pouco cobram-nos por cada clique que damos! Vou mas é mudar para um motor de busca que não me faça pagar pelas pesquisas que faço. :)
Caro PQ,
à parte o método, que merece alguma análise também, fiquei com outra ideia para acontecer o que CA diz. Ou seja a tendencia para zero do preço dos serviços que enuncia.
E a ideia que fiquei é a de que existe muita concentração em poucas pessoas e empresas, quase monopólio, no produtos que se fornecem a um número cada mais crescente de interessados.
Se lhe interessar aconselho-lhe esta leitura - http://blogue-de-esquisso.blogs.sapo.pt/10344.html
(não se assuste com o título do post porque é são experiências com o código morse)
Caro Bruno, não “tem de” pagar as pesquisas que efectua nem lhe vão cobrar os cliques (bem, esta não prometo que assim fique sempre).
Caro JN, a história humana é uma história de concentração de riqueza e nesse sentido partilho das preocupações de Paul Allen — e de muitos outros, incluindo alguns cavalheiros de enorme fortuna… — acerca dos tempos modernos.
Mas não se vê, no que concerne à web e aos serviços que esta nos proporciona, esse tipo de concentração. Pelo contrário, julgo estarmos num período de dispersão (que o capitalismo deles precisa, aliás). Há milhares de empresas a competir e a explorar a diversas dinâmicas económicas proporcionadas pelo ambiente de produção e distribuição a custo zero.
A explicação de Anderson é uma das explicações e adapta-se bem à Google. Porém, há muitas outras formas de minerar o produto da actividade humana na Internet — que pode ser vista como uma fábrica de tendências de consumo, como um laboratório de teste de ideias, conceitos e produtos, como uma fonte de informação privilegiada sobre diversos assuntos.
Pense wikinomics, crowdsourcing, wisdom of crowds, mercado de previsões. A Google está a “dar” a resposta a uma pergunta de um milhão de dólares: o que procuram as pessoas? A Google dá as respostas simples do ano passado e do mês passado — mas pense no valor que se pode extrair das múltiplas respostas a esta questão: o que procuram as pessoas?
Anyway, é curial a visão do mercado de capitais como um mecanismo de extracção da riqueza dos financeiramente menos aptos, que de outra forma poderiam, quem sabe, acumular as suas poupanças e passá-las de geração em geração. O mercado de capitais facilita a missão dos ricos incumbentes, é um facto poucas vezes referido — como na lotaria, o brilho das “possibilidades” de retorno cega os “investidores”.
Tou a ver que deveria ter posto uma nota no meu comentário a avisar que era um comentário à lá Troll. Como é óbvio estava a brincar.
Ups, missed that one!
Caro PQ,
As preocupações não eram de Paul Alen mas sim de Thomas Frank sobre o dito cujo.
O que quis dizer foi que a explicação de Anderson não é completa (e pelo que vou dizer a seguir se calhar é errada).
A web ainda está concentrada (aí discordo de si, exemplo disso, google, wikis, yahoo à rasca, mais quem?) e de tanta procura resulta a possibilidade dos custos baixos.
Ou seja é mercado com muita procura e pouca oferta.
E é assim por existir concentração.
E qual é o mal pergunta?
O mal é que cada vez mais vamos receber (e pagar) coisas que não nos interessam.
Por exemplo, a publicidade nas caixas ATM.
Outro exemplo.
O que suportou a rapidez da implementação da banda larga. A publicidade. Por que tinha que ser mais atraente (videos, música, interactividade).
Também foi para receber um melhor serviço é certo.
Mas existirá sempre o perigo de alguém decidir que ainda devo pagar mais (novamente o caso das comissões das caixas ATM). Porquê? Porque alguém quer concentrar mais riqueza nesse ano.
JN, certo, Alen é parte da preocupação e não o preocupado — é o que dá ter pressa.
Mas está a olhar para o local errado. Há concentração nos operadores de Internet, e mesmo essa tem vindo a desaparecer, até em Portugal, onde a telecomunicadora incumbente hoje está longe de concentrar a ligação. Há concentração na pesquisa apenas em alguns mercados — como é o caso de Portugal, presumo que isso condicione a sua perspectiva. Mas vá à Ásia e verá que o Google em muitos casos nem sequer é o número 1, e noutros casos tem feroz competição.
Não é o caso do software (não falo do mercado que se iniciou ANTES da Internet, o desktop e os computadores pessoais), onde dispomos de um leque alargado de produtores.
Não é o caso de nada do que tenha a ver com web social, onde pululam milhares de empresas de vários tamanhos e financiamentos. Seja na produção de páginas, seja na produção de serviços, o que vemos é dispersão.
A publicidade nas caixas ATM é um belo exemplo da economia free: subvencionando o custo das máquinas e o seu suporte técnico através de publicidade, os bancos podem oferecer SEM ENCARGOS DIRECTOS o serviço das ATM aos seus clientes. Sem a pub… mais tarde ou mais cedo os clientes seriam forçados a pagar os custos.
Agora, os perigos existem sempre, evidente.