Explicações para a queda do Sapo no ranking da Internet
Armando Alves publicou no A Source of Inspiration um comentário ao top 100 dos domínios mais acedidos em Portugal, segundo o Alexa.
O Alexa está longe de ser a melhor fonte — mas é a melhor fonte independente disponível.
O Armando diz isto, e diz com toda a razão, pelo que eu faço coro.
Recomendo a leitura dos pertinentes palpites de Armando Alves, arrisco-me a dizer, os certeiros palpites, e do que o impressionou destaco:
- O primeiro lugar do Hi5
- O domínio avassalador dos endereços Google: Google.pt + google.com + YouTube + Blogger = all your base belongs to us
- Sapo, Clix e Iol, o bom posicionamento dos grandes agregadores de main stream media — mais sobre isto abaixo
- o posicionamento dos títulos desportivos — a análise que considero menos conseguida, na medida em que estão ausentes do gráfico os principais jornais e rádios, bem como as três operadoras de televisão.
Em Portugal os grandes títulos de media, à excepção do serviço público RTP e RDP, entregaram-se aos agregadores, perderam as suas marcas, diluiram-se. Não integram a tabela comparativa os tráfegos do Público, do Expresso, ou da TSF, marcas que passaram a última década a comprometer os seus futuros, sugados pelos portais, mas podemos admirar a “pujança” dos três títulos desportivos uma vez que continuam com marcas distintas e em condições competitivas, não foram diluídos.
Outro exemplo gritante dessa política mortal, no caso em versão suicida: marcas de media fortíssimas, como o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias, são hoje anedotas na Internet - e isto é ser bondoso para com elas, porque uma anedota existe e elas na realidade desapareceram. A sua missão na net foi alimentar a máquina de vender ADSL chamada Sapo. A missão acabou. Já é duvidoso que sejam capazes de algum dia renascer, quanto mais converter para a web algum do prestígio acumulado na sociedade portuguesa ao longo do século XX. - a “web 1.5″ — o desapontamento por não ver no top 100 nenhum dos projectos 2.0 já nascidos de mãos portuguesas
Repito: o Alexa está longe de ser a melhor fonte, mas é a melhor fonte independente disponível. Confio mais depressa na falta de representatividade do Alexa, que ao menos mede as tendências de uma forma imparcial, do que na caixa escondida da métrica da Marktest, que estranhamente monopoliza o seu mercado. (E não vale a pena mencionar os números apresentados pelos operadores quando se dão a esse trabalho, porque não é com esses gráficos de marketing que são tomadas as decisões.)
Já há algum tempo que andava para escrever sobre isto, mas devo ao Head Of Interactive da DraftFCB e à sua análise o estímulo para o fazer. O que se segue deve ser lido no quadro da súbita fome do Sapo pelos blogues “de referência”, depois de 3 anos a importar-se apenas com a quantidade do user-generated content, lance importante para manter os clientes dentro de portas em 2003 e 2004, mas que se revelou um fracasso a prazo.
Dois quadros e algumas interpretações.

Neste primeiro quadro temos um comparativo nacional entre Sapo, IOL, Clix e AEIOU.
Saltam à vista duas tendências:
- O Sapo tem um domínio claro que foi reforçando e consolidando ao longo dos últimos cinco anos.
- Depois de uma subida vertiginosa nos anos dourados de crescimento da banda larga, que tapava a ausência de estratégia para a web (usada como um meio e não pensada como um fim), o Sapo tem vindo a cair desde o início de 2007. Situa-se hoje em níveis semelhantes aos registados no final de 2006 e apenas um pouco acima dos níveis de 2003.
Ou seja, apesar da imensa força comercial, a marca tem vindo a perder os “favores” dos seus próprios clientes, que vão progressivamente procurando as páginas fora do domínio sapo.pt - a despeito de todos os esforços e para os manter dentro da sua rede (e poupar nos custos de tráfego, que é o principal negócio do Sapo).
Se o número de clientes aumentou, se o tráfego disparou e se a quantidade de horas gastas a navegar e a usar serviços web tem vindo a subir, onde estão as pessoas?
A resposta não está no quadro nacional, pois que o Sapo nunca perdeu para os seus concorrentes, que optaram por uma política de follow the leader em vez de procurarem a diferenciação. Olhemos então para outro lado.

No segundo quadro reparemos não na diferença do Sapo para os gigantes Blogspot e Wikipedia, que é natural, mas nas curvas: o crescimento explosivo dos serviços americanos, consentâneo com o que sabemos sobre o aumento do número de pessoas e dos seus gastos online, contrasta com as linhas do Sapo (a deste quadro é tornada flat pela escala).
Em síntese: o Sapo está a perder tráfego, o que significa que deixou de ter a capacidade de reter os clientes do ADSL e do Cabo.
Esta mudança pode, ou não, corresponder à possibilidade de uma mudança de paradigma. Inclino-me mais para o não - e não o digo pelo Sapo, que tem a capacidade de leitura e reacção, mas pela inacção dos seus concorrentes nacionais e pela incipiente atitude dos grupos que continuam a deixar escapar a revolução da web social: os grupos de media.
O Sapo aprendeu a amarga lição de 2007: os conteúdos indistintos não fixam os clientes. Na falta de mais marcas de media e suas páginas para assimilar e inchar, virou-se para o conteúdo gerado por utilizadores com prestígio acumulado - uma espécie de micro-marcas de media, se quisermos.
Em desespero de causa, recorreu mesmo ao conteúdo gerado fora de Portugal: iniciou uma versão local da Wikipedia tomando como partida dezenas de milhar de páginas prontas e absorvidas num clique (o que é legal e até recomendado pela Wikipedia, note-se). O resultado foi, infelizmente, um flop: sem valor acrescentado digno de nota, os utentes preferem o original à cópia e continuam a ir à Wikipedia.
Por outro lado, provou um pouco do veneno que foi servido internamente à concorrência: está condenado a número dois (ou três, ou quatro) em todos os serviços da web 2.0 que apressadamente abraçou.
Julgo adivinhar em raros sinais, como o último Codebits (um evento para captar talento entre os jovens que gostam de programação e do cheiro dos bits), a movimentação do simpático batráquio no regresso ao seu charco de origem. Na restante paisagem nada mexe - e a janela de oportunidade não fica aberta para sempre.
Acções
Guardar/partilhar:
Facebook
Twitter
delicious.com
DoMelhor
Assinar publicação:
feed RSS
e-mail diário
newsletter semanal
Tweets
Debate
19 opiniões no artigo “Explicações para a queda do Sapo no ranking da Internet”
Deixe a sua opinião
Textos mais recentes
- A “culpa” não é do Twitter em 14 de Maio de 2009
- Jornais portugueses online: a década perdida em 11 de Maio de 2009
- i num instante nada mudou em 8 de Maio de 2009
- Diário i: a capa do primeiro número em 7 de Maio de 2009
- Fases pandémicas: o que significa passar de 3 para 4 em 29 de Abril de 2009
- Gripe suína: Afinal só há 7 mortes confirmadas em 29 de Abril de 2009
- O efeito Domino em 28 de Abril de 2009
- Os números da gripe suína em 28 de Abril de 2009
- Newsmap sobre a gripe suína (também no seu blog) em 27 de Abril de 2009
- Còmhla em 24 de Abril de 2009






Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou jornalista free lance, escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (
Siga o feed RSS

Análise interessante Paulo. Se na comparação com o blogger e a wikipedia, acrescentares o wordpress.com e o typepad.com, podes verificar que o sapo tem uma evolução, ou melhor uma estagnação, similar à do typepad, enquanto o wordpress apresenta um crescimento contínuo.
Talvez fosse útil ao sapo avaliar as práticas de cada um destes serviços, compará-las às suas e tirar as ilações óbvias sobre o caminho que estão a seguir.
O Sapo tem efectivamente muito com que se preocupar. Até porque se adivinha que vai perder muito mais tráfego nos próximos tempos. Arrisco avançar que terminará o ano com aquela linha a descer, mas vertiginosamente.
E mais: não considero possível a manutenção do negócio assente no tráfego. Pelo que certamente estão a desenvolver alternativas.
Ah, não arrisco no vazio. Mas também não me apetece dizer já tudo o que sei e o que vou sabendo. Até porque há mais assuntos para seguir.
Não sei até que ponto é poderíamos associar o menor crescimento do Sapo com a estagnação do mercado Internet em Portugla (em número absoluto de utilizadores). Enquanto vemos surgirem potências como a China e Brasil a aumentarem a penteração de Internet, em Portugal o choque tecnológico foi pouco mais que um ministro com alguma electricidade estática.
Se os princiapis operadores se preocupassem em promover a info-inclusão e preços e acessos decentes, muito provavelmente poderiam continuar a alimentar este crescimento.
Assim de repente, e lembrando-me de um projecto em que o Hugo do LisbonLab esteve envolvido, os jardins digitais deveriam ser a regra e não a excepção. Ligações 3G on demand a preços decentes, fim dos limites de trafego, serviços locais (pesquisa, classificados) decentes.
Tudo isto está ao alcance dos operadores. Basta deixarem de pensar apenas no crescimento anual e pensarem no crescimento sustentado com base num alargado volume de clientes satisfeitos.
Armando, de acordo. As vistas de curto prazo comprometem a evolução.
Tentar contentar os nossos clientes oferecendo-lhes o negócio dos outros, a mim parece-me uam forma perversa de crescer.
Desculpem a ignorância mas porquê comparar o Sapo ou o Blogspot com a Wikipedia?
Já vi confrontações semelhantes e é falha minha mas não percebo o porquê: Sapo, Blogspot ou Wikipedia são endereços com intuitos (até comerciais) diferentes.
Pedro, a Wikipedia está aqui como exemplo dos sites que estão a tirar o tráfego ao Sapo. Podia colocar dezenas de outros “destinos” que têm curvas idênticas de crescimento de interesse, para vermos como o Sapo não está a acompanhar os clientes nas suas deslocações de interesse.
Não estou a comparar negócios ou modelos de. Estou a dar exemplos que ajudem à compreensão da queda do Sapo, que por sua vez estará (com outros factores, naturalmente) na origem de algumas mudanças no maior portal nacional.
Muito bem mas exemplificar com a Wikipedia como um dos sites que retiram audiência ao Sapo é como comparar a National Geographic à CNN. Claro que esta retira tráfego ou visualizações à NG mas são conteúdos e propostas de modelos de negócio completamente diferentes.
Concordo com modelos de comparação entre SApo e semelhantes batráquios. Entre Sapo e Wikipedia, é uma ofensa para o último.
Penso que a comparação foi feita por o sapo em vez de fazer um conteúdo proprio de enciclopedia foi copiar a wikipedia. Seria uma atitude muito mais nobre do sapo, fazer uma parceria com a diciopedia ou mesmo comprar a Porto Editora.
Uma bonita comparação mas penso que o problema do Sapo é aquele que se verifica muito na internet, a utilização de muros para tentar conter os clientes. O Sapo lança até algumas coisas bastante boas mas em vez de lançar plugins para serviços existentes lança um novo serviço - isso funcionava quando o tráfego internacional era caro e isso agora já não se aplica.
Alexandre, o Sapo anda nitidamente à procura de novos modelos de negócio e virou-se muito (demais?) para a publicidade.
Excelente análise
Só não acredito muito no tom fatalista, de irreversibilidade absoluta, que o Paulo utilizou para condenar os velhos clássicos do media.
É evidente que, se nada fizerem, têm o destino traçado. Mas é cada vez mais possível “dar a volta”, com um bom projecto, as apostas certas e alguma sujeição às probabilidade.
Por outro lado há a questão histórica da visão/liderança, ou falta delas. Isso sim, é absolutamente determinístico.
andrezero, o seu último parágrafo explica o meu tom fatalista ;)
Eu não condeno nada. Talvez a minha linguagem desencantada e azeda às vezes dê essa impressão, mas não é a intenção.
E os “velhos clássicos dos media”, como lhe chama, não precisam do meu empurrão escada abaixo. Caem sozinhos.
Gostei da imagem…
…só espero que não derrubem ninguém que venha em sentido contrário.
eheheh
alexandre,
Já viste isto: http://services.sapo.pt/ ?
acmpires, o Sapo devia promover o services e não o faz. Abri-lo foi um bom começo, mas falta qualquer coisa. E falta, também, quebrar uma barreira de desconfiança que alguma comunidade tem em relação à marca comercial Sapo.
Acmpires, já conhecia o services mas quantas pessoas o conhecem?
Quantas hipoteses estão ali para parcerias nacionais e internacionais que simplesmente ninguém faz?
Tomemos por exemplo o serviço de trânsito que podia estar com o serviço de mapas que poderia ser partilhado com televisões que têm informação e poderiam começar a mostrar o mapa. Poderiam fazer uma parceria internacional com o Google Transit, etc, etc…
O Sapo anda meio perdido porque se encontra a lançar serviços porque muitas vezes existem noutro lado, quem usa o Sapo Photos?