A censura velada, a ditadura silenciosa e o plano inclinado

É pena o “debate” sobre a Imprensa e o seu papel na sociedade portuguesa de hoje estar sempre inclinado para o mesmo lado. Enquanto abundam os comentários, crónicas, opiniões e até alguma guerrilha política disfarçada de notícia a fazer passar a urgência da tomada de pulso a uma doença de informação que supostamente existiria nos media portugueses, raras vozes — sendo que a rarefacção é motivo de alarme, para não dizer de suspeita — avançam disponíveis para conversar sobre a censura velada, a ditadura silenciosa e o plano inclinado do jornalismo nacional.

A propósito da calhandrice recente, publiquei uma vez mais algumas dicas para esse debate.

Ideias-chave:
1) clarificar a relação dos grupos de CS com o Estado, uma relação eminentemente económica;

2) avaliar eventuais directivas sobre a repartição das benesses estatais — basicamente, a distribuição da publicidade e os concursos — pelos grupos de CS de forma justa para garantir que não há pressões de parte a parte;

3) dar garantias aos trabalhadores dos media, bem como aos prestadores de serviços, de que não são alvo da “censura económica” nem do eventual cartelismo;

4) estudar os mecanismos de pressão dos meios privados, que conquistaram um poder não apenas de influência mas também económico considerável, que nunca antes detiveram, sobre os poderes públicos (que percorreram o caminho inverso, perdendo considerável força e apresentando uma vulnerabilidade sem paralelo na história dos últimos séculos);

5) verificar as condições do mercado de trabalho, nomeadamente o acesso dos prestadores de serviços e detentores de copyright sobre conteúdos jornalísticos, em condições de concorrência justa (a concentração levanta a suspeita de que essas condições são deficientes e tenho relatos e desabafos que a confirmam).

Dada a rarefacção de vozes fora da corrente que nos últimos 2 a 3 anos varreu, implacável, a opinião publicada nos media, é natural que eu aplauda com vigor a crónica de André Freire ontem no Público, “condicionamentos ideológicos nos media portugueses” (sem link, é conteúdo paywalled) Dela reproduzo este excerto, negritos meus:

“(…) na imprensa (Expresso, Correio da Manhã, etc.), veja-se por exemplo a sobre-representação que têm os colunistas com orientações antipolíticos e profundamente críticas face ao papel do Estado na sociedade e na economia, designadamente de inclinação ultraliberal. Ou, ainda, a falta de pluralismo que vemos nas rádios, na TV e na imprensa em matéria de debates sobre economia (política), nos quais estão geralmente sobre-representadas as correntes associadas ao mainstream (neoliberal) da ciência económica e onde outras tendências igualmente relevantes do ponto de vista académico e político (neo-keynesianas, institucionalistas, etc.) estão claramente ausentes ou, na melhor das hipóteses, sub-representadas.

Há, obviamente, liberdade de imprensa em Portugal, e essa é uma conquista crucial da democracia. Porém, há condicionamentos ideológicos de vária índole nos media portugueses. Pena é que os jornalistas pareçam só se preocupar com os condicionamentos que possam vir por via das influências dos Governos e, pelo contrário, dêem pouco ou nenhum relevo (quando não os promovem eles próprios…) a vários outros condicionamentos (porventura mais graves e profundos) que caracterizam os media. A bem da democracia e do pluralismo, era desejável que não só a ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação) mas também os próprios jornalistas fossem muito mais exigentes neste domínio“.

A fechar: é francamente boa ideia os mais novos na profissão, e os que para ela pretendem entrar, tomarem sua a batalha pela clarificação de ares, contra a censura velada e o método porteiro de discoteca que caracteriza o acesso às carreiras. Não esperem mudanças dos instalados — incluindo as estruturas de representação, herdeiras de outros tipos de controleirismo e compreensivelmente mais preocupadas com a sua própria existência numa altura em que são dominadas pela incerteza quanto ao futuro do jornalismo.

Debate

1 opinião no artigo “A censura velada, a ditadura silenciosa e o plano inclinado”

    1 JPC em 2 Mar 10 19:03

    Post pertinente e cabe certamente às novas gerações mudar os ares. Mas levanta-me algumas interrogações. Desde logo não tenho tanta certeza que esta histeria (politicamente motivada) em torno da comunicação social e da sua independência (e até liberdade), seja reflexo da fruta da época, ou mesmo que o panorama seja tão negro como muitos querem pintar. O que vejo é ao lado de um jornal eventualmente dependente, aparecem logo dois ou três a reafirmar a sua independência descobrindo mais carecas e levantando mais broncas.

    Há também a questão, que o Paulo Querido bem conhece, da realidade dos média (pelo menos no ponto de vista dos leitores/consumidores) é radicalmente diferente do que era até, nem é preciso ir muito longe, há dez anos atrás. Altura em que eu próprio ainda era jornalista e dava cabo dos neurónios e dos nervos em redacções. E, na altura (comecei na profissão há cerca de vinte anos), já se verificavam os problemas que o Paulo aqui identifica. E também havia muita malta, nova e velha, mais idealista e com vontade de mudar o sistema e mudar os ares. Depois vinha a vida real, que tem o péssimo hábito de cilindrar ilusões. Mas alguns idealistas até vingavam e conseguiam a mudança. Olhe, o caso do Independente é exemplar nesse contexto, tendo sido uma experiência que abriu novas fronteiras à profissão e aos leitores em Portugal. Mas há mais exemplos, a saudosa Grande Reportagem, o Público, a TSF, etc. Mas hoje, como dizia, vivemos numa outra dimensão mediática, a da world wide web, onde a informação flui com muito mais liberdade e ubiquidade.

    É evidente que os média tradicionais enfrentam ainda questões deontológicas e profissionais sérias (que o Paulo refere) e específicas do jornalismo, não só do campo da informação em geral. Mas não vejo que o jornalismo esteja em risco. Será sempre necessário e fundamental numa sociedade democrática. As incertezas que vejo são eventualmente de outra ordem, mais da ordem da adaptação técnica e teórica. Mas não em relação ao próprio futuro do ofício. Não pretendo questionar nada em especial, peço desculpa, são só reflexões um pouco livres que me ocorrem.

    Também não partilho muito da mesma sensibilidade em relação aos «condicionalismos ideológicos» dos média. Acho isso até algo natural. Os média não existem numa dimensão paralela, etérea. São a expressão de uma sociedade, dela emanam e é natural que reflictam diferentes sensibilidades, ainda que tendencialmente se procure a objectividade e a independência. Desde logo, é natural que jornalistas, editores ou directores tenham certas inclinações, como todos temos. Quem não tem inclinações são as amebas. Devem tentar por de parte essas inclinações no exercício das suas funções, sim, devem, mas essa, como bem sabem os média anglo-saxónicos, não é um dever absoluto nem absolutista. Até porque o panorama dos média acaba em certa medida por ser um micro-cosmos do todo social. E, por exemplo, no todo social a maioria dos cidadãos são democratas moderados do chamado "centrão" – facto que se manifesta claramente nas urnas.

    Provavelmente o BE ou o PCP (gente que vejo constantemente na TV, por exemplo), ou outras correntes ideológicas minoritárias, terão nos média a mesma representação que terão na sociedade. Dir-me-ão que as correntes minoritárias só o são porque continuam minoritárias nos média. Pois eu digo que essa é uma visão paternalista das coisas. Eu localizo-me na área do centrão e não deixo de ter acesso e de ler e ouvir informação ou opinião oriunda de outras sensibilidades. Não sei se as pessoas são assim tão fechadas à pluralidade e, se o forem (há fanáticos em todo o lado), se-lo-ão qualquer que seja a sensibilidade. Se essa «tendências igualmente relevantes» se querem fazer ouvir, têm de começar a ganhar o seu espaço, a fazer-se ouvir. Provavelmente não será a melhor estratégia esperar que algum director os convide, ou que a ERC "faça alguma coisa". O quê?…

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