Conteúdos pagos: não há lugar para 100 clones e imitações do WSJ, apenas para o original

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De uma entrevista ao Diário Económico:

Rebeca Venâncio: Algumas edições online de jornais portugueses adaptaram algumas modalidades pagas, como o Público ou o Expresso. Haveria“espaço” para mais que isto no nosso país?
Paulo Querido: Essas experiências foram feitas numa fase demasiado cedo e depressa abandonadas: num ambiente de rede, ter os conteúdos por detrás de um muro é um atalho directo para a irrelevância. Só conteúdos de grande valor poderão ser vendidos. A informação geral, o noticiário, e respectivo acesso, não possuem valor suficiente para vender. Respondendo directamente: o espaço, ou melhor, a atenção das pessoas está cá, com total disponibilidade, e vai ser preenchido por produtos oriundos de outros lugares porque em Portugal os produtores de informação não se colocaram no mercado. Do qual, ainda por cima, desconfiam.

RV: Apesar do sucesso do caso do Wall Street Journal com a edição online paga, isto fará sentido em todas as publicações?
PQ: Não. O WSJ é um caso à parte. Em Portugal, não há nenhum exemplo de jornal, online ou offline, cujo valor intrínseco justifique o pagamento de uma mensalidade. Repare-se que o negócio das assinaturas, que chegou a ser importante para alguns jornais, é da área dos transportes e não da área do jornalismo. Só jornalismo de alta qualidade é vendável enquanto produto, na rede. Nem sequer a opinião reputada tem valor comercial online. Não há lugar para 100 clones e imitações do WSJ: apenas para o original.

RV: Acha que seria possível concretizar-se em Portugal um consórcio como o que Murdoch está a promover?
PQ: Possível, claro que sim. Em Portugal todos os erros são possíveis no campo dos media. Não apenas possíveis: são prováveis.

RV: Dos vários modelos que existem para as edições online (pago, gratuito, misto…) qual considera ser o melhor?
PQ: Nesta altura ainda prematura do caminho das edições online, sabemos isto: que fechar a edição é um erro crasso, capaz de levar à extinção;
que a atenção das pessoas se tornou captável por milhares de concorrentes, e não apenas pelos com capacidade económica para montar uma rotativa ou estação de televisão;
que com os preços ditados pela Google a publicidade não vai pagar o profissionalismo editorial;
que nenhum modelo realmente se impôs.
Penso que a experimentação contínua, a extrema atenção às comunidades e não temer arriscar são mais importantes nesta fase. Sintetizando: não há um modelo, há vários, que devemos testar ao mesmo tempo.
Mais fácil é indicar o pior modelo. E o pior modelo é o muro pago. 99% do actual negócio dos media desaparecerá com ele. Murdoch sabe disso e está apenas a tentar assegurar que será ele o 1% restante.

Debate

1 opinião no artigo “Conteúdos pagos: não há lugar para 100 clones e imitações do WSJ, apenas para o original”

    1 jpcruz em 15 Out 09 20:07

    Na mouche, como sempre. "Extrema atenção às comunidades": Eis um conselho de ouro. E já agora, de um jornalista em transição para o universo digital: obrigado pelo muito que tenho aprendido consigo! Bem haja pelo seu excelente trabalho!

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mini fotografia paulo querido Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (Mais)

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