Efeito Lusa: quando aprenderão os MSM que no online o ganho está na diferença?

João OliveiraEfeito Lusa: Fui almoçar, saiu um take da Lusa e de repente, os feeds sobre Aveiro aumentam para 30… Andam todos a pôr online o mesmo…twittou, com toda a propriedade, João Oliveira.

Encher a edição online com informação que comprou à agência é uma grande tentação, convenhamos. Para cérebros treinados no (e para o) contexto da escassez, é o que faz sentido.
No entanto, num contexto de abundância este tipo de “chouriço” apresenta algumas desvantagens que, na minha opinião, devem ser levadas em consideração.
Na abundância de fontes, o leitor acaba por valorizar (e seguir) quem lhe dá as informações com mais valor. A web, e em especial a web viral, tende a valorizar o original em detrimento da reprodução. Como foram aprendendo os bloggers mais experientes (que em termos de experiência nos meios online estão uns furos acima dos jornalistas, que em Portugal não têm experiência nenhuma — isto salvo a dúzia de notórias e conhecidas excepções), mais vale acrescentar alguma coisa ao que toda a gente está a dizer (ou, usando a terminologia jornalística, “já deu”), do que simplesmente reproduzir.
Na verdade, bem mais precioso (e acertado ao meio) que reproduzir uma cópia de um conteúdo no site é exercitar o jornalismo viral, ou link journalism (ainda procuro uma tradução acertada), e ligar o conteúdo original.
Linkar, ou hiperligar, é o que faz sentido num contexto em rede: hiperligar é apontar, apontar é separar o relevante, o que proporciona valor a quem lê.
Reproduzir sem acrescentar valor é inútil num contexto de abundância, aumenta o ruído e decepciona o leitor (mesmo que num nível subconsciente).
Acrescentar nem que seja uma visão pessoal, uma opinião, é uma prática comum nos bloggers, que assim participam nas conversas, mas a uma publicação exige-se um pouco mais que isso. Outro lado do acontecimento, uma informação complementar, uma relação oportuna com outra matéria — é puxar da inteligência, da experiência e trabalhar: qualquer bit a mais de informação faz a diferença, quantos mais bits suplementares maior será a diferença e mais valorizado ficará o produto apresentado aos olhos de quem lê.
Neste caso, o leitor João Oliveira — e como ele milhares de leitores de media online — torce o nariz a fontes que, em vez de lhe darem informações novas, lhe encheram o ecran com dezenas de fac-similes do mesmo conteúdo, dificultando a tarefa de seleccionar e dispersando-lhe a atenção. Nenhuma das marcas que rivalizaram pela atenção do João “impingindo-lhe” algo que ele já tinha da primeira fonte, ganhou o favor de uma visita nem granjeou a sua simpatia (pelo contrário, ele exprimiu claramente as suas reticências).
Noutros casos, de que tornei exemplo o episódio recente do divórcio na hora que afinal não passa de um requerimento, reproduzir automaticamente os conteúdos de outras marcas é mesmo prejudicial para a sociedade, na medida em que propaga informações erróneas.

Carlos Duarte Um jornal regional publicou um artigo copy/paste e deixou no fim: “Texto retirado do directório de saúde do Sapo”! :O — ri-se, com toda a razão, o Carlos Duarte.

Offline, o lucro está na replicação e a originalidade é afluente.
Online, o ganho está na diferenciação e a réplica é uma perda de tempo.

Offline, só uma pequena parte das audiências se sobrepõe entre meios, mas online só uma pequena parte das audiências NÃO se sobrepõe entre meios. Um dos efeitos patentes é o de sublinhar o exercício da cópia, que é percepcionado pela audiência como uma fraqueza (mesmo não o sendo aos tais olhos treinados na, e para a, escassez).
No entanto, havendo — e há, ficam para outro dia — razões para fornecer também o noticiário corrente sem que a marca lhe acrescente valor próprio, este deve ser confinado na sua distribuição, para evitar esta desnecessária exposição.

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Debate

3 opiniões no artigo “Efeito Lusa: quando aprenderão os MSM que no online o ganho está na diferença?”

    1 JLS em 30 Abr 08 16:56

    Curioso que esteja a postar este artigo no mesmo dia em que sai esta notícia: «Media: Declínio da liberdade de imprensa em Portugal» http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=330287
    Até que ponto a falta de liberdade não será provocada pela carneirização dos próprios jornalistas?

    2 Joao Oliveira em 30 Abr 08 19:28

    Caro Paulo Querido,

    Traduziste num artigo sensacional o que eu pensava: a má utilização da Fonte (neste caso a Lusa, que ela própria por vezes concorrencia os meios para os quais vende sem algo mais relevante do que a mera cópia). E bastavam fazer, por exemplo, uma edição correcta - é o o que para a Lusa, um meio nacional, é a localização tipica (lugar, capital de distrito perto) para um meio local deveria ser uma localização mais precisa e correcta. E isto é só um exemplo…

    3 Ainda em Torno do “Efeito Lusa” | Comunicação Empresarial em 2 Mai 08 16:03

    [...] diria, fazendo deste post um acto de contrição, que o efeito Lusa de que se fala, é contraproducente no mundo jornalístico ou da informação online, bem como na [...]

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