
Há já algum tempo que andava para escrever isto. O movimento #FollowFriday perdeu o sentido e de emblema da espontaneidade das redes sociais passou a elemento dissuasor da frequência do Twitter à sexta-feira. Deixei gradualmente de participar mas experimentei alternativas que podem recuperar este antigo orgulho da rede Twitter.
No início o FollowFriday foi um sucesso que contribuiu para o aumento saudável do número de interacções no Twitter. O seu princípio era simples: cada pessoa recomendava contas que considerava especialmente merecedoras de serem seguidas pelos seus leitores, caso não o fizessem já. Era uma forma de aumentar os níveis de participação, estimulando cada nó da rede a ligar-se directamente a outros nós, provavelmente interessantes pois a recomendação vinha de um nó comum.
E funcionou com resultados notáveis. As redes alargaram-se.
Contudo, depressa se descobriram dois efeitos perniciosos: aumentou o nível de ruído à sexta-feira e perdeu poder como método de recomendação.
Ruído nas timelines
Primeiro, a quantidade de recomendações tornou as timelines difíceis de ler à sexta-feira. Os tweets contendo o identificador #FollowFriday dispararam desde Março, altura em que o movimento se implantou um pouco por todo o mundo e também em Portugal.
O seguinte quadro contém informação colhida na base de dados do TwitterPortugal, que rastreia mais de 10.000 contas portuguesas.
dia tweets FollowFriday percentagem 6 Março (*) 5.519 10 0,18 27 Março 10.100 228 2,26 10 Abril 9.574 390 4,08 15 Maio 10.686 714 6,69 12 Junho 8.045 404 5,02 17 Julho 25.261 1.277 5,05 14 Agosto 22.618 1.536 6,79 11 Setembro 34.914 1.555 4,45 (*) 6 de Março é a última sexta-feira antes da divulgação em Portugal do fenómeno #FollowFriday
Se tivesse levado em consideração, no quadro, os feeds de jornais e blogs e outros automatismos, deixando apenas os tweets “humanos”, a percentagem disparava para o dobro ou triplo. Também não considerei as etiquetas alternativas que entretanto muitos adoptaram.
Como se nota, o #FollowFriday institucionalizou-se, ao ponto de se tornar quase uma obrigação.
A pergunta é: ainda produzirá efeito?
Prémios & retribuições
Maija Haavisto, autora finlandesa do que será o primeiro livro sobre Twitter no seu país, acha que não. Dá um exemplo pessoal: numa sexta-feira recente recebeu 7 recomendações e NENHUM NOVO follower. Como em regra sucede com os incómodos visuais (não é sequer exclusivo da web), os nossos olhos habituam-se ao “obstáculo” e passam por cima. A maioria de nós suporta o #FollowFriday em nome da boa educação, mas ignora as recomendações.
Sendo uma forma de destaque, depressa o #FollowFriday passou a instrumento. Damos o “prémio” de um FollowFriday a quem nos é simpático — ou a quem queremos pareceber simpáticos. Distribuimos FollowFridays como retribuição a quem nos recomendou.
Não que eu seja contra este tipo de socialização: interessam-me os seus efeitos e nessa medida faço coro na chamada de aenção para o desvirtuar da iniciativa.
Num artigo para o TwiTip Maija Haavisto pede mesmo uma #FollowFriday revolution. Sugere uma metodologia: explicarmos a razão de cada recomendação.
Tentei esta aproximação nos meses de Verão, e não fui o único. Tenho visto outras pessoas procurarem manter a dignidade de uma das mais bonitas invenções saídas do colectivo de utilizadores de redes sociais. Não estou certo dos resultados, mas pelo menos considero-a um avanço. Permite-me olhar de novo para quem é recomendado porque sei que quem recomenda o faz com critério.
Não penso que seja boa ideia fazer campanha para banir o #FollowFriday. Mas se cada um de nós, na próxima sexta-feira, pensar duas vezes em quem recomenda, quantos recomenda, porque recomenda e nos que terão de filtrar o excesso de recomendações da sua timeline, o movimento #FollowFriday terá ganho.

Mas certamente que sim! é uma publicação de Paulo Querido, jornalista e consultor de comunicação. Também autor de livros, artigos e algum código. Na net desde 1989. (
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