i num instante nada mudou

ionline

N a falta de um estatuto editorial, um desrepeito pela Lei de Imprensa, busco no editorial do director, Martim Avillez Figueiredo, algo que me diga o que esperar do novo jornal diário saído ontem.
Fiquei a saber que não quero “pesadas” secções de política, economia ou cultura. Não. Quero o Radar: tudo o que de importante se passa, sei lá, por aí.
Por suposto, quero também o Zoom. Depois do Radar, vem a explicação. Mas — ah! — não fará o i zoom a tudo o que acontece: tal está reservado “ao que merece descodificação e profundidade”.
Cada um arruma as coisas como quer e chama às secções o que bem entender. A criatividade faz parte deste jogo e ao longo dos meus anitos de profissão vi cabeças de secção soberbas e também muitos desastres. As cabeças de secção são apenas isso: cabeças de secção. É bonito inovar, mas é apenas isso, bonito.
Mais à frente: o i quer “devolver” a agressividade que os jornais diários “perderam” e, na mesma penada, a “profundidade” que os semanários esqueceram e ainda, não percam o fôlego, a “sofisticação” que as revistas procuram.
Folheando o primeiro número, percebo que a “agressividade” estará reservada para mais tarde e suspeito, com tristeza, que não será dirigida a quem eu gostava que fosse. Não precisei propriamente do meu snorkel para mergulhar nas profundas explicações da gripe que mata menos que a sazonal e já tinha lido — ainda que na diagonal — a entrevista a Obama (ou eu não identifiquei bem o público-alvo do i, ou o público alvo do i já leu dias antes todos os exclusivos que o i vai publicar).
“Na verdade”, diz Martim Avillez Figueiredo a ficar sem recursos mesmo à beira do fim dos 2.000 caracteres do editorial, “o i acredita que num instante tudo muda e sabe que quem agora ler assim não lerá mais como antes. Nã há inimigos nem concorrência. Há uma paixão imensa pela informação e uma equipa preparada para suar”.
Não duvido. Nem dos inimigos. Nem da concorrência. Ou da paixão. Menos ainda: do suor.
Afinal, era a isto que se referia a constante alusão à mudança. Uma opinião fraca e a fazer o jornal tombar claramente para o lado conservador (se alguém usar “reaccionário” nas próximas semanas não me admirarei), uma falta de sentido de orientação quanto aos anseios e rumos das audiências do jornalismo e, em vez de espírito de missão declarado, o pregão da “mudança” tirado dos dossiês dos consultores da moda.
O website foi injustamente criticado por razões pequeninas (a tradução do castelhano não está concluída, so what?) quando há tantas por onde pegar — a começar pelos termos de serviço esquisitos, que não são deste século, desta web ou desta cultura. A passar pelas “escolhas” (escolhas? Ou sugestões dos consultores aceites sem pensar?) dos botões de partilha. A terminar no conceito de multimedia: uns videos para disfarçar a ausência de conteúdos Zoom e “fotogalerias” a martelo. Curto.
Ah: a noção de 2.0 é isto: o iRepórter, indicado para as fotos de batizados, descrições de lâmpadas públicas fundidas e videos de malabarismos de canídeos que passa por “jornalismo cidadão”, e as vulgares colunas de opinião que a modernidade mandou cunhar de “blogs” (estás ilibado, Marco).
Isto são só as primeiras reacções. Espero um mês, pelo menos, com tudo em aberto. Agora sem os slogans dos consultores e do marketing e libertos da pressão do número 1, que é sempre um mau número: surpreendam-me nos próximos 20 números.

Zoom (it’s a joke)
i agora…que a publicidade me enganou? Luis Santos no Jornalismo & Comunicação
i: o jornalismo de cidadão num jornal adulto (sem estatuto editorial?) Pedro Fonseca, no Contrafactos
Nasceu um Jornal – o website Alexandre Gamela n’O Lago
10 cosas que me gustan de ionline.pt José Luis Orihuela no ABC.es

Nota bene: juro que foi a última vez que chalaceei com o raio da terceira vogal. Já cansa. Irra.

Debate

20 opiniões no artigo “i num instante nada mudou”

    1 António Enes em 8 Mai 09 12:00

    Oh Homem, não gosta, nao leia! Nota-se perfeitamente que está com dor de cotovelo e que só esteve a espera que o jornal saísse para poder dizer mal!! Faça melhor, se é capaz!
    Ah, espere… anda nisto há muitos anos e pelos vistos… não é!……

    2 Paulo Querido em 8 Mai 09 12:24

    António Enes, se a minha opinião sobre o jornal não lhe interessa, prque se deu ao trabalho de a comentar nesse tom? Olhe: não gosta, não leia!

    3 i, um novo jornal « Navego,logo existo em 8 Mai 09 20:51

    [...] ! « Os Polícias de Setúbal i, um novo jornal Maio 8, 2009 Anida não li , mas pelo o que Paulo Querido ex-freelancer agora  freelance escreveu acerca do mesmo, de tanto mal … pelo menos vai ter mais um leitor, assim que comprar um i escrevo qualquer coisa, mas tão mau, [...]

    4 Rede PNET em 9 Mai 09 00:12

    Bom, amanhã vou comprar o í.

    5 i agora? uma revisão ao que foi dito e ficou por dizer « O Lago | The Lake em 11 Mai 09 12:14

    [...] se calhar teria feito o mesmo, mas tinha respondido na medida do possível às críticas negativas mais válidas num dos blogues do site, pelo menos. A auto-promoção é muito importante, mas aceitar as [...]

    6 João Filipe em 12 Mai 09 14:43

    Definitavemnte vou comprar.. Deve ser bom. Seja menos arrogante sf..quem é o senhor outra vez?

    7 Paulo Querido em 12 Mai 09 15:10

    João Filipe, olá, o meu nome é Paulo Querido e encontra toda a informação que pretender sobre mim tanto no link “Acerca”, nesta página, como numa consulta ao Google.

    E o João Filipe é quem, além de um leitor que eu preferia não ter? Faça um favor a si mesmo: deixe de me ler. Eu não tenho lições para si. Nem sequer as lições óbvias nesta matéria: 1 não julgue os outros pela SUA bitola; 2 esgrima argumentos em vez de tecer imbecis considerações pessoais sobre quem não conhece.

    Espero que não lhe paguem o servicinho. Foi muito mal feitinho.

    8 Vítor Coelho em 12 Mai 09 15:15

    Bom, comprei o “í” e confesso que também fiquei desiludido.

    Seria bom que não se viesse aqui insultar quem quer que seja, nomeadamente lançar insultos ao Paulo Querido. Todos temos direito às nossas opiniões. O Paulo Querido não gostou do novo jornal, eu fiquei desiludido … e depois? Qual é o problema?

    Vítor Coelho

    9 Paulo Querido em 12 Mai 09 15:41

    Vitor, há pessoas que vivem mal com o que não seja bajulice.

    Não sei o que é pior: se o relativo desapontamento com o jornal, que arranca pior do que imaginava (e do que as expectativas criadas, que se provaram infundadas), mesmo dando o desconto do nervosismo inicial, se ver as reacções das pessoas ligadas ao jornal. As citações que fizeram resumiram-se aos encómios ou a “críticas” ligeiras e anódinas. NENHUM dos posts críticos que li foram citados ou sequer comentados.

    Da minha parte o jornal i vai receber o que distribui.

    10 animal avulso em 12 Mai 09 17:47 11 Vítor Coelho em 12 Mai 09 18:12

    Caro Paulo

    Ae reacções das pessoas afectas ao jornal são, eventualmente, de desespero. Provavelmente já perceberam que o “í” não tem futuro. Pelo menos, a avaliar pela publicidade que tem tido, não irá longe …
    Mas oxalá melhore e se faça um bom jornal com pouco “falajar” e mais falar/ouvir/explicar/apresentar soluções.

    Um abraço
    Vítor

    12 A. Moura Pinto em 12 Mai 09 22:20

    Comprei dois i… i foi-se. Bastou, sem haver muito por escolher nas outras letras do alfabeto. Concordo assim com o PQ, isto é, com a sua opinião que parece ser algo que outros teimam não aceitar: que se tenha opinião.

    13 Paulo Querido em 12 Mai 09 22:29

    A. Moura Pinto, há outros que aceitam as opiniões — desde, bem entendido, lhes sejam favoráveis.

    Vítor: tb deixei uma palavra final optimista — ah, mas essa não quiseram ler.

    14 “Zoom” ao Jornal “I” « Jornal Ponto Alfa em 13 Mai 09 22:02

    [...] Crítica: Certamente!  [...]

    15 “Zoom” ao Jornal “i” « Kuarta Dimensão em 13 Mai 09 22:08

    [...] Crítica: Certamente! [...]

    16 João Gama em 20 Mai 09 19:09

    Parabéns, PQ. A resenha crítica sobre o jornal “i” é na ‘mouche’. Quem sabe, sabe… O jornal é mais do mesmo, mas em mau. Aliás, com um plantel daqueles é impossível fazer melhor, ou melhor: quem não sabe, inventa. A classe A, supostamente a quem se dirige o tal de “i” não lê jornais como o ijornal: sabe tudo em primeira mão. A classe A folheia a egoísta, o FT, a Monocle (onde o i foi copiar grotescamente os A, B e C das secções…), a Architectural Digest e por aí fora.
    A imagem perfeita da ficha técnica do i vem do futebol, caro PQ: imaginemos o plantel do Benfica a jogar com as camisolas do FC Barcelona… nos 30 segundos iniciais parece bom, mas ao fim de cinco minutos, já se percebeu que é ‘um prato cheio de m****’ e que não vão a lado nenhum. Como não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão (aliás, a impressão do i mete impressão!!), adeus… Enquanto houver detergente para a máquina de lavar, vai durar…
    Abraço e continue!!

    17 Paulo Querido em 20 Mai 09 22:56

    João Gama, obrigado. Devo, contudo, dizer duas coisas. Uma: se bem que não haja uma segunda oportunidade pra causar uma primeira boa impressão, os projectos de fôlego podem dar a volta, assim haja massa cinzenta e capacidade auto-crítica.
    Outra: o antecessor deste jornal em termos de espectro de cobertura opinativa — a direita conservadora — aguentou-se décadas a vender 600 exemplares por dia em banca. Assim haja que passe o cheque.

    18 Luís S. Santos em 22 Mai 09 02:48

    “Espectro de cobertura opinativa” é uma daquelas expressões que quase rebenta, de tão balofa…

    Caro Paulo:
    se o pretensiosimo fosse açucar, você seria um diabético extremo. Mas ao mesmo tempo admito que é admirável espreitar os seus escritos tão seguros, as suas opiniões tão convictas, as suas elucubrações sempre tão originais, distintas, únicas, singulares e, por que não dizê-lo, tão pertinentes e certeiras. Sigo-o com o mesmo fascínio com que, nos idos de 50, em criança, ia à feira ver aquelas senhoras com barbas ou aqueles gigantes emparelhados com anões. Ou seja, sigo-o com fascínio.

    O Paulo, permita-me que lhe diga, deveria ser um case study na Sorbonne. O auto-intitulado guru das tecnologias, o lucky luke do twittanço, o senhor das redes sociais, o homem que tudo sabe e que sobre tudo escreve, o expert que todos critica, que todos julga, que a todos aponta. O olho clínico que também levanta, quando lhe apetece, o manto diáfano que cobre os media dos nossos dias.

    O exemplo mais recente é esta análise sobre o i. Um exemplo como tantos outros. O Paulo – que o que percebe sobre jornalismo fica bem patente nos seus textos herméticos sobre tecnologia ou nas dissertações banais sobre imprensa, com que nos brinda nos jornais que o aturam – tem obviamente todo o direito à crítica. Deve exercê-la, celebrar a democracia que vivemos, gritá-la, vivê-la. Porque a crítica é boa. E os criticados devem saber conviver com ela, aceitá-la sempre, encaixá-la, digeri-la. E crescer com ela. Estou convicto de que o i o fará. Tal como espero que o façam todos os outros projectos/ideias/atitudes que o Paulo arrasa por não terem participação sua.

    Por isso, caro Paulo, porque a crítica é boa, porque nos faz crescer, permita-me que lhe deixe aqui esta, em forma de pergunta: é impressão minha ou o Paulo não erra? É que esse estilo contundente com que fala das “coisas dos outros”, transpira essa confiança de quem é infalível. Diria, mesmo, que exala um certo aroma a divindade. Porque você não “acha”, “defende”, “sugere” ou “considera”. Você, caro Paulo, “decreta” coisas. Dá-lhes um carimbo de irreversibilidade que nos deixa quase sem opção a não ser colocarmo-nos do seu lado da barricada e achar que tudo o que você acha mau merece, no mínimo, o nosso nojo.

    Sabe Paulo… você é grande! No fundo, assumo aqui o meu complexo de inferioridade. Eu queria ser o Paulo Querido. Queria mesmo. Queria ter as suas opiniões taxativas, sentir essa coisa de viver nesse mundo, tão acima dos outros. Ter essa perspectiva tão abrangente e ao mesmo tempo tão focada. E, já agora, gostava de ter também essa tão desmesurada falta de noção do ridículo. Porque acredito que seja muito mais fácil viver assim.

    Termino com três desejos:
    1) que não o tenha ofendido;
    2) que não seja um daquelas pessoas que vivem mal com o que não seja bajulice;
    3) que não me dê troco;

    Dou particular relevo a este último, só para não maçá-lo. É que a sua resposta ficará a ecoar no vazio, porque não debitarei mais uma letra que seja por sua causa. Continuarei apenas a lê-lo. Com o fascínio de sempre.

    19 Paulo Querido em 22 Mai 09 03:07

    Caro Luis S. Santos, os seus insultos e ataques pessoais dão-me a certeza que estou no bom caminho, no que a esse jornal diz respeito. É curioso, reparar na insistência nas reacções extremas à minha simples opinião. Deveras.

    20 J. Gama em 27 Mai 09 01:38

    iii, meninos! que nervalheira… Vá lá, izinhos, não se amofinem. Dentro de três meses, o tio APCT tratará de confirmar o vosso valor. Os vossos chefinhos, bem remunerados e já habituados a pirilampar de jornal em revista, de gabinete de comunicação em agência da dita, vão à vidinha e vocês, pequerruchos, a contar os 450 euritos no bolso não se amofinem: façam como nos idos de 70 do século passado, ou seja, aprendam pela negativa. A sério! Aprendam aí como não se deve fazer jornalismo. É muito positivo.
    Tenham calma. Só faltam mais dois meses para sair o APCT. Animem-se e ofendam-se muito. Insultem o senhor PQ. E depois mandem os currículos para jornais mais encorpados como o Expresso, o DN, o Público, A Bola, o Independente (gaita, já fechou!), a Kapa (bolas, outra…), o Metro (vai fechar…), a Grande Reportagem (outra…).
    Olhem, passem despercebidos, nos blogues, claro. É melhor. É que nas bancas já estão a passar ao lado.

Deixe a sua opinião




Textos mais recentes


ACERCA
mini fotografia paulo querido Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (Mais)

Como ler

Certamente! é distribuído em vários canais.
edição diária por e-mail
Pelo Twitter
Por RSS
Google
Bloglines
no Yahoo!
no seu leitor


http://www.wikio.fr