Indústria do jornalismo: é ordenhar a vaca até ao fim e adeus 

Sempre que falo em público sobre o jornalismo online ou com editores e directores acabo repetindo: mas *ninguém* é obrigado a ir para a rede, uma boa opção é espremer o negócio do papel até ao fim e depois partir para outra — sei lá, vender time-sharing em Vilamoura.

Mais: estou convicto que este é o pensamento de alguns, se não muitos, dos executivos da indústria do jornalismo por todo o mundo. Quantos deles têm realmente o coração no jornalismo? Para a maioria o jornalismo não é, apenas, mais um negócio como qualquer outro?

Claro que ficará mal a algum diretor de jornal assumir isto — mas eu não dirijo, sou independente e posso dizê-lo sem receio de prejudicar o meu negócio. Posso inclusivé dizer que alguns em Portugal já estão a fazê-lo: barricaram-se o mais que puderam nas suas trincheiras, mantém o online pela questão da visibilidade da marca, e vão fazendo planos para o fim. Não tem problema — desde que o façam transparentemente e informem os trabalhadores.

Jeff Jarvis acaba de dizer o mesmo acerca de Rupert Murdoch e a sua solução de paywall: “Murdock vai ordenhar a sua cash cow um litro de cada vez, espremendo-a, deixando para a sua descendência um aninal seco e moribundo, os restos do seu anteriormente orgulhoso, se não mesmo grandioso, império. Trabalhei para Murdoch na sua revista americana TV Gide. Respeitava a sua coragem. É com pena que a vejo desaparecer” (em Rupert’s pathetic pay wall).

A verdade pura e dura é esta: é impossível transpor para a rede o complexo de embrulhos e capas que no mundo da geografia servem para transportar as notícias até às audiências. Só uma percentagem sobreviverá. A percentagem que souber adaptar-se.

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