Jornalismo e media online: mixed feelings
Os sentimentos contraditórios, mixed feelings, relativamente ao jornalismo e media online continuam na ordem do dia.
De um lado temos o erro puro, o desespero, o mau caminho, as vistas curtas:
Revista regional online, precisa de colaboradores jornalistas.
Condições: Não remunerado
Exige-se: Conhecimento em jornalismo regional
(via O Lago).
O Alexandre Gamela limita-se a dizer: vão gozar com outro. Eu digo um pouco mais (também tenho idade para isso).
O que vai na cabeça do dirigente/empresário que coloca um anúncio destes?
Aviar uma publicação online com o menor custo possível, não interessando rigorosamente nada a qualidade do que lá se mete, pois o anunciante local vai pagar na mesma, independentemente do que lá for publicado.
Com um pouco de sorte e as ligações certas, o empresário já teve, ou tem, perspectivas de sacar uns cobres dos dinheiros públicos para investimento em conteúdos online. Como sabemos, as estruturas que canalizam as verbas não possuem condições de fiscalização posterior, por um lado, e por outro a colossal quantidade de verbas que ainda vêm da União é propícia a que encolham os ombros.
Tudo isto só funciona porque à oferta abundante de mão de obra nesta área se juntou cuidadosamente a falsa ideia de que o user-generated content substitui o conteúdo criado por pessoas treinadas ou vocacionadas, criam-se as condições para que aquela “revista regional online” consiga os colaboradores de que necessita.
Pela amostra, qual será o valor daquela “revista regional online”?
Os jovens, na mira de fazer currículo, vão aceitar uma posição que não lhes dará nada para além da experiência — de valor discutível — de lidar com uma estrutura que trata o produto jornalístico como estrume e as pessoas que o fazem como zeros à esquerda.
Mais valia aos jovens abrirem um blogue. Retorno zero por retorno zero, aprendiam infinitamente mais durante três meses a fazer um blogue, do que a trabalhar como escravos de uma “revista regional online” que os trata como gado. Aprendiam com a audiência, aprendiam com as fontes, aprendiam com o mercado. E funciona na mesma como currículo, sendo que é muito mais valioso. E com as ideias no lugar, faziam uma publicação capaz de obter 10 vezes as audiências da “revista regional online”, podendo mais tarde pensar na monetização.
Não é de todo em todo aceitável ver os jovens a penar neste mercado de trabalho onde podem entrar pela sua própria mão, não têm mais de depender dos produtos para anúncios de costureiras, barbeiros e tipografias que passam por “jornais” e “revistas”, que é o que mais abunda na imprensa regional.
Do outro lado do mundo as coisas são bem diferentes e avolumam-se os sinais de que a imprensa já viu que a saída é subir na escala de valor, não é descer. Reproduzo sem mais comentários o início do press-release:
washingtonpost.com Adds TechCrunch to Technology Section
Thursday May 8, 9:29 am ET
First News Site to Syndicate TechCrunch Content
WASHINGTON, DC–(MARKET WIRE)–May 8, 2008 — washingtonpost.com, an award-winning news and information Web site, today announces it will include coverage from TechCrunch in its technology section.
TechCrunch will provide washingtonpost.com readers concentrated and continuously updated insights into cutting-edge start-ups, products and other online ventures. This addition rounds out the Technology section, which already provides in-depth reporting on the latest news and trends affecting every aspect of the technology industry, from medical innovations to the evolutions in global media policy, personal technology to issues of security.
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Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (
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Boa noite Paulo Querido,
Há uns anos, nos finais de 1988, aceitei um desafio – como não sabia nada informática – derrubei a minha resistência do não querer: comprei um computador, que me custou os “olhos da cara”, frequentei diversos cursos no Sindicato dos Economistas e consegui descobrir que afinal o ser humano tem uma infinita força para vencer as barreiras que ele próprio cria.
Às vezes não basta querer – tem de ser. A tenacidade é uma virtude dos lutadores e desistir não foi o meu horizonte.
A partir daí, nesse computador, que fui sucessivamente actualizando em hardware e software, comecei a fazer todos os meus relatórios, pois no meu trabalho não existiam computadores.
Aproveitei o ensejo: desafiei uns quantos colegas que também ganharam a aposta. Depois daquele repto aproveitei os ensinamentos: afinal aquele desafio teve em mim um despertar de consciência, um ensinamento – nunca se deve dar por vencido por mais se sejam os infortúnios ou as vicissitudes da vida.
Em Março do ano, de dois mil e quatro, embarquei numa aventura, sem porto seguro, quando decidi dar a conhecer a minha poesia. Antes de iniciar esta viagem fiz alguns preparativos.
Comprei O livro do “Paulo Querido” que ensinava a melhor forma de construir livros virtuais, a que chamam “blogs”e, quando já me sentia minimamente preparado, arranquei forças, para desenterrar o “baú” onde guardava alguns segredos…
Foi assim que o Paulo Querido, sem o saber, ficará ligado ao meu blog “Poemas de amor e dor”. Digamos, foi um bom mestre e eu um bom aluno, pois, o blog, alcançou o 1º lugar do Sapo em pouco tempo, tendo permanecido nos 10 primeiros lugares durante 18 meses com cerca de 1 milhão de acessos.
Em Maio de 2004 foi confirmada a minha doença de Parkinson, contudo os sinais já os tinha desde 2002. A partir daquela data o Blog foi a tábua da minha salvação. Foi terrível, acredite. A partir daí recomecei a escrever poesia e a editá-la no blog sob o pseudónimo de ROMASI. Não consegui esconder a doença, uma vez que a poesia era a minha catarse, e acabei por comunicar aos meus colegas de trabalho e aos leitores do blog esta enorme tragédia que me persegue.
Em 2005 escrevi o poema “quisera andar de Carrossel” e quando o coloquei no blog escrevi o seguinte preâmbulo”. Este poema foi escrito depois de pela 2ª vez ter feito “borrada”.
Foi assim: a minha doce Elisabete fazia anos e eu até não estou muito mal, porém fui um desastre, no restaurante, nesse jantar de anos. Salpicou comida na gravata, para as calças, e, quando me pretendia limpar, levantando-me, tombou a cadeira e o casaco foi ao chão. Pouco se notam as diferenças… mas parece que caem sobre nós todos os olhares e virei carrossel, recordei-me do melaço com que enfarruscava o meu rosto que recuperei na lembrança, e fui de novo criança, agora, mais tonta e mais perdida…
Deixo-vos com o poema dedicado a todos nós, portadores da doença de Parkinson e publicado no dia em que o meu livro de poesia “Poemas de amor e dor” foi acedido 1 milhão de vezes em 18 meses”
Paulo, desculpe não estar a comentar o que escreveu, devia-lhe isto.
Os blogs têm dado a conhecer enormes talentos. Foi, e é uma janela de oportunidades para muitos, e ainda bem. Não é o meu caso! (tenho recusado convites para editar livro)
Eu e tantos mais tirámos partido dos blogs para não nos isolarmos, para nos obrigar a sair dos sofás. O blog teve em mim outros reflexos: primeiro deixei de rasgar a poesia como sempre fiz; segundo por haver muita gente que se identifica com o que escrevo; terceiro se escrevo sofro, se não escrevo morro. Prefiro viver, mesmo sabendo que o mais certo é ficar completamente incapacitado em poucos anos.
É verdade que às vezes nos sentimos quase a desistir “Subir ao mais alto do lugar, para sempre abrir o teu olhar” mas aquele fio condutor de vida faz o tal “clik” e por vezes basta uma simples caneta ou teclado, um bocado de papel (seja lá de que forma), para se transformar uma “tragédia” num desabafo… Não há mal que o tempo não cure!
Vou terminar. Durante estes últimos anos tenho pedido a Deus, à vida ou ao Universo para ter coragem. Só nunca estive! Só não está quem tem uma companheira como a que me faz companhia. Mas Parkinson é Parkinson e por vezes estou “em baixo” e o isolamento é característico desta doença.
Um abraço, com esperança no futuro, e continue a ajudar a construir blogs para que muitos, que estão piores, não se sintam perdidos e abandonados. (se existem computadores baratos para que anda a estudar, qual a razão para o não fazerem aos idosos que ainda se sentiriam aptos em comunicar, em escrever)
Pegando nas palavras da brilhante escritora e jornalista, Laurinda Alves:
“Eu pedi coragem e Deus deu-me obstáculos para superar.”
Rogério Martins Simões
Caro Rogério, fico feliz se humildemente contribui e não, não me deve nada, eu é que lhe devo alguma coisa a si, as minhas palavras não têm a força e o significado das suas.
Se escrevo, sofro, se não escrevo morro — conheço esse sentimento desde os 15 anos, quando comecei a castigar a máquina de escrever e os vizinhos de madrugada.
Pego numa dessas palavras dessas madrugadas e devolvo-lha agora: coragem.
Boa noite
Paulo Querido, desculpe não comentar o seu post, mas, e apesar de saber, por experiência própria, que por vezes a “solidariedade” é uma palavra vã, já que só quem sente na pele pode avaliar um sofrimento semelhante, quero manifestar o meu apreço ao Rogério Simões pela coragem com que encara a vida. Força Rogério!
Muito obrigado Rogério por partilhar.
Paulo, na semana passada aconteceu-me uma destas coisas. Alguém de um jornal regional dos arredores de Lisboa deixou um pedido de contacto a perguntar se “as nossas inclusões eram pagas”. Telefonei-lhe a perguntar pelo endereço do jornal e respondeu-me que ainda não tinham site, mas ia ser feito por estudantes do secundário…
Disse-me ainda que estava na altura de um jornal de tanta tradição ter um site, outros mais novos já o tinham…
Expliquei-lhe que as inclusões no Google não eram pagas e que podia facilmente estar listada no Google News se o site fosse bem feito (não me parece…) Quando lhe dei uma breve referência do que optimização poderia custar (por baixo) mudou rapidamente de assunto…
Desconfio que vai acabar por comprar os serviços de um qualquer serviço de submissão aos motores de busca…
Infelizmente anúncios que exigem muito mas que pouco dão é do que há mais. Quando um profissional com experiência e formação superior (apesar dos puristas dá jeito) e com investimento pessoal na sua própria formação é obrigado a aceitar trabalho por meia dúzia de tostões as horas que forem precisas, em condições abaixo do aceitável, não me venham falar de escolhas de carreira. Se o problema fosse realmente esse, estava muita gente desempregada na mesma mas quem trabalhasse receberia condignamente e em condições muito boas. O problema é o chupismo e o aproveitamento de situações deploráveis. Não se contrata quem tem valor, contrata-se quem está disposto a sujeitar-se a isso. Até hoje recusei um trabalho no Porto para uma produtora de televisão que pagava 300 euros para semanas de 6 dias e como eram compridos esses dias; neguei-me a responder a anúncios que pedem viatura própria; meti numa lista negra as empresas que de 3 em 3 meses abrem vagas para estagiários que recebem apenas 150€ por mês, “para despesas”; não mando o meu currículo para responder a anúncios que prometem um salário mínimo em Lisboa porque não tenho dinheiro para pagar para trabalhar. Sei de gente com capacidades fantásticas que trabalhou de borla até se desiludir e agora trabalha em supermercados,call centres, cafés. Eu depois de ter tirado o curso trabalhei em bares, entreguei publicidade, passei 6 horas a fazer sondagens por telefone para fazer 7.50€, fiz sites a preços reduzidos, tive outros empregos ligados a jornalismo, mas a revista fechou, a rádio não tinha dinheiro, e um patrão que em vez de ter vergonha de roubar e ser apanhado dizia que vergonha é não saber roubar (fechou a empresa o ano passado, quase duas dezenas de pessoas na rua, um rol de processos em tribunal). O jornalismo português (e outras actividades) está a morrer não por falta de gente qualificada,dinâmica e interessada -estes acabam por ser aqueles que normalmente não beneficiam do factor C-,mas pela ignorância e cupidez de quem gere essas tascas a que chamam empresas, que tratam pessoas honestas e trabalhadoras como gado, e que vivem para lamber botas a meia dúzia de pequenos senhores. Eu aos 30 anos não tenho nada a perder e aos poucos vou queimando muitas das pontes que tenho porque já não estou interessado em as atravessar. Porque em 9 anos fora da faculdade enviei milhares de currículos, perguntei por trabalho a quem conhecia, pedi a quem não conhecia e poucas oportunidades tive. E não me venham dizer que é por incompetência minha porque o que estes senhores pedem não é competência,é apenas subserviência e uma personalidade masoquista tão típica no nosso país. Está difícil para todos? Deve estar, apesar dos carros e das casas não faltarem a quem manda, e não está melhor porque não querem melhorar. No poupar nem sempre está o ganho, e às vezes pergunto-me se o povo que uma vez se lançou ao mar para arriscar a sua sobrevivência é o mesmo a que pertenço. Eu não queria dizer vão gozar com outro, eu queria mesmo era dizer algo mais forte e que as pessoas compreendessem. Mas sou um rapaz educado, e lá por causa de lidarmos com burros não temos nada que desatar a zurrar. Obrigado Paulo por ter pegado no meu post, e espero que, independentemente do meu percurso profissional no futuro, esta conversa se torne uma coisa de um passado que de tão pesado se arrastou a ele mesmo para o fundo.
E um abraço e todo o meu respeito e admiração ao Rogério, que me fez lembrar que são poucas as coisas realmente importante na vida.
Em primeiro lugar:
“Pegando nas palavras da brilhante escritora e jornalista, Laurinda Alves:
“Eu pedi coragem e Deus deu-me obstáculos para superar.”
Rogério Martins Simões”
O que o Rogério escreveu é algo que não esperava vir a ler quando vinha comentar. É difícil dizer qualquer coisa e penso que o que diz Alexandre Gamela, “o meu respeito e admiração ao Rogério”, é o que eu também sinto.
A frase da L. Alves é uma frase que me acertou como um murro. Pois também eu me recordo de já ter pedido coragem… Ele não podia ter escolhido melhor frase.
—
Quanto ao “anúncio”, faz-me pensar nos pedidos ridículos na minha área profissional (publicidade/Design) e em como se brinca com a necessidade dos outros de ter curriculum,etc.
Por outro lado, como cronista não paga de um jornal regional que entretanto sucumbiu, e não sendo eu de letras embora seja por elas apaixonada… fica-me aquela leve sensação de que se não existirem anúncios estúpidos, pessoas como eu nunca poderiam evoluir como eu o pude.
Um blogue pode ser muito bem feito, mas para muitos, na nossa sociedade, é ainda uma brincadeira. Enquanto que um nome impresso nas páginas de um jornal tem outro peso.
Senti-o na pele variadas vezes.