Media: o estado da arte (não é nada simpático)
Acaba de sair a quinta edição do estudo sobre o estado da arte da indústria dos media, The State of the News Media 2008, produzido anualmente pelo Project for Excellence in Journalism. É incontornável.
O problema são as 700 páginas — uma leitura só acessíveis aos investigadores do sector. Mas há os resumos e os sumários para todos os gostos.
Eis principais conclusões do estudo numa tradução que fiz com a maior aplicação que pude, ressalvando que não tenho pretensões de tradutor.
- As notícias deixam de ser um produto — o jornal do dia, a transmissão de um boletim noticioso — e tornam-se um serviço. Já não há um produto final, ou acabado, mas sim fluxos contínuos.
- Uma organização produtora de noticiário e um website noticioso já não são destinos finais. Tornam-se paragens ao longo de um caminho, portões para outros destinos, mecanismos de esgravatar mais fundo na correnteza, ideias em torno do serviço e não do produto. O “jardim murado” (com uma bilheteira à porta) acabou.
- Os anúncios do conteúdo gerado pelo utilizador, inicialmente pensados como eixo central da próxima idade do jornalismo, surgem agora mais limitados, mesmo entre os sites de “cidadãos” e os blogues. Os news people dizem que a maior excitação oriunda do input dos cidadãos são as novas ideias, fontes, comentários e até certo ponto as fotografias e videsos. Mas os artigos dos cidadãos provaram ser menos valiosos, com demasiado pouco de novidade ou de verificável. E o cepticismo não se restringe aos mainstream media (MSM).
- Cada vez mais a Redacção é entendida como a mais inovadora e experimentalista secção da indústria das notícias [...] Um inquérito a jornalistas de diferentes media indica que a maioria pensa que o facto de jornaslistas escreverem blogues, a existência de rankings de notícias nos websites dos jornais, os comentários dos leitores e mesmo os sites de “citizen news” tornam o jornalismo melhor — uma resposta difícil de imaginar há uns anos. Estas novas tecnologias são vistas agora menos como uma ameaça a valores e uma exigência da modernidade, e mais como uma forma de religar as audiências. Os trabalhadores da indústria do noticiário mostraram-se agora menos ansiosos relativamente à credibilidade, a preocupação de há poucos anos atrás. As preocupações agora são com o dinheiro.
- (Das mais desconcertantes) A agenda dos media noticiosos americanos continua a encolher, não a aumentar. É difícil agarrar isto, mas a tendência é incontornável. Uma auditoria à cobertura mostra que em 2007 duas histórias — a guerrra no Iraque e a campanha presidencial de 2008 — preencheram mais de um quarto do todo noticioso e pareceram consumir muito mais do que isso da energia e recursos dos media. E o que não foi coberto foi de muitas formas mais notável do que o que não foi. Além do Iraque — e, em grau menor, o Paquistão e o Irão — a cobertura dos eventos além-fronteiras foi mínima, restrita a acontecimentos que envolveram directamente interesses americanos, a sangue e a dinheiro. [...] E os novos meios parecem ter uma visão periférica ainda mais estreita do que os antigos. O noticiário no cabo, a rádio e também os blogues tendem a focar-se nas histórias de topo (muitas vezes polarizadas) e a amplificá-las. A Internet oferece a oportunidade de agregar ainda mais fontes, mas o seu valor ainda depende no que as fontes originais são capazes de produzir. Enquanto o mundo dos media se fragmenta em mais escoamentos e opções, as fontes de reportagem diminuiram.
- (Das mais surpreendentes) Em vez de ajudar a mudança, as agências de publicidade parecem ter dificuldade em manter-se dentro dela. Como os media antigos, as agências têm a sua própria história e cultura que as impede de adaptar à nova tecnologia e aos novo hábitos do consumidor. Quem as dirige conhece os métodos dos velhos media e tem contactos nos velhos media. [...] Por ora, o futuro parece apontar para mais confusão e fragmentação antes que um novo modelo surja. [...] A questão se, e como, a publicidade e o jornalismo vão continuar parceiros está em aberto.
Data: 25 Mar 08 09:14 Editor: Paulo Querido Arquivo: media Tags: jornalismo
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Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (
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