Quando as palavras não deixam (elaborar ilusões) 

As palavras são tudo menos inocentes. Usando-as elaboramos o tosco simulacro a que depois chamamos realidade — e as audiências, porque confiam, convencem-se que “sabem” a verdade e estão “informadas” sobre o que “realmente se passa”.

Ao longo das últimas três décadas assisti à erosão da preocupação com o léxico na comunicação social portuguesa, substituída gradualmente pela imposição de uma narrativa upper-class que só muito parcialmente assenta no crescimento das classes médias na maior parte desse período.

Perante o descomunal peso dessa construção no espaço mediático, diminuindo o espaço teoricamente disponível para outras narrativas menos alinhadas com o rumo preferido pelas classes poderosas, às vezes penso até que ponto está a narrativa upper-class justificada, ou se a justificação, sendo frouxa, não passa antes de um pretexto. Entretanto tornado regra entre os jornalistas e comentadores incumbentes por força da repetição.

(Este afunilamento discursivo é comprovável assistindo a tantos programas de “debate” onde vemos 3 e mais representantes de outras tantas supostas correntes sociais serem, afinal, discursivamente idênticos, como ventríloquos idênticos, fabricados em série, e embalados sob diferentes “marcas”, num unanimismo preocupante, sobretudo porque aparentemente filtrado para se alinhar com o poder dominante.)

E tendo em conta que nos últimos 4 para 5 anos as classes médias, compradoras desse simulacro mediático, têm vindo a encolher, mais se me afigura anacrónico um mapa mediático que deixou de se justapor ao mapa social. Sendo essa uma das razões, embora talvez das menores?, para a perda de audiências e de interesse que caracteriza a atual comunicação social portuguesa.

Ocorre-me isto a propósito de um artigo acabado de ler. Eis dois excertos tirados de um texto que subscrevo na íntegra e cuja leitura recomendo vivamente a jornalistas e consumidores de jornalismo (e, até, dos seus sucedâneos, ou sobretudo dos seus sucedâneos): O léxico autorizado, por José Vítor Malheiros.

É possível criar narrativas diferentes à volta da expressão “empréstimo”. Posso dizer “aquele empréstimo permitiu-lhe salvar a empresa” ou “o que o levou à falência foi aquele empréstimo”. Posso dizer que o “empréstimo negociado com a troika tem um juro usurário”, mas já não o posso dizer se lhe chamar “ajuda”. As palavras não deixam.

E quando se chama “maturidade cívica dos portugueses” à ausência de contestação e “tumultos” aos protestos será possível a uma pessoa sensata defender ou participar nos últimos?

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