Sabe o leitor quais são os jornais desportivos em Portugal?

Sabe o leitor quais são os jornais deportivos em Portugal? Se respondeu A Bola, Record e O Jogo, falhou. Peeeeeemp, wrong. Não ganha a torradeira.
Os jornais portugueses que se interessam pelo desporto, e dão notícias sobre ele, são 4 dos principais diários (Correio da Manhã não incluído) e um semanário (o Expresso). Esses três em que pensou de imediato ligam muito pouco ao desporto. Deviamos fazer uma petição para lhes passarmos a chamar de “jornais dos clubes de futebol”, e não “diários desportivos”.
Se acha que estou a exagerar, leitor, olhe que não, tenha paciência, espere mais uns dias por um artigo meu com a explicação inteirinha.
Para ir saciando a curiosidade (eu aqui ouço-o roer as unhas!) fica uma pergunta: qual foi o jornal português que deu mais espaço de primeira página aos Jogos Olímpicos?
Dica: não foi o diário que, no dia em que Nélson Évora ganhou a medalha de ouro de campeão olímpico, repetiu em manchete pela enésima vez o Fabuloso Reyes, a pretexto da assombrosa, e sem dúvida notória ambição demonstrada na frase “darei tudo para ser campeão” — tão assombrosa, única e ímpar que foi proferida no âmbito de um “exclusivo”. É daquelas coisas que só se dizem uma vez na vida, algo capaz de obliterar a importância mundial dos jogos na China com a dimensão profunda, incomensurável, eu diria divina dessas 5 palavras, “darei tudo para ser campeão“.
Consta que foi a única entrevista exclusiva que Reyes deu nos 15 minutos em que falou para o Record nesse dia, mas esta pista, de um anónimo que diz ter visto Reyes a dar mais sete entrevistas exclusivas a outros tantos jornais, rádios e televisões à saída do treino dessa manhã, carece de confirmação. Ainda assim, apurámos de fonte seguríssima e próxima da Luz que a nenhum outro jornal terá dito “darei tudo para ser campeão“, e se por um extraordinário acaso o fez, não foi em exclusivo.
Só as mentes manipuladas pelos chineses (que, como é sabido, manipularam os Jogos Olímpicos, que na realidade nunca existiram) poderão achar que uma medalha de ouro é mais importante que aquela Estupenda, Inolvidável e Há Muito Esperada afirmação do reforço do Sport Lisboa e Benfica — uma frase que por si só é, não apenas todo um programa, como a garantia da conquista do título!
O que conta mais: “darei tudo para ser campeão” ou a quarta medalha de ouro de Portugal em mais de um século de Jogos Olímpicos? Quarta medalha, campeão olímpico, bah, que vulgaridade. 3 mil no Seixal para ver o homem que vai dar tudo para ser campeão! Isso sim, é notícia de capa! Isso e o beijo de Rui Costa a David (?), a mais fabulosa das manchetes a que assisti em 30 anos de carreira, o primeiro terço dela, ainda por cima, em jornais “desportivos”.
O leitor que acertar no número de manchetes de Reyes no Record em Agosto ganha… uma colecção das capas digitalizadas deste Glorioso Jornal entre os dias 7 e 25 de Agosto de 2008. Para que jamais se esqueça deste Grande Momento.
(Se é director ou, vá lá, chefe de Redacção do Record, caro leitor, então console-se. Houve pior: O Jogo passou ainda mais ao lado dos Jogos.)
Na imagem: composição com cinco capas do Record durante o período de 15 dias em que decorreram os Jogos Olímpicos de Verão em Pequim, na China, altura do defeso futebolístico em Portugal e por toda a Europa.
Acções
Guardar/partilhar:
Facebook
Twitter
delicious.com
DoMelhor
Assinar publicação:
feed RSS
e-mail diário
- Nenhum jornal português no Kindle lançado a 19 de Outubro
- Scolari sabe-a toda
- Primeira mão: Certamente! antecipa manchetes dos desportivos (e não só) nos próximos dias
- A propósito do Euro 08: o discurso (diferente) do "jornalismo desportivo"
- Análise das capas dos jornais nos jogos Olímpicos
Relacionados
Debate
10 opiniões no artigo “Sabe o leitor quais são os jornais desportivos em Portugal?”
Deixe a sua opinião
Textos mais recentes
- The last laugh – If self-published writers owned the midlist #LerComCalma (mais 2 links) em 3 de Setembro de 2010
- Top 10 – Richest Men (of All Time) (mais 1 link) em 1 de Setembro de 2010
- Regras de análise económica para a oposição (segundo João Miranda) em 31 de Agosto de 2010
- As (importantes) mudanças no USA Today, segundo maior diário americano em 30 de Agosto de 2010
- We Dont Hate You – Dear America… (mais 1 link) em 30 de Agosto de 2010

Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (
Siga o feed RSS
Receba a edição diária por e-mail
Só me vem uma palavra a cabeça… vergonha! Mas quando os numeros de venda passam a ser a unica coisa que vale no mercado. Deixa de existir o minimo de bom senso.
É sabido que esses não são desportivos mas mero desperdício de papel em folhas e folhas sobre futebol. Mas em parte deve-se ao facto de em portugal o futebol vender, muito mais do que qualquer outro desporto. Acho que se pode dizer que em Portugal o desporto (no seu todo) quase não existe, está esquecido, não admira que nos tenhamos de contentar com menos de 4 medalhas nos olímpicos.
O “esquecimento” dos ditos desportivos é ridiculo ao ponto de minar o próprio futebol nacional. Quem os lê poderá ficar convencido de que o campeonato se resume a uma liguilha entre 3 clubes e um ou outro outsider.
Pá… ontem havia mais um: o “O Primeiro de Janeiro” a trazer capa, segunda página e por aí fora, tudo dedicado ao futebol, perdão, desporto.
É no que deu a substituição dos jornalistas…
A pior coisa que aconteceu aos “jornais desportivos” foi terem-se tornado diários há um bom par de anos.
Carlos Daniel, quando se decide o que é capa, a nossa audiência pesa na decisão. Os jornais de futebol são-no também em função das preferências dos seus leitores — afinal, a sua razão de existência.
Contudo, não é o único factor de ponderação. Ou não deve ser. Eu entendo que neste exemplo a falha nem está ligada a isso. Como deixo bem claro no texto, ou pelo menos tentei, é o assunto escolhido para manchete que considero indigno de um jornal como o Record, sobretudo num dia como o dia 22, em que havia claramente notícias importantes para dar. Não era preciso recorrer a um não-assunto.
As audiências também se fazem, também se surpreendem, também se “educam”, também se lhes deve alguma coisa, não é só tirar.
Cátia, sim. O futebol é claramente a “paixão” nacional. E com comportamentos como os de o Record, assim se vai continuar a manter por muitos anos.
Plexu, de acordo. Não foi por acaso que nem lhes chamei jornais de futebol. Escolhi “jornais de clubes de futebol”.
Carlos, há um nicho para aquele tipo de jornal. Tanto que há que o PJ continua, há anos e anos. Como O Dia, O Diabo, o Semanário e mais alguns jornais sem jornalismo.
João, porquê? Gostava de ver essa tese mais desenvolvida
Gostava de saber do impacto das vendas dos 3 jornais futebolísticos nesse dia, para tentar perceber se o “pragmatismo” do Record lhe saiu pela culatra ou não …
[...] são muito conservadores no que respeita ao espaço das suas capas. Já noutra ocasião referi o pequeno escândalo que constituiu, para muitos, a sucessão de capas do diário futeboleiro Record com o jogador do [...]
É o síndrome dos “3 estarolas”, de que sofrem os ‘jornaleiros’ do desporto luso. Já há muito que me fartei desses matutinos e recuso-me a dar um tostão por eles.
E viva a internet livre!
Por mim os (desportivos) já foram á falência á muitos anos’ Já agoras: quando o andebol do Sporting ganhou a Challenge, teve (direito) a 2 cm de notícia num cantinho do Record. Há um racismo destes pasquins contra as outras modalidades, além futebol. Um nojo.