Acácio Barradas
Só há pouco soube da morte de Acácio Barradas. Todos os jornalistas têm um chefe de Redacção mítico nas suas vidas. O Acácio Barradas foi o meu. Risca. O Acácio Barradas é o meu. A morte aos 72 anos rouba-o à vida, que não à memória dos homens.
Conheci-o no Diário Popular na década de 80, era eu um jovem jornalista do 1º Grupo (na altura a carteira dividia-se em escalões que reflectiam os anos e a experiência). Ele reinava — um reinado que, descobri mais tarde, resultava de um exercício incrível de equilibrismo, numa Redacção onde trutas ávidas de poder e jarrões decorativos do jornalismo, como Baptista Bastos já era há 30 anos, faziam o que podiam para tramar o chefe. Havia um jornalista que estava de baixa psicológica permanente por causa do inferno que era, à epoca, a Redacção do Diário Popular. Mas com a sua equipa de vices — António Colaço, Paulo de Carvalho e Ângelo Granja, julgo que jó resta o meu amigo Paulo, conservado no frio do Norte europeu — lá fazia do Popular o diário vespertino de referência.
(Vespertino é um jornal que sai à tarde, depois de almoço.)
Mais tarde nessa década regressei ao Popular pela porta grande, para jornalista do nacional, depois chefe do desporto, depois semi-chefe, em regime de voluntariado, da economia, já a empresa que iria destruir o Popular rondava a Luz Soriano e o pessoal debandava. Foi aí que o conheci melhor. O temperamento (o Daniel Oliveira descreve na perfeição, aqui). A aparentemente inesgotável energia. O nervosismo sempre à flor da pele. A noção de justiça que conheci em muito pouca gente. Nunca o vi errar um julgamento, nunca o vi punir alguém que não merecesse, ou recompensar quem não tivesse trabalhado bem. Embora fosse pouco dado a salamaleques e floreados.
O Acácio era teatral. O Acácio tinha uma vida, ainda que reduzida nesses tempos em que fazer jornais ocupava o dia todo de um homem. O Acácio escrevia os recados e marcava os serviços à mão, gastando uma resma de papel de 2 em 2 dias. O Acácio já ia a meio dos seus quarentas quando teve uma dupla grande mudança na vida: passou para o outro lado da rua, para o Diário de Lisboa, e não podia recuar, como tinha feito no Popular, perante a “informatização”. O Acácio pediu-me apoio. Foi o “aluno” mais rápido que tive, tomou meia dúzia de notas — à mão — e lá foi.
Tive sempre respeito pelos camaradas que fizeram o meu jornalismo. Honro-os como posso. Com a memória deles. O Acácio Barradas está nessa galeria de figuras que atravessaram a década mais complicada de gerir, a todos os níveis, do entusiasmo humanista às causas, da política de trazer por Redacção às tentativas de controlo editorial, da louca aprendizagem, pelas classes médias emergentes, de um mundo até 1974 reservado às minúsculas, quase invisíveis elites intelectuais que se davam ao luxo de viajar no Estado Novo.
Vejo-os desaparecer com emoção mal disfarçada. Recuso-me fazer ligações entre tempos. O jornalismo hoje é o jornalismo hoje, as condições sociais, económicas e educacionais são absolutamente diferentes. Não há melhor nem pior no meu discurso. O lugar é para a memória de homens corajosos. O Acácio Barradas é recordado em regime de permanência na minha memória. Onde sempre esteve, mesmo depois de se reformar. Trocámos uns mails e às vezes tropeçávamos um num outro numa livraria. A sua memória continuará também nesses lugares que foram os nossos.
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Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (
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Também tive esse privilégio difícil de medir que foi ter trabalhado com o Acácio. Igualmente como meu Chefe de Redacção no Diário Popular, cargo que repartia com o Ângelo Granja, como referes. Era um estagiário principiante, e hoje, 20 anos depois, sinto-me como se tivesse sido um bebé que nunca gatinhou, passou logo a andar. Sinto…não foi bem assim, mas o Acácio teve um papel fundamental para me dissipar de vez qualquer vestígios de dúvidas do que queria mesmo era ser jornalista. Com uma redacção bastante difícil para gerir, como melhor conheceste do que eu, nunca lhe faltou o tempo para me encorajar e planearmos as muitas reportagens que lá fiz. Dele, que tinha a fama (e o proveito) de gritar, nunca ouvi uma palavra de desagrado. Para quem lidava com um grupo de jornalistas “séniores”, donde se ouviam tiradas do género “não posso ir a esse serviço porque tenho um sapato a magoar-me um pé” e o veterano do meu lado recusava emprestar-me a tesoura para cortar os telexes da Lusa, acho que o Acácio fazia o que era preciso. Por trás daquela figura aparentemente austera austera que depois das 11 da manhã deixava a abanar durante longo tempo as portas de molas que separaravam a Chefia da sala da Redacção, de cada vez que lá passava, era um homem de uma generosidade enorme, afectuoso. Recordo-me de ele dar beijos na careca do saudoso e também já desaparecido Armando Silva Marta, que tive o prazer de ter sentado na secretária frente à minha e a quem não era preciso pedir a tesoura… O Acácio fazia o que tinha que ser feito. Também o ouvi dizer por telefone ao então administrador do Popular, um coveiro reputadissimo como se corfirmou, “Você não me f…!” A criatura queria incluir em cima da hora uns anúncios que alteravam por completo o plano do jornal. Sinto-me sempre tolhido para adjectivar sobre quem gosto, o que me impede de acrescentar frases vazias de sentido. Para remate, realço um pormenor que só conheci depois da sua morte, através de um telex da Lusa: o Acácio fora eleito (isso mesmo!) por duas vezes consecutivas para Chefe de Redacção do Popular. Isso diz mais sobre o Acácio do que tudo o que se possa escrever. E sobre o que é ser jornalista a sério, que era e tão bem sabia ensinar a ser. Nunca lhe beijei a careca. Mas ele merecia.
António Martins Neves
Obrigado, António, pelo teu depoimento. Armando Silva Marta, outro nome de um camarada exemplar e bom jornalista também. Era uma troupe extraordinária, aquela.
…”(Vespertino é um jornal que sai à tarde, depois de almoço.)” Ora bolas e eu a pensar que saía de véspera…
Só para dizer que além do mais, o Acácio é a minha ou pelo menos uma das minhas referências. Simplesmente enquanto homem. Tive o privilégio de o conhecer era eu miudo e foi dos homens que melhor me ensinou a tornar-me um.É só um testemunho e felizmente tive oportunidade de lho dizer em vida. Sinto-me mais pobre.
Caro Paulo,
Tenho 80 anos mas ainda estou vivo! Vivo em Santiago do Cacém.
Depois do que o Paulo escreveu, o que posso dizer sobre o meu “chefe”?
Acabámos de teclar e confessei-lhe que fora a melhor prosa que lhe lera. E em 25 anos já lhe li muitas… Está lá tudo aquilo que eu gostaria de ter dito ao Acácio ainda em vida.
Quando cheguei ao “Popular” pela segunda vez e como ele pela porta grande (comecei a escrever nos jornais no DP como colaborador aos 18 anos…) o Acácio foi quem me deu a coragem de enfrentar uma redacção de monstros míticos do meu imaginário jornaslítico.
E quem, com a sua enorme imparcialidade perante os factos e as pessoas, me fez passar de reporter dos telefones a candidato a subchefe de redacção.
Era um homem com a coluna mais vertical que já conheci, a par do também já desaparecido Viriato Mourão, o meu “professor” dos jornais.
Terá sido o facto de ter sido tão influenciado por duas pessoas, cuja principal caracteristica foi a de terem sido jornalistas no seu sentido mais puro, que me fez abandonar a carreira? Muito provavelmente. Embora tenha continuado a escrever muitos anos depois de ter abandonado o “Popular” com a saída do Acácio para o “Lisboa”, antevendo a morte anunciada do “meu” jornal, o certo é que pouco tempo depois entreguei a carteira profissional e com ela as ilusões daquilo que todos os jornalistas deviam ser.
Por ironia do destino continuo a viver nos Media, mas refugiado de um mundo onde aquilo que vivi quando o Acácio era meu chefe é um anacronismo.
E no qual me seria muito difícil vergar a espinha moldada pelo Acácio e outros.
Com ele como como chefe, vivi a altura mais feliz da minha vida. Acho que isso diz tudo. Gostava de lho ter dito. Não sei se há net depois da morte, assim, por via das dúvidas deixo aqui a minha confissão.
PS – Grande Colaço. Vivo e atento. Um grande abraço.