Lídia tem origem humilde. A vida não fora simpática com os seus antepassados por essa gleba fora. Nem com ela, agora que falo nisso: cresceu feia num meio sem polidez.
Parecia ter o destino traçado, como milhares de Lídias que aportam à capital, às capitais de todo o mundo. Na horizontal ou na vertical, o seu destino era servir.
Não se demorou na primeira mais do que o suficiente para aprender o caminho para a segunda — e nesta demorou-se mais tempo. Tempo de afectos, afectos que a compensavam de alguma forma pela intempérie das gerações anteriores. Uns de empréstimo, outros já nascidos da sua relação.
Mas Lídia queria mais que afectos. Lídia queria mais que servir. Lídia queria mais do que o destino aparentemente lhe reservara.
Lídia queria crescer.
Não sabia fazer, não tinha como crescer ali, tinha de romper e procurar outro ar.
Um dia simplesmente foi. Sem olhar para trás.
Há pessoas a quem a vida maltrata de todas as formas que consegue imaginar (e são milhentas) e continuam assim, a querer apenas crescer. Por vezes, e para algumas pessoas, abre-se uma clareira de luz nesse percurso cinzento. Lídia teve a sua clareira de luz.
Um dia destes, Lídia deu notícias de uma forma inesperada. Já tem computador e conta de correio. Lê blogues e escolhe os blogues que sempre quisera ler, mas não tinha como. Lídia não perseguia o dinheiro (embora dele muito precisasse), Lídia não perseguia subir na vida (embora o pudesse), Lídia queria saborear tanto quanto conseguisse (e sabia que nunca poderia muito) a instrução que nunca pudera ter e ver com os seus próprios olhos uma dimensão do mundo que só conhecera nos olhos das outras mulheres.
Lídia sacrificou(-se) muito a esse seu desejo de crescimento — sacrificou coisas que não mereciam ser deixadas no caminho. Mas às vezes é assim que tem de ser.
A gratidão tem caminhos estranhos para se demonstrar. E é aqui que acaba esta história.
- O amor é uma vida dentro da vida
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