
Enquanto escrevo decorre a contagem de votos no PSD, que apresentará daqui a minutos — provavelmente já apresentou quando o leitor me lê — um novo presidente. Que venha e melhore o partido e faço votos para que não o trucidem, não desejo o mal de ninguém, mas não é dele que quero falar. É da direcção cessante.
O consulado de Manuela Ferreira Leite representou um desastre ao pior nível do PSD. A contabilidade é fácil de fazer.
Ao nível do discurso, apresentou sistematicamente narrativas negativas, sobrecarregadas de ódio, com semânticas negras.
Ao nível das ideias políticas, foi um consulado dominado pelo ataque ad hominem: pouco mais se viu do que um trabalho de minas & armadilhas às pessoas do executivo, com José Sócrates omnipresente no mira das bazucas. Tirando a habilidade temperada de José Pedro Aguiar-Branco no Parlamento, as imagens que ficam são as imagens da crispação e rigidez da presidente a dizer que não fosse ao que fosse e a de Paulo Rangel a por-se em bicos de pés para, esganiçado e afobado, brandir o dedo contra José Sócrates.
Foi uma direcção fixada na pessoa do Primeiro Ministro e incapaz de mostrar ao eleitorado uma alternativa que fosse: de ideias, de pessoas, de soluções.
Ao nível dos combates políticos, a direcção de Manuela Ferreira Leite fica na história por ter perdido para o partido uma oportunidade única, a once in a life time chance: as Legislativas de 2009, onde o Partido Socialista entrou completamente a medo, a meio gás, com Sócrates e pouco mais a empenhar-se na campanha, com o governo completamente desgastado dos 2 combates travados — contra o descalabro financeiro mundial e contra a obsessão das capas de jornais de papel e televisivos pelo Primeiro Ministro.
Esta direcção foi um desastre. Convenceu-se que a vitória de Paulo Rangel nas Europeias tinha alguma consistência e apostou — mal — que o discurso do não e do bota abaixo era o que o país queria.
Como se algum discurso pela negativa ganhasse eleições.
Nem mesmo levado ao colo por 2 das 3 televisões e pelos principais jornais, autores de uma extraordinária benevolência que teve eco na (ou foi reflexo da?) blogosfera dominante, que é a laranja, “aquele” PSD foi capaz de ganhar a maratona eleitoral de 2009. A lebre Rangel fez o melhor tempo no primeiro terço da prova e puff — acabou o gás ao próprio, que passa por Bruxelas incógnito, e as pernas ao resto da equipa, que empatou envergonhadamente (estou a ser benévolo) as autárquicas e na elaboração desastrada das listas para as legislativas comprometeu o resto da esperança que o eleitorado teria.
Claro que as fotografias na parede e os panegíricos no Povo Livre e seus satélites digitais branquearão propagandisticamente o consulado. Mas nas futuras conversas sobre A Situação em 2009/2010, quando alguém perguntar, mas com aquilo tão mau como é que o PSD não subiu ao poder?, alguém olhará em redor, a ver se não há (ex-)maoístas por perto, pigarreará — e dirá A Verdade.

Mas certamente que sim! é uma publicação de Paulo Querido, jornalista e consultor de comunicação. Também autor de livros, artigos e algum código. Na net desde 1989. (
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