Em quem deve votar, leitor
Há 12% de hipóteses, pelo menos, de o leitor, em juntando a essa as duas qualidades de português e eleitor, não saber ainda em quem deve votar no domingo.
Pois eu digo-lhe.
1. Vote no PS de José Sócrates. É a minha escolha. Tenho a convicção que o homem aguentou o mais difícil barco em que vi governantes portugueses metidos. Enfrentou duas tempestades avassaladoras e globais e o barco, ainda que adornado e a precisar de pinturas e até umas ripas novas no casco, está a navegar. Acho de elementar justiça dar-lhe agora a oportunidade da sequência, ou da desforra contra as contrariedades da crise imprevista.
Uma das tempestades aliás não terminou. A crise do emprego — digam os marialvas à direita e à esquerda o que muito bem lhes apetecer — não terminou. Não tinha nada a ver, sequer, com a crise financeira (que é a minha forma educada de apelidar o roubo desorganizado à escala mundial a que assistimos nos últimos 20 ou 30 anos). O emprego vai continuar a faltar e nenhum político, de verdade ou de brincadeira, pode em consciência prometer acabar com ele ou, sequer, diminuí-lo nos próximos meses largos. É mentira.
E vai continuar a faltar porque o problema do emprego é a mudança de paradigma económico operada numa escala global. A alta mecanização do trabalho empurrou os filhos dos operários para os serviços, agora a alta tecnologia informática e de comunicações entrega nas mãos dos próprios consumidores o grosso do trabalho que ainda existia em grandes empregadores do terciário.
A pouca mão de obra necessária para os acabamentos das indústrias perenes é — graças à globalização de comunicações, cultural e de procedimentos — deslocalizada para os países onde o trabalho é mais barato.
2. Evite votar no PSD. Não sei com rigor onde está o futuro e tenho esperança que José Sócrates saiba sobre isso muito mais que eu — mas tenho a certeza que a “outra senhora” (o melhor soundbyte da campanha, honra a João Soares) sabe ainda menos. Pior: mostra-se convencida que o mundo é o mesmo mundo do cavaquismo, do betão e de Dias Loureiro, antes da crise financeira, da globalização e do 9/11 e a mensagem da sua fatia do PSD é uma mensagem sombria, desinspirada, rugosa.
Ah, mas Sócrates deu umas pistas sobre as direcções. Certas, entenda-se. A busca das energias que substituirão um petróleo cada vez mais caro e disputado. O choque tecnológico primário no ensino básico, tão importante que resistiu às pressões de gozo permanente em que a direita retrógada — acolitada pelos meninos do liberal coro que, na rarefacção académica que subsiste, passam por intelectuais de elite — tentou encapsular o que cedo lhe cheirou a sucesso popular. As vias de comunicação inteligentes, lógicas, racionais e estruturantes: falo dos comboios, e dos de alta velocidade em particular.
O homem não tem de fazer tudo. O país — o que o país tem de melhor, que é você –também tem de trabalhar. José Sócrates trabalhou que nem um mouro. Convinha pegarmos por aí, em vez de promover ao poder as redes que desesperam por voltar aos salões. Pegarmos na ponta do essencial trabalho e continuá-lo, com as correcções necessárias.
3. Vote no CDS-PP. Ora, a actual facção do PSD em exercício pouco mais fez, enquanto oposição, do que debicar nos casos que uma sociedade civil que começa a ter voz decidiu levantar, ainda que um pouco intoxicada com o seu próprio poder recente, proporcionado pelo acesso barato e fácil a meios de produção de opinião e informação.
No Parlamento — a casa da Democracia, visitada com periodicidade quinzenal pelos ministros do PS, num esforço de entendimento que um governo de maioria absoluta bem podia considerar supérfluo — os ferozes adversários do Primeiro Ministro foram… os outros. O Bloco, o PCP, Os Verdes. O CDS-PP.
Assim, caro leitor indeciso (ou mesmo decidido, mas ainda aberto a uma segunda opinião), se de todo em todo não consegue, mesmo, votar por uma segunda mão desta eliminatória em que o PS venceu o jogo fora, e se é conservador irredutível, então tem o CDS-PP. Note: o médico proibiu-me de alguma vez eu recomendar o voto num partido assim. Corro um grave risco de saúde ao fazê-lo. Mas por outro lado a minha democrática consciência força-me a indicar o melhor voto alternativo à direita do PS.
4. Vote no MEP. Ou por outra, os votos alternativos por ali na área do centro bem educado, lido e viajado, que — mais Estado, mais privado — tem ideias sempre úteis à governação. Se quiser juntar o atrevimento, deixe lá as velharias do centro-direita, ajude o MEP a enfiar dois deputados no Parlamento. São caras novas, o que é sempre bom, e Rui Marques não é um para-quedista nem um “líder” a aproveitar o momento quadrienal. Já tem alguma obra no serviço público e muito traquejo.
5. Vote no BE. Se, ao invés, o leitor indeciso é mais de esquerda, ou não sabendo nem respondendo também acha que os betinhos do CDS-PP não são grande coisa, e, repito, tem um dos raros e gravíssimos impedimentos a meter a cruz no quadradinho do PS (onde verá apenas e só o rosto de Sócrates), então, amigo, camarada, pá, vota no Bloco de Esquerda. Um bom retórico dá sempre jeito no Parlamento, sobretudo um que, como Louçã, tem coragem (e currículo académico) para enfrentar qualquer ministro dos dinheiros.
6. Vote na CDU. Sabe, estou um pouco cansado de ver os portugueses, e até eu próprio, até não há muito tempo, ignorarem Os Verdes. Bem sei que foram eles que escolheram coligar-se e aceitam pagar o preço de serem vistos como secundários do PCP. Mas são uns deputados incansáveis e atentos.
E também estou cansado da arrogância com que alguns tratam o PC e os comunistas. Caramba, que faz um homem quando o seu ideal se desfaz? Pois. Reinventa-se. Arruma os cacos e parte para outra. Não tenho nenhum tipo de medo do PCP e nem quando me contavam, criança, histórias de papões eu acreditava, quanto mais nos papões comunistas. Há nesse partido toda uma história de combate pela liberdade e pelos mais fracos, a que se soma a atenção ao lado humanista que (digo eu, convicto) deve caracterizar qualquer sociedade civilizada, moderna ou antiga. Sejamos honestos. Esqueletos no armário da ideologia, todos os partidos os têm, e a contabilidade de mortos é uma morbidez a colocar de lado com carácter de urgência.
Se és de esquerda pura (ou até da direita desiludida com o regresso dos antigos e o triunfo dos jovens betos), e não és, de todo em todo, capaz de votar no PS, e achas que o Bloco já tem mais do que merece, ora aí está um valor seguro: a CDU.
Se nenhuma das anteriores 5 recomendações e uma indicação muito clara o convenceu, leitor amigo, dispõe ainda dos outros partidos. Recomendo o MMS (são divertidos) e o MRPP (Garcia Pereira é um senhor). O PND também é opção (eu tenho de dizer isto a favor de um cliente
alojo o site do partido).
Mas até domingo pense nisto. Pense que, mesmo que não esteja satisfeito com os resultados deste governo, a oposição não fez bem ao PSD, que em vez de se renovar recuou à era pré-barrosista (sendo esta a sua natural evolução para o século em que já vivemos e vamos continuar). E que José Sócrates tem direito a uma oportunidade de mostrar o que vale num ambiente menos sufocante do que estes dois anos da tourada em que os financeiros inimputáveis nos bandarilharam a todos.
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Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (
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[...] This post was mentioned on Twitter by João Hartley, F_Antunes and Filipe Nascimento. Filipe Nascimento said: lol RT @inesturika: Qual é a parte de só podemos por1cruzinha n boletim d voto q #pq n entendeu? LOL estou a brincar #pq http://bit.ly/eWbXX [...]
«“outra senhora” (o melhor soundbyte da campanha,»
Importa lá o mau gosto.
A abstenção é o voto certo nesta democracia monárquica.
Ou então é ouvir hiphop de intervenção.
Eu faço as duas, só para parecer bem à vista.
Rui
E esqueceste-te de falar no PNR: Vote PNR se o seu vizinho põe Kizomba a tocar alto até às tantas da madrugada ou se ele bate na sua mulher que fica em casa com o subsídio do estado e sete filhos.
LOL.
Rui
Eu pelo contrário acho o MEP assim tipo um insecto chato, insuportável. O centrão no seu pior só a pedir consensos e consensos e sem quaisquer propostas que não as reconduzíveis ao lobby social-católico.
quer-se dizer, assim de repente que me lembre só não se deve votar no PNR (dos skins), naquele do Atlântico e naquele partido que dantes foi do Sá Carneiro e do Mota Pinto…
ah, já me esquecia, o que é que V. tem contra a Carmelinda Pereira? Cheira-me que o PQ é da facção Aires Rodrigues, é o que é
só tu, para me fazeres rir. És um talento perdido, no estilo non-sense. (estou a falar a sério).
alias, um talento subestimado, queria eu dizer
jpt, erm… tb não gosto do PNR, ao menos o PND parece mais educado (e há lá boas pessoas, como o nosso estimado João Carvalho Fernandes). Do Atlântico nãlo liguei muito, no idea, e esse que está a falar, é o PSD? Sim… E sei que um dia voltarão a ser boa oposição e mesmo governo.
Nada contra Carmelinda (e outros). Não me lembrei — nem estou obrigado a quotas pela ERC.
Subscrevo (quase) na íntegra o teu texto, Paulo.
Bem desarrincado.
Não sou PS – mas voto também Sócrates.
jpt, erm… tb não gosto do PNR, ao menos o PND parece mais educado (e há lá boas pessoas, como o nosso estimado João Carvalho Fernandes). Do Atlântico nãlo liguei muito, no idea, e esse que está a falar, é o PSD? Sim… E sei que um dia voltarão a ser boa oposição e mesmo governo.
Não vou votar no PS, muito por causa do líder.
Mas aceito e concordo em grande parte com o (excelente) texto.
Só tenho pena que não digas do BE o mesmo que dizes do PSD… Se o ponto-forte do Sócrates foi ter agido, o BE cai numa demagogia gritante e só espero que o PS não caia na tentação de uma coligação… Mil vezes a CDU!!
Já agora, e para contextualizar, estou indeciso entre votar CDS e votar MEP (as suas 2ª e 3ª escolhas)
Absolutamente de acordo com o seu belíssimo "textoeleitoral". Mas, na verdade, ao PS não se pode/deve deixar de exigir mais e melhor posicionamento à esquerda — presumo que é por isso que se denomina Partido Socialista — e foi por isso que obteve uma maioria absoluta e, talvez, possa vir a recolher uma nova maioria de votos. É, neste sentido, que se comenta ou critica ou condena a arrogância exibida. E os defeitos governativos. É isso que os seus eleitores exigem. A maior operacionalidade em áreas de governação de fácil realização de objectivos. Sem desperdícios. E, fundamentalmente, nas áreas da educação, saúde, cultura, segurança, turismo, desporto e agricultura. Ou não?
Caro Paulo,
Este seu texto tem grandes reflexos do que é a nossa classe jornalística: Vota PS porque gosta dos Soundbytes que lhes alimentam os jornais e os egos ou vota em qualquer extremo desde que lhe aloje sites.
Não quer o PSD porque actualmente é o único que lhe pode estragar o ramram em que se encontram, embora mais por ineficiência do que por mérito próprio. No fundo fazem a escolha parecer entre os que sabem parecer e os que não sabem. Como se isto fosse o cerne da questão.
Acrescento: Vote PS se acredita que os que construíram os estádios para fazer Portugal entrar na modernidade merecem crédito para hipotecar Portugal com o TGV.
Se licenciaturas ao Domingo garantem a exigência de ensino que Portugal e os Portugueses precisam.
Se Freeports com primos e APL com amigos nos dão mais que a certeza que grande parte dos nossos recursos não irá parar ao bolsos de quem se der bem com o Poder Político.
Se acha que governar em crise é passar meses em campanha.
Etc, Etc.
Se acha que isto tudo não tem mal, vote PS ou noutro qualquer, porque na realidade tanto faz.. Um voto nos outros é o mesmo que votar PS.
Nuno Pedrosa
Definitivamente evite votar no PS de José Sócrates, pelo menos evite dar-lhe uma maioria absoluta que um dia ainda virá a ser proibida pela constituição. Do que precisamos mesmo em Portugal é de uma ruptura que já lá vai quase uma vida nesta democraciazinha da treta, neste socialismo inexistente ou na pseudo-social-democracia.
Nada disso me serve; eu voto POUS, claro!
Caro Paulo a sua opinião é a que melhor se adapta ao estado presente da nação!
Votem na "esquerda" pois é a forma mais rápida de despoletar a revolução.
Segundo o que já ouvi, o PS do Soares e o PCP já estão a reactivar o plano do assalto e transporte do ouro do BP, não para Ingleterra ou Porto como inicialmente previsto mas agora para a Rússia. Se acontecer o que aconteceu na guerra civil espanhola, despoletada pelo governo com os mesmos intervenientes daqueles que estão a actuar em Portugal, os lotes de armas a serem enviados e pagos ao dobro ou triplo do preço real, já estão arrumados nas respectivas caixas de transporte.
Só que desta vez aqueles que contribuem com o seu trabalho, criando também milhares de postos de trabalho e impostos que pagam, mas não são representados por ninguém, também querem ser ouvidos quer queiram ou não os golpistas de esquerda devendo obediência aos seus patrões da Maçonaria.
Um pequeno pormenor: A "venda" da terra portuguesa de Cabo Verde e S. Tomé e Principe, tão nossa como a Madeira e Açores, a custo zero, se calhar teve uma razão de ser! Em caso de batatada têm um "porto de abrigo" entre os "camaradas" e um lugar seguro para guardar os poucos bens de que dispôem.