Se eu fosse Cavaco Silva, terminava o ano bastante mais zangado com o meu antigo(?) partido e com a minha antiga leal colaboradora, do que propriamente com o partido do Governo e o seu lídimo chefe.
Do PS, Cavaco não esperará nunca flores. Pode dar-se bem e estabelecer pactos com José Sócrates — mas nunca esperará dali nada. É um adversário declarado. Agora, ter sido abandonado pelo seu partido, para mais LIDERADO PELA SUA ANTIGA MINISTRA, eu, se fosse Cavaco, tinha ficado fulo da vida. Muito fulo da vida.
Os analistas de serviço já repetiram ad nauseum a “questão constitucional” e o “erro político”, ou “derrota”. Aguardo que falem das implicações deste aspecto, menos secundário do que parece, do dossiê Açores. É que o que estragou a “avaliação”, quando decidiu avançar pelo lado político da questão, não foi o PS. Foi o PSD. Cavaco podia imaginar confortavelmente que os socialistas podiam insistir no diploma e não emendar uma vírgula. Era um risco calculável e sem dúvida calculado. Cavaco não imaginou que o partido que liderou em duas maiorias absolutas lhe voltaria as costas, envergonhado e cabisbaixo.
O “erro político” é induzido pela base de apoio de Cavaco, não pelos seus adversários partidários. Um pormenor determinante porque um pormenor novo e que irrompe subitamente pelo centrão acima.
Se o PR e o PM estavam no mesmo barco por via da consolidação orçamental, agora caíram nos braços um do outro, empurrado Cavaco Silva pelo inexplicado comportamento do PSD no dossiê Açores. Podem ter os seus arrufos — civilizados, pragmáticos, de cavalheiros que não sendo da mesma família se vêem como companheiros pontuais de percurso. Mas estão nos braços um do outro. Antes um adversário leal que um aliado imprevisível e inconstante.
No ano eleitoral de 2009, Cavaco Silva entra com o pé esquerdo e vontade de desforra. E não contra Sócrates e o PS, que se comportaram (ainda que com a arrogância um pouco acima do esperado) dentro do quadro previsível. Medo, PSD. Medo.
- O amor é uma vida dentro da vida
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