Honestamente, caro leitor, um pequeno esforço de memória. A avaliar pelas notícias dadas pelos telejornais ao longo de 2007, diria que a apreensão de droga foi superior, inferior ou igual aos anos anteriores, nomeadamente 2006?
Quantas vezes tivemos o título “maior apreensão de droga de sempre” ao almoço e ao jantar?
Mas a verdade é que as polícias apreenderam em 2007 menos quantidade de drogas pesadas do que em 2006, diz o relatório oficial da Polícia Judiciária divulgado ontem (fonte: RTP).
A questão não é de somenos importância. Aliás, as questões. Mas não vou descer pela avenida do “combate” ao tráfico, que nunca passará de uma mistificação encenada e paga custe o que custar por quem dele lucra, tal é a taxa de retorno do negócio, vou concentrar-me na questão do jornalismo.
Este diferencial entre o fluxo diário de notícias, que é alimentado em grande parte pela indústria do press-release e da comunicação, e a realidade observada com distanciamento sempre existiu. Era para o analisar que dispunhamos, na Antiguidade Clássica do Jornalismo, das figuras da reportagem e da investigação: um jornalista ou grupo deles dispunha de um conjunto invulgar de tempo, recursos e protecção das chefias para espremer a espuma dos dias e os seus intervenientes e daí extrair informação com mais valor.
Com o gradual desaparecimento do tempo, dos recursos e da protecção das chefias aos jornalistas que podiam e sabiam esgravatar os diferenciais em busca de pepitas de informação, fomos empobrecendo o olhar e ficando reféns do jornalismo-ticker.
É lamentável que seja um press-release a vir desmentir o que o conjunto anterior de press-releases deu a entender ao longo do ano, pla imperiosa necessidade de fazermos um reality-check.
Não surpreende, portanto, que as investigações individuais publicadas depois nos blogs ocupem um espaço desmesurado (desmesurado dada a relatividade de investigações marcadamente biased) na atenção das audiências — algumas das quais especializadas e até do meio jornalístico, uma ironia amarga a que assisto com maior preocupação.
Eu não confio no “jornalismo do cidadão” (só o termo…) quando praticado por indivíduos com enquadramentos e ambições à vista. Com sais, lá engulo o amadorismo, com todos os seus defeitos e os problemas que levanta. Mas vou aprendendo a confiar em mecanismos de apropriação colectiva desses “tijolos” individuais. O crowdsourcing do noticiário — simplificando: a metainformação extraída da comunicação das massas amadoras em torno da informação que circula — é um dos mais interessantes conceitos que o futuro breve do jornalismo encerra, na minha opinião. Aliado a mecanismos de predição — em Portugal estamos a zero na matéria, mas nos EUA vários jornais exploram já esses sistemas embrionários, quase de brincadeira ainda, talvez fale disso num post em breve — terão um impacto forte na recolha e produção jornalísticas.
O noticiário crowdsourced é um produto da inteligência humana mais apurado do que os mecanismos primários do linking e do tagging — são o passo a seguir ao Technorati e ao del.icio.us. Não os substituem, note-se. Juntam-se na caixa de ferramentas do jornalista do século XXI. Na qual encontraremos tanto hardware (exemplo: kit para cenários inóspitos) como recursos instantâneos de baixo custo (exemplo: as fotografias a um dólar do iStockPhoto) como software (com vossa permissão, um exemplo que me é próximo: este analisador semântico, baseado em código aberto e que em breve cobrirá territórios de informação hoje inacessíveis).
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