A Mercearia Aliança merecia (a minha irmã Inês que me desculpe) 

Ouvi ao jantar, ali ao Fidalgo, no Bairro Alto, que a “tenebrosa” ASAE mandou fechar a Mercearia Aliança, no centro de Faro. E foi muito bem fechada, disse logo eu a atalhar caminho.
A minha irmã Inês gosta da mercearia e tem razões para a defender, já lá irei mais abaixo (este é um texto longo, intimista, pessoal, embora tratando-se de um tema com muita saída nos dias que andam, corra para outro lado o leitor apressado).

farobaixa.jpg
Foto da baixa farense, com o edifício do Hotel Faro proeminente; mesmo ao lado, escondida de vergonha atrás das palmeiras, está a Mercearia Aliança

Através do NesteMomento fui ler o elogio & contraponto, de Eduardo Pitta, que comenta com justeza e parcimónia as imagens que viu e reproduz elucidativamente as palavras de maradona, das quais respigo: “mas o supra sumo da essência do sublime da “tipicidade” da mercearia Aliança aconteceu há coisa de nove anos, quando o socio/empregado mais novo (talvez uns 89 anos ou assim) para me servir meio quilo de nozes encerou as mãos com o produto de duas cuspidelas” (link).
Nozes e frutos secos eram motivo para ir à Mercearia Aliança, ao lado do café com o mesmo nome — e que já fora visitado em Novembro, e bem encerrado, pela ASAE. Aliás, no café decorriam não só as tertúlias farenses como, de quinze em quinze dias, a bolsa informal dos produtos do barrocal e da serra, juntando-se ali os grandes proprietários e os abastados que desciam de Santa Bárbara de Nexe, Loulé, São Brás do Alportel, e assim.
Isto é o que eu sei, e sei dos anos 50-60, mas antes essa âncora do comércio na cidade que me viu nascer já era afamada, como evoca no DN a jornalista da Lusa Paula Martinheiro.
O sócio que podem ver na fotografia do DN é muito provavelmente o mesmo que horrorizou maradona e é o mesmo a quem vi esbranquiçar o cabelo ao longo dos últimos 42 anos, sempre atrás do balcão da Mercearia Aliança, encostado à ombreira ou sentado numa cadeira da esplanada que volta e meia se estende do Café Aliança para o largo pedonal que já foi artéria com macadame e grande movimento.

Este sócio era moço como todos os outros que ali trabalhavam em correria constante o dia todo. Faz parte das minhas memórias de infância: foi ele quem me cortou e embalou vezes sem conta os sacramentais 125 gramas de fiambre que eu ia lá comprar diariamente (fresquinho mais fresquinho não podia) para ensanduichar no meu lanche de quatro papo-secos e um livro dos Cinco. O truque do cuspo, nunca lho vi, deve ser tique de velhice.
Às vezes a dose era maior: 250 gramas bem servidos, porque algum camone tinha encomendado cataplana na Adega dos Arcos — durante todos os anos 60 e parte de 70 a rivalidade das melhores cataplanas na cidade era entre nós e a Arcádia, o restaurante ao lado. A minha parte consistia no recado, ir buscar o fiambre (o presunto emporca a cataplana, o sabor intenso aniquila o perfume do mar e arrasa a frescura do bicho, chouriço pior, é considerado crime) à Mercearia Aliança, quando não ia à do senhor Guerreiro, outra mercearia mais perto e igualmente boa em quase tudo, mas com menos produtos, menos nome e com o azar de ficar numa rua lateral.

foto mercearia alianca
Interior da mercearia – os antigos armários de madeira, fotografados em 7 de outubro de 2006 por Farófias (original maior no Flickr)

Outro recado ligado às cataplanas, e o início da minha relação com a Ria Formosa, cumpria-o com alegria apesar do custo em esforço: garrafão de cinco litros bem lavado (a ASAE não me pegaria, garanto, porque era eu quem o lavava em tantas águas que a cozinheira até abanava a cabeça de eu ser um gastador) ia buscar água do mar, fresquinha, ali à doca (não era a “marina”, como hoje lhe chamam, mas simplesmente a doca), para as ameijoas vindas por regra da praça de Olhão, a melhor do Algarve para o peixe & mariscos (e metade dela, a metade da carne e legumes, hoje ia dentro com a ASAE), onde o Peugeot 403 ia a meio da manhã, quase sempre pela segunda vez.
À doçaria, por esses tempos, eu não ligava. Só mais tarde, rapaz a sorver o mundo, percebi a sua fama. Chegados ao Natal, o meu Pai comprava religiosamente um ou dois desses “peixes” de amêndoa que vinham numa caixinha de cartão deliciosa, com papel bordado, um mimo, custavam à unidade, se bem me lembro, 150 mérreis (0,75 euro, já que pergunta) e 378 quilómetros e dois ou três dias depois rendiam um conto, dois contos, em cada licitação no leilão da paróquia — lembro-me de um ano em que a doçaria ida comigo no banco de trás deu à quermesse quase oito contos de réis.
(Para quem nunca viu um leilão do género: é frequente os items serem de novo ofertados para novo acto leiloeiro, sendo possível avaliar a importância social de um ofertante através de uma complicada equação que envolve a quantidade de vezes que os seus items são devolvidos depois de pagos — algumas vezes pelo próprio directamente ou por um familiar para tal instruído ou não — e a verba que arrecadam para a quermesse.)
O meu Pai exultava, vaidoso. De alguma forma aquele sucesso justificava perante os seus conterrâneos a emigração interna.
O meu Pai — pensem o que pensarem — foi um homem bem sucedido na vida. Da junta de bois à universidade de uma geração para a outra, não é para qualquer um, não é comum. Qualquer casal, já agora: não fora a obstinação quase inumana da minha Mãe, o rochedo, e não estava aqui ninguém.

foto mercearia alianca
Interior da mercearia, fotografado em 7 de outubro de 2006 por Farófias (original maior no Flickr)

Voltando às amêndoas doces: de há uma década para cá, talvez, a Mercearia Aliança acentuou a decadência. O mariola que enquanto esperava pelo fiambre pensava surripiar uma noz e nunca o fez porque não era coisa dele, chega lá nos noventas e ainda traz doces e chega lá no século XXI e sai sem sequer um gelado industrial, garantido.
A minha irmã Inês continua a comprar lá doces, tanto quanto sei. A obstinação, não foi para ela que passou (a nossa mais velha é a herdeira natural), deixem-me contar que a Inês gosta de se sentir ligada a um fio, ao contínuo histórico, e perdoa porque aqueles olhos viram tanta coisa e sabem que se cuida da alma diferentemente do corpo. É uma bondosa (ela sim, meu amor, não eu). A minha irmã quer cuidar — também — da alma de Faro.
Eu — sim, sei da diferença de tratamentos (e adoro-te irmã que me deste a palavra) mas eu sinto menos as coisas, sou mais ríspido, sou — como Ela — de levantar a voz na missa e vai tudo de corrida, refiro-me às emoções.
Escura, desmazelada, cheirosa, amontoadas as indistintas formas que aqui e ali preferimos não investigar, paredes devolutas, decadente, velha, bafienta, suja — estas são os matizes da imagem triste que hoje tenho da Mercearia Aliança.
Também por isso, aplaudo a ASAE. O típico, o histórico e as questões da alma têm importância, mas não devem servir de justificativo para o desleixo e pior.
( E a Mercearia Aliança merece voltar a ser mais do que tem sido. )

Publicado por Paulo Querido in Sem categoria. Bookmark permalink.



Discussion