Por todo o lado é o que se sabe: pujança criativa completa, grande entusiasmo, discussões e conversas activas e interessantes, novas funcionalidades, cada vez mais leitores, cada vez melhores autores, afinação das ferramentas e dos instrumentos.
Excepto por cá, naturalmente.
A blogosfera portuguesa definha.
Dois anos depois os “históricos” continuam no mesmo sítio a escrever as mesmas coisas para os mesmos leitores usando os mesmos modelos.
Há correntes novas, evidentemente, e que vão lentamente ocupando o espaço. Como sabemos, é muito mais difícil construir uma rede hoje do que nos anos dourados de 2003 a 2005, quando bastava abrir um blogue e informar os amigos: saltavam os links e as boas vindas e o entusiasmo pela leitura. Hoje a atenção tem um preço e ninguém puxa da carteira. Os históricos até já entre si evitam contactos — não vão estar a “dar tráfego”.
Isto vem a propósito de ter passeado os olhos e o rato um pouco pela blogosfera espanhola. Que diferença!
Começa na atitude dos históricos do outro lado da fronteira; continuam a aderir, continuam na crista da modernidade, continuam a aumentar as suas audiências, mesmo sem terem acesso ao ecran da televisão e aos jornais.
Arriscam.
Continua com o interesse geral. Em Portugal acabaram-se as notícias sobre a blogosfera. Os 10 ou 20 blogues do costume aparecem nas colunas de citações e contam as notícias que, dizem, o jornalista foi beber aos respectivos blogues.
Pois não sei. Sem instrumentos, temos de acreditar na palavra deles. Pois não sei. Convém, aliás, que a coisa continue como está, os blogómetros na idade da pedra lascada e os segredos guardados pelos monges.
Em Espanha, não. O interesse da sociedade pelo fenómeno é grande. Desde a investigação (cá, o único sector que ainda liga aos blogues) às empresas, multiplicam-se as iniciativas, os encontros, os eventos.
Estou a pensar ir a Sevilha em Novembro, ao Evento Blog España. Não é, sequer, o principal ou o mais estimulante dos eventos do ano, mas é perto da fronteira. E cá deste lado é o deserto: há quanto tempo não temos um encontro, um congresso, uma exposição, um evento qualquer que ele seja, relacionado com a web de hoje e os desafios para a democracia e para a sociedade?
Quem me chamou a atenção para esta depressão em que a blogosfera lusa está mergulhada foi o Benjamin Junior, do Obvious. Referia-se não aos eventos espanhóis, mas aos brasileiros. A blogosfera brasileira conhece um período de grande actividade e muita criatividade. Tem hordas de arraia miúda, é evidente, mas tem um bom quinhão de entusiastas dispostos a aprender a fazer as coisas bem feitas.
Cá na terra? Ora, cá na santa terrinha todos somos craques e ninguém precisa de aprender nada, muito menos com os “técnicos” de “informática” — como se a blogosfera fosse uma coisa de técnicos e relacionada com a informática. (É como dizer que os livros são uma coisa de tipógrafos — uma estupidez).
Não é.
A blogosfera é acerca das pessoas (grupo que por acaso inclui o sub grupo dos técnicos de informática e também o dos tipógrafos) comunicarem entre si as suas vontades — e fazem-no de todas as maneiras que encontrem, num surto de criação e expressividade jamais visto em qualquer período da história do homem (e se os egípcios eram bons!).
A blogosfera?
Não toda: num minúsculo rectângulo da Europa uma tribo resiste.
Bem, vou deixar-me de sermões aos peixinhos, pobres coitados sem ouvidos, e regressar ao bash.
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