A diferença entre
O maradona desvalorizou o trabalho infantil, esse tema «acessório», informando-nos que ele próprio trabalhou que nem um moiro e, como putativamente A Causa Foi Modificada provará à saciedade, não se perdeu nada com isso: «para aí dos meus 12 aos meus 15 aninhos», escreveu num daqueles posts que depois apaga (do seu blog: eles ficam por aí, nos arquivos da rede, nada do que atiramos para ela se perde, desiludam-se), «tinha por hábito ir à ameijoa na Ria Formosa (Ameijoa Boa 900 escudos o quilo; Ameijoa Cão 300 escudos o quilo) acompanhado por meia duzia de gandulos sem pais nem mães. Para mim a coisa servia para emagrecer, para esses meus companheiros servia para comerem, calçar e vestir (e gozarem comigo)».
Bem sei que maradona, dezenas de pessoas muuuito blasés como ele, e centenas de outros insalubres intelectuais e similares são incapazes de a ver mas há uma diferença entre trabalho infantil praticado com gosto (ou motivo) pelo infante e trabalho infantil praticado à força (ou por necessidade vital) pelo infante. E do que se fala quando se fala, nas notícias, de trabalho infantil é deste último. Do que não devia existir.
Se sou capaz de entender fechar os olhos à exploração do trabalho em países fustigados onde sem essa alternativa a vida das populações seria ainda pior (como se ser explorado fosse um devir histórico, como certas direitas e proto-direitas parecem afirmar implicita quando não explicitamente), não sou capaz de ficar impávido perante os acontecimentos revelados na última edição do Expresso. O problema, como é óbvio, não está na Zara, mas sim no sistema que permite ilibar as zaras, filtrando e diluindo as reponsabilidades numa cadeia de valor roubado que até tem o devido selo legalizador.
Eu trabalhei desde que me conheço. Com gosto e recompensa. Foi com pequenos trabalhos diários de auxílio que tive aquilo que se pode chamar de “semanada”, foi a vergar a mola duas semanas a escavar as ruínas do Milreu que comprei a flauta transversal dos meus sonhos, mentindo quanto à idade porque não aceitavam abaixo dos 16 anos (se bem me recordo), a servir à mesa e ao balcão pude ter a minha sonhada aparelhagem e a motorizada saiu-me de umas férias de Verão a ir à praia nos intervalos, em vez de sensatamente fazer do bronzeado flirt dunar a ocupação principal. E, embora nunca o tenha feito com um parvalhão de um bucha queque que não precisava de bóia, apanhei ameijoa (boa e de cão), conquilha e berbigão na Ria Formosa. Ah, também explorei selvaticamente os vícios alheios enchendo (num jogo) as máquinas de flippers com bónus, que vendia por cinco escudos para poder comprar tabaco (uma vez até cobraram pelo espectáculo que eu e o Salústio dávamos a jogar e a fazer estalar as máquinas até ao limite dos 20 bónus, quantas vezes com a primeira bola – vendendo também as restantes). Esta é a minha coroa de glória, mas aí eu já tinha 14 ou 15 anos e de infantil, só a virgindade.
Nunca me passou ou passará pela cabeça confundir as minhas actividades (e as de maradona) com trabalho infantil. Claro que é trabalho, claro que eu era infantil – mas a minha vida, as nossas vidas, caro maradona, não dependiam desse “esforço”. Não vivíamos em condições miseráveis, não fomos obrigados a cumprir horários esclavagistas, não fomos espancados nem torturados por um pai bêbado ou um patrão sádico por (não) trabalhar, não tivemos de apanhar a ameijoa para dar de comer à família (como centenas de miúdos na mesma Ria Formosa, alguns ao nosso lado), tínhamos alternativas, famílias que nos amparavam e vigiavam, podíamos estar a fazer outra coisa, caro maradona, fazíamos por escolha. Ou por desporto, no seu flácido caso.
Uma coisa é ver um miúdo de 11 anos a servir cafés numa esplanada de Verão, até se lhe dá uma gorjeta boa e uma palmada nas costas porque se entende que está a ganhar uns trocos nas férias por um motivo lá dele, e admira-se-lhe o empreendedorismo enquanto os colegas andam a gastar solas a jogar à inútil bola (“este miúdo vai longe”), outra coisa bastante diferente é ver um miúdo de 11 anos cuja única alternativa na vida é coser sapatos a 40 cêntimos o par sete ou oito ou nove ou dez horas por dia, seis dias por semana.
O neo-realismo dos Esteiros já passou de moda, o que a mim tanto se me dá. Importa é que o país de hoje não é, felizmente, o mesmo de Soeiro Pereira Gomes e de Portugal e da Europa do entre guerras. Evoluímos. Temos menos trabalho infantil, menos mortalidade infantil. Mas que as “conquistas” da sociedade de consumo não o ceguem, caro maradona: tire as lentes de classe (ou origem), olhe de frente e verá a diferença entre.
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Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (
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