Clipping de blogues no DN: um esclarecimento e algumas observações

Saiu hoje no Diário de Notícias uma peça sobre clipping nos blogues para a qual fui ouvido. As minhas declarações foram reproduzidas com fidelidade, não pretendo queixar-me. Mas devo situar em contexto algo que os autores compreensivelmente não podiam fazer no espaço finito de que dispunham. E fazer a propósito algumas observações.
A frase que pode gerar confusões é esta:
«Os bloguistas concordam e até aplaudem o clipping dos artigos por si escritos. “Não há direitos de autor na blogosfera”, refere Paulo Querido, jornalista e blogueiro. O próprio assumiu ao DN que faz clipping de blogues. Também o jurista João Gonçalves, do blogue Portugal dos Pequeninos, manifestou agrado pela entrada dos blogues no clipping, “porque é uma forma de dar publicidade à blogosfera”, e insistiu na ideia de que “não existe violação de direitos de autor porque o que se escreve na blogosfera é público” (fonte).
Sendo fiel, a frase fazia parte de um conjunto, naturalmente omitido, e está inserida num período que tem o potencial de me classificar numa zona onde eu não pretendo ser classificado.
A sequência das frases poderá levar um leitor ao equívoco, mas eu não aplaudo a actividade comercial do clipping dos meus artigos, nem dos de autores cujos direitos estejam salvaguardados. Respondi a uma pergunta concreta sobre se havia ou não violação de direitos de autor, reportando-se o diálogo a um contexto mais amplo, dentro da blogosfera. O que eu disse na totalidade foi algo como isto: é complicado verificar a quem pertencem direitos uma vez que a esmagadora maioria dos conteúdos inseridos em blogues são por seu turno cópias descaradas, e muitas vezes ilegais, de conteúdos dos media e de outros blogues. O jornalista sintetizou o que tinha de usar no âmbito do seu artigo e eu concordo com a síntese, apenas deixo aqui uma explicação aprofundada.
Mais adiante, a assunção de que faço clipping careceu da explicação: faço-o para uso pessoal com os meus próprios meios (que de resto estão ao alcance de qualquer pessoa, o clipping comercial na blogosfera só pode funcionar para quem não tenha uma ligação à Internet ou prefira um serviço em pacote), não recorro a empresas.
Longe de mim quero contrariar a ideia de João Gonçalves sobre a “forma de dar publicidade à blogosfera”. Mas as suas declarações, sendo jurista, surpreenderam-me (também reproduzidas em contexto, digamos, espartilhado?). O que se escreve na blogosfera é público tanto quanto o que se diz na rádio e o que se escreve nos jornais e o que reproduz na televisão. “Estar” no espaço público, ser publicado, não é, do ponto de vista jurídico, igual a ser público. Públicos são, por exemplo, os conteúdos do Diário da República, bem como os documentos oficiais. Sujeitos a direitos são, por exemplo, os programas da Floribella2.
Os meus posts não são públicos: são privados e sujeitos a regras de reprodução (uma licença Creative Communs, válida em Portugal). Ao abrigo desta licença eu poderia (notar tempo verbal) processar a empresa que diz fazer o clipping dos blogues, se acaso o meu fosse incluído nos seus serviços. A licença que me protege é bem específica a impedir a utilização para fins comerciais do que aqui publico. Tenciono contactar a empresa no sentido de apurar se estou no rastreio, para negociar um fee. Porque, ao contrário do que afirma na peça do DN Pacheco Mendes não há vazio legal nesta matéria. Como se assumiu disponível para «pagar o que for necessário» quando a actividade for regulamentada, espero chegar a um acordo rápido — se houver violação, uma vez que há citações que podem ser feitas legalmente — pois a actividade não é uma actividade do far-west.

Sugestões aos potenciais interessados em clipping de blogues
Depois destes esclarecimentos, sugiro aos potenciais interessados em clipping de blogues algumas alternativas gratuitas e eventualmente mais poderosas (digo eventualmente pois não conheço o software “próprio” da Cision).
Para uso geral, extraordinariamente potente: o Google. Tanto o motor de pesquisa como os chamados alertas (foi, aliás, com um destes alerta que soube quando saiu a peça do DN, que só compro ocasionalmente e cujo site frequento apenas quando é necessário).
Para uso mais dirigido à blogosfera, o Blogsearch também da Google, Inc. Tem a vantagem de apanhar praticamente todos os blogues em língua portuguesa, com uma malha fina. Grandes desvantagens: é total e irremediavelmente cego quanto às diferenças de relevância desses blogues; dá primazia aos blogues do Blogspot, podendo apresentar os outros com algum atraso.
Nota: estas desvantagens são a razão pela qual não recomendo a utilização do motor nacional Sapo. Se a primeira é de solução irracional do ponto de vista de uma grande empresa como o Google ou, à escala portuguesa, a PTM, a segunda não; já perguntei aos responsáveis e não me deram garantia sobre o tempo de rastreio de blogues fora do seu próprio serviço de alojamento — uma atitude de resto consentânea com a marca da empresa, que fecha parte dos seus conteúdos a quem não seja seu cliente.
Para uso ainda mais específico, recomendo a ferramenta que mais vezes utilizo, com um disclaimer: tenho interesses no Blogservatório, que foi programado por mim. Tem as desvantagens de rastrear menos de meio milhar de blogues e de a pesquisa ser um pouco limitada (eu não sou programador profissional). A grande vantagem: as fontes estão à partida seleccionadas e correspondem, grosso modo, aos blogues com maior relevância no contexto português (não surgem brasileiros, o que deste ponto de vista é uma grande vantagem, poupando tempo). Por outro lado, e tal como o Google, apresenta, ainda que de forma limitada, resultados também da imprensa e das televisões.

Nota final: a questão do clipping é muito antiga. Os jornais não gostam das empresas de clipping (odeiam seria palavra eventualmente mais indicada) e toleram a actividade sobretudo porque nunca lhes ocorreu investir o necessário para a realizarem por si próprios. Por vezes fala-se em essas empresas pagarem royalties. Mas nunca se passou disso. A actividade de clipping dos media, sendo imprescindivel e legítima, carece de um enquadramento que relacione de forma justa os produtores das notícias com quem as usa directamente para o seu próprio lucro. Como me ensinou um velho camarada há mais de um quarto de século, quem quer arte paga ao Mozart. E — admitindo que haja exepções, pois que não conheço todo o mercado, no geral as empresas de clipping não pagam. É injusto.

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mini fotografia paulo querido Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (Mais)

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