Como se mente, intoxica e manipula a opinião pública 

Às vezes pergunto-me se as pessoas que tomam todos os outros por tolos o fazem consciente e deliberadamente. Ou se é estupidamente em nome de quem lhes paga. Ou se acreditam de facto na mensagem que estão a transmitir.
Agora, reparem neste comentário de Marco Santos, ouvido pelo tek.sapo na sua qualidade de, cito, “responsável pela estratégia de plataformas da Microsoft Portugal” (diz-se que em Redmond, na sede da empresa, não se toma uma decisão sobre as plataformas da Microsoft sem telefonar primeiro a Marco Santos e é sabido que a estratégia de plataformas da Microsoft Portugal é fundamental para… bem, agora escapa-me mas estou certo que todos sabem a que me refiro):

O facto da Microsoft abrir este formato é um avanço imenso. Existem biliões de documentos do Office criados em todo o mundo e era necessário assegurar que no futuro se podia continuar a abrir e ler esses documentos“.
Leio e releio a frase e não me decido: mentira deliberada, zelo profissional ou insana credulidade? Talvez as três, sei lá.
Marco Santos, explique-me: acredita, de facto, que há um “avanço imenso” em abrir um formato à indústria que ao longo de 30 anos deu mostras de passar muito bem sem os formatos da Microsoft, obrigado? Porque não reconhece que a estratégia da sua empresa é simplesmente tentar impôr ao mundo a continuidade de um formato proposto e dominado por ela, para tirar disso os dividendos mal possa, nomeadamente fechando-o na primeira oportunidade? Como fez com outros formatos e standards?
Tendo em conta a existência de vários modelos, propostas e formatos vindos da comunidade do código aberto e de profissionais da normalização, acredita realmente nessa treta do “avanço imenso”, vindo de uma empresa que faz dinheiro com formatos fechados e tem horror à própria palavra “aberto”, que passou uma década a diabolizar?!? Standards para a Microsoft só os standards daMicrosoft — é o que a História da informática nos ensina.
Acha Marco Santos que eu (e comigo milhões) vou realmente acreditar no que a Microsoft promete em relação a abrir e ler formatos?!? (sem as chaves vendidas pela Microsoft, entenda-se). Se acha, está mais doente do que eu pensava.
Eu gosto da Microsoft, no sentido em que gosto de organizações eficazes. A Microsoft é uma boa empresa, eficiente, que gera bons lucros para os seus accionistas. Mas não tem de mentir, intoxicar e manipular a opinião pública desta maneira.
Agora, tirado do caminho o “responsável” local por uma estratégia que é definida ao nível do Conselho de Administração, mandado avançar para atrapalhar (e para defender o chefe), será que Miguel Sales Dias pode descer do Olimpo do resguardo e explicar (pode ser à Fátima Caçador na mesma) as coisas, em vez de fingir que é um burocrata e debitar os trâmites processuais?
Que tal começar por explicar o que é isso do “avanço imenso”? E explicar as ocorrências das apressadas reuniões do organismo a que preside? E explicar — esta para mim é dourada — a razão do súbito zelo da Microsoft pelos standards destinados à indústria? Fica bem a Bill Gates dar a fortuna numa de filantropo, mas não me consta que a Microsoft tenha passado de corporação com fins (fortemente) lucrativos a benemérita dos seus rivais. E poderá ainda explicar a razão do seu fascinante interesse pela normalização de linguagens de normalização de documentos, ao ponto de ter feito carreira de contornos políticos para ser presidente da Comissão? Tempo a mais, talvez?
Eu acho, como o Mário Valente, que quem queria impedir esta anormalidade devia em primeiro lugar ter comparecido a jogo.
Mas também acho que esta notícia noticia acontecimentos suspeitos e que merecem maior aprofundamento por parte dos media (respondendo a uma questão colocada por e-mail, porque acho importante fazê-lo em público, também gostava que algum OCS escapelizasse o assunto num artigo de fundo, não estando eu em posição nem de o fazer, nem de o propôr, a não ser assim).
Acho, finalmente, que as questões colocadas aqui e também as dúvidas e as exposições publicadas aqui (e que acho serem dignas do comentário-resposta de Miguel Sales Dias, quanto mais não fosse por uma questão de bom nome) merecem todo o crédito e divulgação.

Publicado por Paulo Querido in Sem categoria. Bookmark permalink.



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