Nos meus vintes não havia a designação bipolar, isso é coisa nova, pelo que a minha médica me diagnosticou um bocado de tendência maníaco-depressiva e tal e coiso, nada de agreste mas que me habituasse aos alto e baixos do humor, e a verdade é que depois fui lendo umas cenas nas revistas (anos 80, quais net quais orgão sexual masculino!) e aprendendo a canalizar as fases altas para as fronteiras da criatividade e para o amor (ok: e o sexo) e nas fases baixas fecho-me na sala a ver filmes e a zapar pelos canais com vozes-off melodramáticas (montes de coisas tenho eu aprendido sobre História e Ciência à pála das depressões, fonix!) um dia inteiro ou até a moca passar, não vejo ninguém, não aturo ninguém e não despejo a neura em cima dos outros, coitados, como qualquer bom bipolar que se preze aprendi a tomar os meus “comprimidos” (real e figurativamente falando) e a viver feliz com o que tenho e o que sou — e mais: a minha vida seria muito mais chata para mim (para algumas pessoas queridas talvez não, amor, admito) se eu fosse, como a maioria de vocês acha que é, uma pessoa assim toda equilibradinha e tal e coiso, dah, vocês gostam mesmo disso?
gostava que tu, pá, percebesses que não és o único injustiçado do sistema solar (olha eu e os marcianos, caraças!) e ele há mais umbigos na Terra e como acho que tens um bocadinho de respeitinho por mim, que deve ser da idade e de eu conseguir consertar às vezes um bocado de código, e como me conheces não podes ousar pensar que te estou a insultar, provocar ou gozar, escrevi estas linhas para tu as leres: canaliza as tuas energias para onde elas merecem ser canalizadas, seja gajas, música, websites, profissão, família, ténis, you name it, e larga o que não te traz vantagem, um abraço amigo e olha: sinto mais os downs do caminho, claro, mas são menos e demoram menos tempo do que quando era assim como tu, todo virado para o eufórico.
(Música de fundo recomendada para este texto: My Way versão Sex Pistols com a guitarra de Sid Vicious a acentuar os berros de Johnny Rotten)

Mas certamente que sim! é uma publicação de Paulo Querido, jornalista e consultor de comunicação. Também autor de livros, artigos e algum código. Na net desde 1989. (
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