O avô e os outros 

Com um jogo simples, claro e limpo, sem ilusões mas com as pitadas de sal q.b. (as danças tão bonitas quanto inconsequentes de Ronaldo, o estilo clássico de Deco), Portugal ganhou e já está na fase seguinte. Eu sei que para os junkies emocionais que são os adeptos portugueses não terá gozo algum esta insipidez de vencer, vencer. Para eles é uma seca não terem de ficar a sofrer, a fazer contas de cabeça, a depender dos resultados dos outros… Nem parece Portugal. Felizmente. Como devem essas alminhas andar escandalizadas a ver a sua equipa terminar um jogo não a sofrer, enfiada na atitude defensiva, mas a pressionar o adversário na sua grande área, sempre na iminência de marcar…
Mas eu no futebol não vivo de emoções, vivo de resultados e de beleza. E a beleza não tem forçosamente de ser fruto da plástica individual, do rasgo criativo; no caso, a beleza do colectivo prático, comandado pelo avô da equipa (a quem Scolari proporcionou esta tarde uma justa homenagem fazendo-o sair no momento certo, provocando uma justíssima ovação), um Luís Figo coberto de glórias e experiência a quem faltava, contudo, um resultado digno numa competição deste nível para fechar uma carreira ímpar.
Sim, Deco foi importante para «libertar Figo», como o foram as exibições securitárias de Miguel, Meira e Maniche. É assim mesmo: sem o ruído do excesso de “centro-campistas criativos” que intoxicaram o futebol português na última década, Figo pode comandar as tropas da forma que só ele sabe: a baliza fica ali e é preciso enfiar lá a bola, percebem?
Um pouco à semelhança do que acontecera à NBA dos anos 90, no futebol de hoje, aparentemente tão complexo, a depuração tornou-se arte e eixo fundamental. Deco, Ronaldo e Pauleta percebem. E agradecem ao avô a economia de esforços e a simplicidade de processos.

Publicado por Paulo Querido in Sem categoria. Bookmark permalink.



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