O quê? Já passaram 100 dias?!

Devo dizer, para quem não se recorde ou não fosse à altura leitor deste espaço, que fiz contravapor a Cavaco Silva nas eleições para a presidência. Não apoiei ninguém nem tenho o pretensiosismo de o meu apoio ter alguma espécie de relevância. Mas no meu direito à opinião não só declarei publicamente preferir outro candidato, Manuel Alegre, como manifestei o meu desconforto perante a iminência de ter de chamar presidente a Cavaco Silva.
Assim sendo, não é de espantar que hoje, quando passam cem dias sobre a entrada de Cavaco Silva em Belém, eu titule a efeméride desta forma; quando as expectativas estão mais baixo que barriga de jacaré, basta ao analisado ficar o mais possível quieto para obter nota positiva.
Porém, devo acrescentar que o Presidente fez mais do que simplesmente ficar quieto, pelo menos aquoi do meu posto de observação. É claro que torço o nariz às presidenciais tretas sobre quem deve pagar a crise, vindas de um homem que abriu as portas e estendeu a passadeira vermelha ao pior do Portugal dividido e a duas velocidades em que hoje vivemos, liberalizando excessivamente para a fotografia mas na prática aumentando as obrigações e responsabilidades do Estado enquanto patrão e patrono (ao limite em que o Estado hoje está). Não me iludo facilmente com piscadelas de olho aos deserdados e discursos “sociais”: Cavaco Silva é, e nunca será capaz de nos fazer esquecer, um social-climber conservador, um autêntico exemplo de manual, incapaz de outro olhar sobre a sociedade e a economia que não seja a cega defesa do status quo e do direito dos mais aptos ao poder e à riqueza esmagando os menos apetrechados.
Mas não vamos por aí: prefiro — e com esta atitude homenageio Cavaco Silva — sublinhar os aspectos positivos desta centena de dias e de noites.
Logo a abrir, concordo com a argúcia de Pedro Lomba: « o Presidente só tem a ganhar com este género de intervenção, que reforça a autoridade dos políticos», escreveu ontem no DN a propósito da defesa que Cavaco Silva fez da ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues. Agradeço ao Presidente a tentativa, que considero fundamental: em grande parte, os políticos hoje contam nada porque se deixaram tornar secundários, mas provada que está a incapacidade dos mercados e seus supra-dirigentes para resolverem os problemas (bem pelo contrário: a liberalização incendiou o mundo, e ainda há uns mirones com a distinta lata de pedirem mais dela), é bom restituir a dignidade a quem legitimamente pode e deve encontrar os melhores caminhos e soluções para o avanço das sociedades.
O Presidente tem sabido também gerir as relações com o Governo. É verdade que não é difícil e que Cavaco Silva só tem a ganhar com a boa co-habitação, seja na qualidade de Presidente, seja nas qualidades de homem e de político e de social-democrata (do PSD). Mas esta verdade não ofusca a primeira. O país fica a ganhar.
Agora naquilo em que estou mais à vontade: a relação de Cavaco Silva com a cibercidadania. Ainda candidato à presidência, já tinha dado um ar da sua graça online com um sítio de campanha muito bem esgalhado, admirável. O que não me surpreendeu, tendo em conta o seu mandatário digital (e foi o primeiro e único a ter um), cujas capacidades conheço relativamente bem.
Há dias, por razões que não vêm à colação, fui parar à página oficial da Presidência da República Portuguesa e fiquei bem impressionado. Está muito bom, está o que um cidadão espera do seu presidente. O cuidado com a acessibilidade é um pormenor apenas, o que é dizer quase tudo. Eu só mudava uma coisa: os endereços das páginas podiam também ser comprensiveis para humanos em vez de servirem exclusivamente a indolência dos programadores (já que às máquinas tanto se lhes dá que a notícia do Roteiro para a Ciência esteja em http://www.presidencia.pt/index.php?id_categoria=9&id_item=829 ou, como seria preferível, em algo como http://www.presidencia.pt/2006/06/roteiro_para_a_ciencia).
Pormenores.
Lindo é investigar à volta da página. A velocidade é irrepreensível. A largura de banda parece bem dimensionada. O que mais me agrada: o sinal de independência que a Presidência transmite ao escolher a plataforma mais adequada a um website deste género. Estou a falar do código aberto. A Presidência assenta em FreeBSD como sistema operativo e usa como servidor de páginas o Apache; a dinâmica, segurança e robustez são garantida pela programação em PHP. Impecável. Ao menos este orgão de soberania português mantém-se independente e não-subjugado. (Estas informações, que não têm de integrar a ficha técnica de um website presidencial, são consultáveis por exemplo pelo serviço da Netcraft.)
A rede não se tem feito rogada: o site ia hoje com 165 links (20 posts nos últimos sete dias) no Technorati.

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