OK põe-me KO se souberes como se faz

Estamos em 1982. Laura Diogo, das Doce (a primeira girls’ band a abrir a escada do sucesso popular a esse género, muito adiantada no tempo). canta “Eu sou” sozinha em palco, para desmentir os boatos que circulavam sobre a sua falta de voz (diziam que microfone dela estava desligado). Semanas depois, um boato percorre o país em pouco mais de 24 horas. Laura teria sido hospitalizada na sequência de sexo com o futebolista Reinaldo. São cancelados muitos espectáculos e as vendas do album da altura caem a pique. Mas vencem o Festival da Canção desse ano.
Maurício Zacarias Reinaldo Gomes veio de Bissau para a Académica de Coimbra em finais dos anos 70 (José Crava). A “notícia”, propagada pelo mouth-to-ear da altura, apanhou-o no Benfica e na selecção nacional.
Os media pegaram no assunto quando se sentiram “forçados” pela proporção da boataria. Uma e outro desmentiram a história, não há registos hospitalares. Mas até hoje meio Portugal (o Portugal que se lembra, parte do qual evoca a mentira na própria blogosfera) prefere imaginar o que terá acontecido entre “o preto e a loiraça” — sendo o produto da imaginação, o boato, a história que ficou. Ser verdade ou mentira (é mentira) é irrelevante: ficou de tal maneira que sobreviveu às carreiras da cantora e do futebolista (foi para o Boavista nesse ano e nunca mais foi o mesmo) e vai inclusivé sobreviver-lhes.
Zap. Estamos em Março de 2006 e Vasco Pulido Valente e Constança Cunha e Sá são as novas coqueluches da blogosfera. No dia 5 VPV escreve um post onde fala da “santanete Clara Ferreira Alves” (OK) e afirma que ela não é nada doutora e só tem o 12º ano, sendo uma mentirosa que forjou o currículo (KO). A blogosfera (o mouth-to-ear versão hi-tech / low-brain do século XXI) regurgita de gozo com inúmeras citações e cópias. Até hoje meia blogosfera continua a rir e se lhe meterem um microfone à frente jurará que “essa gaja é uma impostora” (ajuda Clara ser uma figura controversa e irreverente, daquelas que gera muitos anti-corpos sobretudo em quem a vê na televisão). Dias depois, o blogue de VPV é fechado. Sem razão anunciada. Este sábado, Clara Ferreira Alves tem um texto de compreensão para com José Sócrates onde escreve que respondeu a Vasco Pulido Valente. «Em português e no tribunal [...]. Com certificados e notas do 6.º e 7.º anos do Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho e da licenciatura em Direito na Universidade de Coimbra» (o Espectro).
O que ficará, é ainda uma nebulosa. O que fica, por agora, é que o Google continua a remeter para o post da “santanete” quando inquirido por Clara Ferreira Alves. Neste instante, é o segundo resultado, depois de uma ficha incipiente na Wikipedia. Ser verdade ou mentira o que Vasco Pulido Valente escreveu e a blogosfera replicou alegremente é irrelevante. As provas de CFA e a sentença do tribunal no caso contra VPV não serão copypastadas às centenas na web.
Na blogosfera não há direito de resposta. Fecha-se um blogue, abre-se um blogue, mas ninguém é obrigado (por regras ou por leis) a publicar a nossa resposta nas mesmas páginas onde nos atacou (e isto, Joaquim, é uma razão para discordar de ti quando afirmas que este caso desmente os que, como eu, defendem que os blogues não têm consistência suficiente para serem encarados como meios de comunicação social; talvez um dia, os que vierem a aderir explicitamente a um código de conduta, ainda por redigir, e em vários países fala-se isso, cá também se falou há uns anos).

Da UnI a Balbino Caldeira
O que vai ficar do caso das habilitações de José Sócrates?
É cedo para dizer. O caso de José Sócrates não é comparável nem ao primeiro, nem ao segundo exemplos que aqui dei (existem dezenas deles na via pública portuguesa, a começar pela política e a afectar os dois principais partidos, que me recorde superficialmente). Sem contar o tipo de relacionamento que mantém com a Imprensa (por demais escalpelizado por estes dias) Sócrates tinha uma boa razão para a estratégia de silêncio. Chama-se Universidade Independente. Maldosamente ou não, o seu caso foi colado ao da UnI (Balbino Caldeira nada teve a ver com isso, começou com as suas dúvidas muito antes). Falar seria ridículo. Vai falar obrigado — o que é mau para José Sócrates, mas não é mau para o Primeiro Ministro. Um Primeiro-Ministro tem obrigações, às quais não deve faltar sob pretexto algum — e muito menos o da sua própria carreira, como tivemos recentemente um caso. O Governo tem obrigações públicas no affaire UnI, e escorregar neste assunto é correr o risco de condenar o ensino superior em Portugal — sobretudo o privado, que vive sobre brasas e num clima financeiro periclitante.
O facto de as oposições em geral, e em particular o PSD, não terem “explorado” um caso caído dos céus devia ser gritante para a “opinião pública”.
Concordar com Joaquim Vieira quando escreve «as revelações sobre a licenciatura de Sócrates [...] são do melhor que produziu nos últimos tempos o jornalismo português” (link) é fácil e está claro que concordo. Mas não estamos a ser nada simpáticos para o jornalismo português (do qual ambos fazemos parte, noto a benefício de inventário). Como escreveste, Joaquim, ele, o jornalismo português, «anda muito carente anda deste tipo de trabalho perseverante e em profundidade». Só isso explica a boa nota — porque bem espremidos os factos publicados jornalistas que os investigaram, temos que há umas diferenças entre as pautas e o certificado, os burocratas não encontraram ainda uns papéis com dez anos, uns colegas dizem que José Sócrates faltava às aulas e o diploma foi assinado num domingo. Como fez notar João Miguel Tavares no DN, «não é grande coisa», convenhamos.
É um avanço, digo eu. Perante as dúvidas, legítimas e bem defendidas, avançadas por um cidadão (nada anónimo, bem pelo contrário), foi-se levantando um burburinho tal que até as donzelas da corte, inicialmente caladas, juntaram a sua voz ao coro dos pés-sujos. Como no caso Laura-Reinaldo, o bruá chegou às Redacções e pegar-se no assunto tornou-se obrigatório. A questão era: por onde? Demorou o seu tempo até encontrar um ângulo. Não era grande coisa, mas uma irregularidade processual é sempre uma irregularidade processual. Com o ferro quente e a UnI na fogueira, ui!, é dinheiro em caixa — até para os jornais de referência, que noutras circunstâncias, não tenho a menor dúvida, não atiravam isto às manchetes.
Tens toda a razão, Joaquim, noutro ponto: parece-me também a mim que quer o Público quer o Expresso tinham a obrigação de mencionar como fonte António Balbino Caldeira e o seu Portugal Profundo, onde estão questões e factos que colocaram os jornalistas em campo.

Os patetas
Sobre os fantasmas na relação entre o Governo e a Imprensa, nem vale a pena falar. Quem vê os meios como instrumentos para o poder e do poder nunca perceberá que eles possuem vida própria, agenda própria, interesses próprios, e não são facilmente domesticáveis, nem mesmo em regimes duros. Alguns morrem resistindo.
Ricardo Costa, sem papas na língua a criticar Sócrates, referiu ser «patético dizer que a liberdade de imprensa está ameaçada. É patético pensar que o Governo consegue controlar a comunicação social privada». E até o “paladino” do jornalismo de referência português, José Manuel Fernandes, do Público, recusou falar de ameaças à liberdade de imprensa por causa destas atitudes, apesar de dizer que não gosta “de ouvir comentários do primeiro-ministro nos aviões sobre a forma como certos órgãos acompanham determinado assunto”. Afirmações que são encaradas como tentativas para condicionar a informação.
Uma vez Mário Soares pegou-se comigo num avião por causa da forma como eu acompanhava a viagem (primeiro mandato presidencial) no meu jornal. Só eufemisticamente chamaria “comentários” ao que ouvi e que Soares fez questão de dizer alto para toda a gente ouvir, como gostava quando tinha um raspanete para dar aos “Senhores Jornalistas”. Embora na altura estivesse longe de ser um veterano e o meu jornal fosse intervencionado pelo Estado (a única vez em que recebi ordenado do erário público, mesmo não pertencendo à função pública), não vacilei nem tremi o queixo. Ele (e Ventura Martins, o assessor) faziam o papel deles, eu fazia o meu, isso já eu sabia (e sabe o Ricardo Costa e sabem todos os jornalistas). A liberdade de Imprensa era, já, um facto e desde aí a tendência é para o reforço desse facto, com mais ou com menos “centrais de informação”. Em declínio já nessa altura, as tentativas de governamentalização dos meios não passam de uma arma de arremesso entre governantes e oposicionistas. É uma patetice pensar o contrário.

Fellatios e faltas
José Sócrates devia ter falado mais cedo? Tudo indica que sim. Mas não quis ou não pode e agora arrisca-se, como Bill Clinton, a que o princípio do seu fim venha de um pecadilho ingloriamente colateral à função. Um par de fellatios ditou o fim político de um, faltar às aulas poderá arrumar o outro.
Da populaça, a populaça que goza à brava com o preto e a loira, não espero sensibilidade para detalhes como os escrúpulos. Os mesmos detalhes que, na vã glória do boato, queimaram Laura Diogo e Reinaldo, tornaram anedota um dos melhores presidentes que os EUA conheceram na segunda metade do século XX, estão a denegrir Clara Ferreira Alves (entre tantos) e agora fragilizam o poder do executivo político num momento crucial do trajecto do país. O diabo está nas elites.

    Relacionados

  • No related posts

Debate

Comments are closed.

Textos mais recentes


ACERCA
mini fotografia paulo querido Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (Mais)

Como ler

Certamente! é distribuído em vários canais.
edição diária por e-mail
Pelo Twitter
Por RSS
Google
Bloglines
no Yahoo!
no seu leitor


http://www.wikio.fr