Os abortos

A discussão sobre o aborto não me interessa. A discussão sobre quem discute o aborto ainda menos. Nada tenho a dizer sobre pessoas — em partes desconhecidas, mas que presumo cultas e inteligentes — que aproveitam o pretexto do referendo sobre uma lei que, em pleno século XXI e numa sociedade que gosta de se achar civilizada, indiscriminadamente torna mulheres em criminosas para mostrar (impingir até seria mais acertado) ao mundo as suas posições em matéria de moral.
É escusado repetir que não é abortar que está a ser debatido: é o que fazer com quem aborta, na tentativa — que julgo competir ao Estado enquanto instrumento da sociedade — de minorar os problemas de toda a ordem que decorrem da prática de abortar. Apaixonadas pelo, ou vidradas no, cortejo carnavalesco de “opiniões” e “posições”, avaliando a quantidade e qualidade de cada um dos “exércitos” “conquistados” por “cada uma das partes”, as pessoas preferem o show à realidade.
«Os do não ao aborto mostram na televisão pessoas com aspecto de bem sucedidas e socialmente melhor colocadas» — um argumento ouvido hoje, justificando uma “vantagem” para esse lado. É verdade (que o argumento foi usado). E por ser verdade me retiro da discussão sobre o aborto mesmo antes de entrar. Se alguém quiser conversar sobre a lei e os seus efeitos na saúde pública, na economia, na demografia do país (que seria uma razão bastante válida para o Estado usar esta lei como instrumento, aliado a outros imprescindíveis, para tentar aumentar a população autóctone, que está a diminuir em proveito das populações imigrantes) e, vá lá, na dinâmica psicológica do povo português, o meu mail está ali ao lado; montamos um blogue ou forum com entrada reservada por password e conversamos calmamente longe da fúria destes aguerridos exércitos que reduziram o debate à primitiva boçalidade de uma guerra entre tribos na qual continuarão a ser sacrificadas em bando as vítimas regulares das morais e das hipocrisias: mulheres, crianças e nascituros.

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mini fotografia paulo querido Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (Mais)

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