Racionalidade, amén
A web tem quase 2.000.000.000 de pessoas e cresce rápida ainda. Tipo, ya, 2 mil milhões de pares de mãos que acedem a custo baixíssimo a “conteúdos”, notícias, informação, entretenimento.
Acedem para consultar e acedem para produzir e partilhar, alegres e contentes.
A publicidade online está a recuperar da crise financeira e volta ao crescimento optimista.
O preço da web (o acesso às páginas HTML, ‘tão a ver?) vai descer de praticamente irrelevante para desprezivelmente irrelevante, ahah.
Se o iPad vender 4 milhões de aparelhos em todo o mundo no primeiro ano, a Apple andará aos pulos de contente. Os analistas acham que talvez se vendam 10 milhões de leitores electrónicos em 2010.
10.000.000 é uma fracção de 2.000.000.000. Uma pequena fracção, para começo de conversa.
O iPad, mesmo auto-financiado pela Apple, custará 499 dólares, preço de entrada. O acesso aos conteúdos terá também um preço, a dividir entre a Apple (ou a Amazon, ou outra hi-tech com o torniquete e a caixa registadora) e o orgulhoso “content provider”.
A indústria dos media (do jornalismo ao entretém) falhou todas e cada uma das oportunidades abertas pelas mudanças de comportamento da Entidade Antes Conhecida Por Audiência, nascidas da evolução tecnológica.
Todas. land rush, 1.0, 2.0, mobile, t-o-d-a-s.
O espaço (ok: o mercado) foi ocupado pelas tecnológicas e telcos. Que prosperam exactamente no mesmo sítio em que os media definham.
Virar as costas a 2.000.000.000 que existem, vibram, e apostar num potencial de 10.000.000 que pode ou não vir existir, e existindo pode ou não vibrar, não é coisa dos mass media.
Os industriais dos media dizem acreditar que o iPad vai salvar os seus negócios, tirando-os do tumulto da “rede do lixo”.
Tenho a certeza absoluta que há racionalidade nessa declarada expectativa. Absoluta. Eu é que sou estúpido e não consigo descortinar. Que os accionistas que financiam tais crentes consigam — é o que lhes desejo. Tudo de bom, amén.
Em Portugal o panorama é ainda mais estranho. Grupos inteiros invisíveis nas redes sociais. Um único jornal no Kindle. Nenhuma publicação com aplicações móveis, iPhone ou outras. Competências que deviam ser próprias são entregues em outsourcings de estratégia duvidosa, se existente. Conhecimentos que deviam integrar o capital intelectual de uma Redacção são evitados como se a informática fosse a sida do jornalismo. Uma ideia copiada com seis meses sobre a publicação americana que demorou seis meses a atingir o nirvana do mainstream social, passa neste país por “original” e “inovação” — um ano depois do blog mais rasca já o ter feito. Em vez de revalorizado e reinvestido e estimulado aos novos saberes, o capital humano é dispensado, despedido, e o grosso do trabalho aviado por estagiários que acham o máximo meter “trainee” no currículo do LinkedIn e pelo lumpen copy-past enquanto aguarda uma encomenda de 3 dólares o artigo no Getafreelancer.
Sei que um dia descortinarei, tudo de bem para vocês, amén.
Se chegou aqui, leitor, permita-me sugerir o Manifesto Internet – Como o jornalismo funciona hoje. 17 constatações e pense e discuta, junte-se a quantos já o fazem em dezenas de países que traduziram o manifesto. Ou leia iPad: promessas de amanhãs que cantam (e porque estou cauteloso com elas), onde discorro um pouco sobre o leitor da Apple, que considero de tremendo potencial disruptivo.
Tudo o que se passa, passa na TSF (eu passei :) )
Tudo o que se passa, passa na TSF e eu passei
Foi ontem à tarde, novamente. Desta vez no Mais Cedo ou Mais Tarde, com o João Paulo Meneses.
O tema de partida foi o livro de Chris Anderson “Free – O Futuro é Grátis” (edição portuguesa aqui). Conversámos sobre a forma como os negócios são afectados pela Internet. Devia ter falado mais dos bons exemplos do software e menos das desgraças da Imprensa. Murdoch, porém, está nas bocas do mundo (pelas piores razões) e era incontornável. Tive o cuidado de não apontar quem, por cá, pensa tão erradamente quanto ele.
Houve ainda tempo para falar um pouco do meu percurso. Marcos principais do caminho: Spectrum, primeira utilização da micro-informática em Redacções (na Gazeta dos Desportos, cerca de 1983) em integração no processo jornalístico; CompuServe, primeira ligação Internet, primeiro e-mail — e a integração no jornalismo, já no Expresso, tanto com os resultados NBA como a realizar entrevistas; a Revista do Expresso, coluna Bit a bit, onde avaliei, entre outros, Windows 95 e o Newton, da Apple; a saída do quadro do Expresso, em 95, para a aventura empresarial, com a BBS A Rede, precursora do acesso Internet comercial; o regresso como colaborador ao Expresso para fundar o suplemento de ciência, tecnologia e futuro, o XXI; depois, com o tempo já a esgotar-se, o weblog.com.pt, agora o novo jornal Diário2 e muito já de fugida as redes sociais, desfazendo eu o mito da minha presença “permanente” no Twitter
A ouvir, aqui.
Aproveito e desfaço um erro: quando, a minutos tantos, uso o termo “protoconsumidor”, o que realmente quero dizer é prosumer. Uma atrapalhação do directo
Você, leitor, quer passar-se?
Você, leitor, quer passar-se? Completa, total, irredutivelmente? Passar-se a sério?
Então gaste 8 minutos do seu tempo para se passar. Não me responsabilizo pelo eventual regresso à órbita da realidade. Boa viagem.

del.icio.us
DoMelhor
Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (
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