Os virgens
“(…) cada vez que um jornalista nos quer convencer da sua virgindade cognitiva — “olhem para mim a dar-vos um ponto de vista que não podem contestar” —, acontece uma mentira.”
João Lopes em Jornalismo: o mito da neutralidade
O jornalismo online português está na fase do slideshow
Este é o título que eu escolheria para a entrevista que a Christina Lima publicou hoje, mas o título dela foi outro, naturalmente. Paulo Querido: ‘temos inovação e criatividade zero nas redações portuguesas’ acaba de ser publicado no Nós da Comunicação, uma publicação brasileira que é tambem uma comunidade, ou vice-versa.
Um pequeno excerto (noutra altura republico para efeitos de arquivo):
Nós da Comunicação – Você é um dos pioneiros no jornalismo digital em Portugal, mas acumula muita experiência também em jornal e rádio. Em que nível estão os meios de comunicação portugueses na internet no quesito convergência de mídias? Os sites estão sabendo aproveitar os recursos disponíveis?
Paulo Querido – Não. A convergência aqui é objeto de estudo na universidade, quando muito. Nenhuma redação integrada, grandes dificuldades dos editores on-line em conquistar posição nas organizações. Inovação e criatividade zero nas redações portuguesas. São raríssimas as iniciativas. O jornalismo on-line português está na fase do slideshow em Flash. Acham o máximo, como se tivessem chegado ao topo e não fosse preciso fazer mais nada. E mesmo slideshow é só para dois ou três jornalistas iluminados em cada redação.
Que conselho daria a alguém que pretende seguir comunicação e jornalismo?
P. Que conselho daria a alguém que pretende seguir comunicação e jornalismo?
R. Que pensasse 2 vezes em mudar de ramo. Se ainda assim sentir um apelo violento e tiver tremuras só de pensar que não será jornalista — considere-se um privilegiado tramado pelo destino e procure aprender o mais que puder sobre tecnologias de informação, alguma linguagem de programação (recomendo PHP), SEO, networking. Depois, faça um site/blog/oquequiser, ou junte-se a algum projecto inovador da área. Se preferir recorrer aos velhos meios… é um forte candidato ao desemprego ou, na melhor das hipóteses, à situação de fodido e mal pago.
Respondido originalmente aqui (o Formspring é engraçado!)
The Twitter Times, o seu jornal instantâneo

O conceito nada tem de extraordinário e vários outros sites permitem agregar e separar tweets e links de forma a extrair deles melhor informação. Mas a aproximação, a embalagem e sobretudo a simplicidade são os factores diferenciadores deste The Twitter Times, um serviço recentíssimo, que se anuncia como “um jornal personalizado em tempo real, gerado a partir da sua conta Twitter“. LER CONTINUAÇÃO :.
Papel do jornalista: dirigir a narrativa

Quais as razões para ter optado por uma carreira como freelancer e não por algo mais seguro estando vinculado a algum meio de comunicação?
Em 30 anos de carreira, tive vínculo a vários meios de comunicação em diferentes alturas. Sou free lancer há poucos anos: menos de 3. A razão tem mais a ver com questões do mercado do que com as minhas opções pessoais.
P – Quais as vantagens?
R – Maior liberdade de movimentos. Não estar sujeito aos ambientes fechados das redacções, onde as questões pessoais por vezes se sobrepõem às razões editoriais.
P – E as desvantagens? LER CONTINUAÇÃO :.
Manifesto Internet: como o jornalismo funciona hoje. 17 constatações

A história do Manifesto Internet é daquelas coisas que só acontecem na Internet. Reagindo ao que consideram ser um equívoco (escolha de palavra minha) por parte dos proprietários de grupos de media europeus, a Declaração de Hamburgo, um grupo de jornalistas alemães decidiu redigir conjuntamente um manifesto.
Publicaram-no como mandam as regras da rede: com uma licença Creative Commons 3.0 — uma espécie de tomem lá, usem, distribuam, isto é de todos mas de nenhum.
Publicaram-no na segunda-feira, dia 7. Jeff Jarvis “tweetou”: Leading innovators in German journalism issue an internet manifesto.
Em poucas horas sucedeu o inevitável. O meio ambiente reticular premeia o que é bom, positivo ou marcante. Veio a versão inglesa. Seguiu-se a francesa. A espanhola. A italiana. A francesa. E a portuguesa. Tudo isto antes de terça-feira, dia 8, terminar.
Talvez a portuguesa tenha vindo antes da italiana. Isto não é uma corrida. LER CONTINUAÇÃO :.
Joel Neto e o YouTube
Joel Neto escreveu no Diário de Notícias, na sua “Crónica de TV”, que “enquanto ninguém regular o YouTube, crimes como este continuarão a ser praticados todos os dias” (ver João Malheiro e as loiras)
Eu concordo quando Joel Neto escreve: “Os palavrões não interessam. O marialvismo ainda menos. Onde quer que haja dois homens sozinhos e duas loiras desfilando em frente, as possibilidades de haver marialvismo e palavrões são grandes (em todas as actividades, em todas as classes sociais, em todas as idades)“.
Admito que os palavrões e o marialvismo incomodem tantas e tantos, mas concordo: não é coisa a que ligar por aí além e eu não o faço.
Mas lamento a frase seguinte: “O que esta história nos mostra, principalmente, é que o YouTube precisa de regulação. E que, enquanto ninguém o regular, crimes como este (o da exposição de uma conversa privada, entre outros) continuarão a ser praticados todos os dias um pouco por todo o mundo.”
Não, a história não mostra tal coisa, nem mesmo secundariamente.
Em primeiro lugar, o YouTube não precisa de regulação. Já a tem. Bastava uma palavra da SIC e o video era retirado.
Em segundo lugar, a regulação do Youtube não evitaria este “crime” (meto aspas nisso, evidente). A única forma de impedir que as pessoas partilhem videos deste género no YouTube é impedir que as pessoas partilhem videos no YouTube.
Em terceiro lugar, o que Joel Neto resolve é colocar o ónus na pistola e branquear quem a disparou. (Regular as pistolas impediu os assassinatos, Joel?)
O que a história mostra é que persiste na classe jornalística portuguesa um elevado grau de desconhecimento sobre a natureza, as práticas e o dia a dia das redes sociais.
Podemos enfeitar as crónicas do Joel Neto, do Miguel Sousa Tavares e de tantos outros com um botão de partilha por baixo e uma caixa de comentários, a modernidade fake e pirosa.
Mas não podemos meter conhecimento do ecosistema reticular naquelas cabeças. Preferem manter os preconceitos da Idade Média dos anos 90: ladrões, vigaristas, prostitutas, criminosos, psicopatas e doentes vagueiam pelas noites escuras da Internet em busca de sangue, engates, pilhagens. E adoram efabular-se como as vítimas preferenciais de tal súcia.
As árvores morrem de pé e assim.
Nota: fui colega do Jorge Baptista e custa-me, naturalmente, vê-lo passar por este triste episódio. Shit happens. Vejo em José Augusto Marques um bom profissional e não tenho uma ideia sobre João Malheiro, à parte recordar o seu vozeirão.
Why is aged news better than… real news?
“Why is aged news better than… real news?” pergunta o “repórter” do Daily Show a uma editora em pleno coração do The New York Times. A peça foi para o ar ontem, 10 de Junho, e merece ser vista — em especial pelos envolvidos na indústria dos jornais.
| The Daily Show With Jon Stewart | Mon – Thurs 11p / 10c | |||
| End Times | ||||
|
||||
European Charter on Freedom of the Press

Certamente! acaba de subscrever a European Charter on Freedom of the Press.
Reproduzo abaixo os artigos, certo de que quando falamos em jornalismo, é da actividade que falamos em geral, e não apenas das indústrias que a suportaram no século XX.
Freedom of the press is essential to a democratic society. To uphold and protect it, and to respect its diversity and its political, social and cultural missions, is the mandate of all governments.
Censorship is impermissible. Independent journalism in all media is free of persecution and repression, without a guarantee of political or regulatory interference by government. Press and online media shall not be subject to state licensing.
The right of journalists and media to gather and disseminate information and opinions must not be threatened, restricted or made subject to punishment.
The protection of journalistic sources shall be strictly upheld. Surveillance of, electronic eavesdropping on or searches of newsrooms, private rooms or journalists’ computers with the aim of identifying sources of information or infringing on editorial confidentiality are unacceptable.
All states must ensure that the media have the full protection of the law and the authorities while carrying out their role. This applies in particular to defending journalists and their employees from harassment and/or physical attack. Threats to or violations of these rights must be carefully investigated and punished by the judiciary.
The economic livelihood of the media must not be endangered by the state or by state-controlled institutions. The threat of economic sanctions is also unacceptable. Private-sector companies must respect the journalistic freedom of the media. They shall neither exert pressure on journalistic content nor attempt to mix commercial content with journalistic content.
State or state-controlled institutions shall not hinder the freedom of access of the media and journalists to information. They have a duty to support them in their mandate to provide information.
Media and journalists have a right to unimpeded access to all news and information sources, including those from abroad. For their reporting, foreign journalists should be provided with visas, accreditation and other required documents without delay.
The public of any state shall be granted free access to all national and foreign media and sources of information.
The government shall not restrict entry into the profession of journalism.
Dossiê Eleições, do Público: jornalismo inédito em Portugal

Não se tinha ainda feito uma cobertura assim. O dossiê Eleições 2009 do Público online constitui uma aposta ousada, até porque faz jornalismo inédito em Portugal. Juntamos gráficos dinâmicos à cobertura integral do noticiário tanto do Público como dos outros órgãos de comunicação social relevantes, passando pela blogosfera, pelo Twitter e pelo Flickr, sem esquecer uma zona de comentários própria. Uma operação online sem paralelo cobre os meios tradicionais e os social media, fornecendo um quadro alargado das perspectivas tanto dos jornalistas como dos políticos e equipas envolvidas nas três campanhas, integrando também o público com voz activa na Internet.
Eis uma apresentação do que já se apresenta nas três divisões do micro-site em http://eleicoes2009.publico.pt: do Público, da web e dos leitores:
- gráficos produzidos em tempo real a partir dos dados recolhidos nas diversas frentes: empresas de sondagens, jornais e televisões, blogosfera, redes sociais e Twitter.
- Selecção de artigos relevantes, websites, videos, páginas — tudo o que uma equipa especial, composta por jornalistas do Público (a começar pelo seu director, José Manuel Fernandes) e por bloggers experientes, for encontrando na rede, digno de destaque
- Artigos de opinião dos bloggers convidados — isto é, dos autores deste blog
- Fluxo permanente das notícias do Público relacionadas com as eleições
- Apresentação em tempo real dos tweets que falem das eleições e das figuras nelas envolvidas
- Lista dos posts publicados numa selecção de meio milhar de blogs dos mais relevantes da blogosfera portuguesa
- Fluxo permanente do noticiário eleitoral da Imprensa online
- Comentários dos leitores
- Fotografias de campanha, partilhadas por qualquer pessoa através de contas criadas para o efeito no Flickr
A actualização dos dados é feita permanentemente: diversos infobots recolhem sem parar a informação publicada ou partilhada; scripts avaliam e juntam peças diversas, tomando decisões em função do contexto ou de palavras-chave; de 5 em 5 minutos o site é refeito de cima a baixo — durante a noite esta rotina passa para intervalos de 10 minutos, mas nas vésperas e nos dias das eleições o intervalo desaparecerá, sendo a informação publicada em tempo praticamente real.
Para cada uma destas zonas de cobertura há uma sub-página de arquivo.
De diferentes técnicas e conceitos emergentes no jornalismo em rede, recorremos ao crowdsourcing (interpretar as interacções de pessoas e agentes como forma de hierarquizar informação), ao jornalista-programador, ao link journalism, à ligação entre profissionais e amadores (Pro-Am), ao data mining e data visualization, à agregação.
O dossiê vai evoluir constantemente ao longo dos sete meses de duração da maratona eleitoral deste ano.
O micro-site do Público online é o corolário do dossiê, reunindo toda a informação e apresentando-a na sua máxima expressão, mas o dossiê pode ser acompanhado pelos leitores também via RSS e no Twitter, estando previstas versões para mobile, Friendfeed e Facebook, isto para já
A terminar: a maior parte do software é feito à medida para esta iniciativa. O conceito partiu da observação de diversas coberturas online das últimas presidenciais americanas, tanto nos jornais como em iniciativas de empreendedores, e foi maturado em Fevereiro e Março últimos, depois do Público ter acolhido a prova de conceito.
Por me facultarem o privilégio do acesso a esta experiência em tempos difíceis para os jornais, agradeço ao António Granado, primeiro interlocutor no Público e primeiro entusiasta desta experiência tão inédita quanto urgente no jornalismo português; e ao José Manuel Fernandes, que além de aprovar o orçamento
se predispôs a participar activamente. Também na lista dos agradecimentos, mais informalmente, um abraço para o Luciano Alvarez, que em curtos diálogos no Twitter me transmitiu um pedacinho da energia entusiasmante que se costuma encontrar nas Redacções, e de que os colaboradres externos sentem por vezes a falta; e um beijo para a minha mulher, Ana Roque, cúmplice do entusiasmo e da energia, pela paciência e pelo empenho.
Veja em http://eleicoes2009.publico.pt o dossiê, ou siga pelo Twitter a conta @eleicoes_09

del.icio.us
DoMelhor
Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (
Siga o feed RSS
Receba a edição diária por e-mail