A quantidade de disparates recolhidos e publicados pela Imprensa acerca do iPhone é notável. O iPhone é descrito, inclusivé por jornalistas, como “o último grito em tecnologia”, naturalmente sem se explicar para quem é o último grito ou qual a tecnologia. Para todos os que são capazes de ouvir esse “último grito”, uma recomendação: não leiam este post de Pedro Cavaco sobre o que o iPhone não tem.
O preço, mesmo quando considerado “caro”, é prontamente justificado com recurso à paleta de desculpas fornecida aos iSheep ao longo dos últimos meses pelo marketing da Apple.
Exemplos:
Definindo-se como uma pessoa com uma “perspectiva utilitária” em relação a este tipo de aparelhos, fulano reconhece que os 599 euros que pagou pelo telemóvel não corresponderam a um preço “barato“. Mas considera que fez um “bom negócio“, tendo em conta as funcionalidades do iPhone.
A que funcionalidades se estaria a referir? Ele saberá? Claro que fez um bom negócio — depois de gastar 599 euro por um telemóvel, quem é que ia dizer a um repórter que tinha feito um mau negócio??
“Tem uma boa relação entre qualidade e preço“, afirmou outro entrevistado, embora considere que “é pena que as operadoras não tenham optado por preços mais baratos“.
É. É pena. Transporta-se a culpa da Apple para “as operadoras” e resolve-se o conflito interior e as dúvidas sobre a compra. Mas o melhor está para vir:
“Fiz as contas e constatei que se optasse por um dos planos de fidelização anunciados pelas operadoras, em que se entra com 120 e tal euros e paga-se uma determinada quantia durante dois anos, no final o iPhone custar-me-ia mais 100 euros“.
Perfeito perfeito perfeito! — exclamaria Steve Jobs na cabina de projecção se isto fosse o piloto de um anúncio.
E aquela do engenheiro informático que nos garantiu que “as coisas boas normalmente pagam-se“?
É como os automóveis de luxo — o seu único defeito é o preço, é a invariável conclusão da leitura da imprensa “da especialidade”, embasbacada pelo brilho dos cromados e incapaz de estabelecer padrões de análise para avaliar um “objecto de sonho”. Avalia-se um BMW com a mesma fita com que se mede um Citroen.
Se é caro, é bom e paga-se. É um novo ditado… popular.
Outro técnico de informática assegura-nos que “o preço compensa se tivermos em conta que não existe nenhum telefone com tanta capacidade“. Ah, mas este ao menos leu por aí alguma coisa crítica. No problema, para estes casos está lá a força da maçã, como se vê: “Apesar de existirem tecnologias semelhantes e mais baratas neste caso entra o factor design“, sublinha.
O facto, comprovado e comprovável na prateleira ao lado, de existirem outros telemóveis com ainda mais capacidades (alguns dos quais igualmente caros), é sem dúvida um facto desprezível e irrelevante. Quando o homem quer, o sonho cumpre-se. E mai nada!
Um dos meus favoritos foi, segundo quem recolheu o seu impressionante e histórico testemunho, peremptório em afirmar que as potencialidades do telemóvel justificam o preço: “vou usar o telemóvel para ir à Internet, ao msn e também para telefonar“.
Naturalmente, ou não estivéssemos todos impressionados, os responsáveis das lojas foram igualmente “peremptórios” e unânimes nos seus discursos sobre a adesão (“fantástica”) e as expectativas (“superadas”).
Alguns jornalistas escreveram, sabe-se lá porquê, que em Portugal a adesão não estava a ser igual à verificada “noutros países” — mas atenção!, não há nenhuma relação com a adesão “fantástica” e as expectativas “superadas”, cuidem de nem ousar estabelecer uma!

Mas certamente que sim! é uma publicação de Paulo Querido, jornalista e consultor de comunicação. Também autor de livros, artigos e algum código. Na net desde 1989. (
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