Jornalismo viral — ou as diferenças entre um divórcio, um requerimento e um despacho (2)
Como vimos na primeira parte deste artigo, há diferenças entre um divórcio, que depende de um despacho, e o requerimento para o divórcio. O que não houve, regra geral, foi um jornalista para dar por isso (duas excepções de onde menos se esperaria, ler abaixo).
Oriunda da Lusa, a história foi contada e recontada em dúzia e meia de órgãos de comunicação social no seu formato original, notando-se as variações de tratamento somento ao nível cosmético: títulos, chamadas, rearrumação de parágrafos.
Um único órgão de comunicação fez a confirmação dos factos ou pelo menos procurou dar outro lado, outro ângulo. Assim, este é um bom exemplo de caso para apresentar aos estudantes de jornalismo e aos interessados na profissão sobre os perigos do jornalismo viral — uma nova formulação para uma prática antiga que consiste em colar o telex da Lusa, ou o recorte de outro jornal, de olhos fechados.
O simples recurso ao Google permite-nos fazer o tracking da notícia e ver como, eventualmente na ânsia de dar aos “seus” leitores a informação, não se cuidou na esmagadora maioria das Redacções de acrescentar valor — que é, afinal, o factor diferenciador para um título conquistar a admiração pública e manter as audiências e o prestígio.
O único jornal que o fez — isto, dos 14 que cuidei de verificar a partir da lista obtida no News Google — foi o Correio da Manhã, que publicou uma notícia na secção de Tecnologia e deu-lhe um enquadramento próprio (com foto do seu repórter) e correcto, com um título chamativo mas ambíguo quanto baste. O Tek.sapo teve a virtude de “ler” o despacho da Lusa e editá-lo, suprimindo o pior.
- No Público, às 11:51 de dia 13
Divórcio da Hora entrou hoje em funcionamento
Casados ao abrigo da Lei portuguesa já podem divorciar-se pela Internet
Todas as pessoas casadas ao abrigo da lei portuguesa podem a partir de hoje divorciar-se em poucos minutos através de um portal na Internet. - No Portugal Diário, às 12:25 de dia 13
Divorcie-se na net
Divórcios de casamentos portugueses em poucos minutos e a baixo custo
Ao fim de 13 anos separada, Maria divorciou-se finalmente. Enquanto aguardava por informações numa conservatória de Lisboa, tornou-se a primeira a obter um divórcio electrónico em Portugal, em poucos minutos e a baixo custo, noticia a agência Lusa. - No Ciência Hoje, sem hora
Divórcio na Hora: ao fim de 13 anos separada, Maria divorciou-se por Internet
Ao fim de 13 anos separada, Maria divorciou-se finalmente. Enquanto aguardava por informações numa conservatória de Lisboa, tornou-se a primeira a obter um divórcio electrónico em Portugal, em poucos minutos e a baixo custo. O advogado que lhe permitiu acelerar o processo acredita mesmo tratar-se do primeiro divórcio electrónico do mundo. - Na Fábrica de Conteúdos, às 12:09 de dia 13
Divórcio pela Internet a partir de hoje
Para as pessoas que casaram ao abrigo da lei portuguesa - No Diário Digital, às 11:47 de dia 13
Casados podem divorciar-se pela Internet a partir de hoje
Todas as pessoas casadas ao abrigo da lei portuguesa podem a partir de hoje divorciar-se em poucos minutos através de um portal na Internet. - No Correio da Manhã, às 00:30 (?) de dia 13
Tecnologia: Empresa encaminha processos
Divórcio pela internet
Maria Pinto Araújo e Carlos Rocha divorciam-se hoje na Conservatória do Registo Civil de Lisboa, transformando-se no primeiro casal português a fazê-lo com recurso à internet, graças ao portal www.divorcionahora.com. - No Jornal Digital, às 13:53 de dia 13
Divórcio na hora
Casados ao abrigo da Lei portuguesa podem divorciar-se pela Internet a partir de hoje
Todas as pessoas casadas ao abrigo da lei portuguesa podem a partir de hoje divorciar-se em poucos minutos através de um portal na Internet, adiantou hoje a agência Lusa. - No Jornal de Notícias, “edição do dia” (sem indicação do dia nem hora)
Divórcios pela Internet a partir de hoje
Serviço está apenas disponível para os titulares do Cartão do Cidadão
Todas as pessoas casadas ao abrigo da lei portuguesa podem a partir de hoje divorciar-se em poucos minnutos através de um portal na Internet. - No Açoriano Ocidental, às 12:33 de dia 13
Divórcio pela Internet disponível a partir de hoje
Todas as pessoas casadas ao abrigo da lei portuguesa podem a partir de hoje divorciar-se em poucos minnutos através de um portal na Internet.
O portal Divórcio na Hora.Com foi lançado pelo mandatário judicial (advogado) português Januário Lourenço em conjunto com uma empresa de tecnologias ligadas à justiça sedeada na Inglaterra. - Na rádio Diana FM, sem hora, dia 13
Casados podem divorciar-se pela Internet a partir de hoje
Todas as pessoas casadas ao abrigo da lei portuguesa podem a partir de hoje divorciar-se em poucos minutos através de um portal na Internet. - No Sol, sem hora, dia 13
Divórcio na Hora
Ao fim de 13 anos separada, Maria divorciou-se por Internet
Ao fim de 13 anos separada, Maria divorciou-se finalmente. Enquanto aguardava por informações numa conservatória de Lisboa, tornou-se a primeira a obter um divórcio electrónico em Portugal, em poucos minutos e a baixo custo. - No Algarve Notícias, sem data ou hora
Divórcios pela Internet já são possíveis
A partir de hoje, todas as pessoas casadas ao abrigo da lei portuguesa podem divorciar-se em poucos minutos através da Internet.
O portal Divórcio na Hora.Com foi lançado pelo mandatário judicial português, Januário Lourenço, em conjunto com uma empresa de tecnologias ligadas à justiça sedeada na Inglaterra. - No Destak, às 11:44 de dia 13
DIVÓRCIO NA HORA
Casados ao abrigo da Lei portuguesa podem divorciar-se pela Internet a partir de hoje
Todas as pessoas casadas ao abrigo da lei portuguesa podem a partir de hoje divorciar-se em poucos minutos através de um portal na Internet. - No Tek.Sapo, às 15:15 de dia 13
Divórcio pela Internet demora menos de meia hora
A partir de hoje, os casais que se queiram divorciar podem-no fazer através da Internet graças a um novo serviço lançado no âmbito do projecto Procuração na Hora.PT, lançado por uma empresa britânica no início deste ano.
A plataforma Divórcio na Hora destina-se a pessoas casadas ao abrigo da lei portuguesa, requer o mútuo acordo dos intervenientes por via electrónica e faz uso de tecnologias já existentes e do Cartão de Cidadão. A iniciativa não está ligada a nenhum serviço disponibilizado pelo Governo no âmbito do Simplex como o nome parece fazer crer.
Este meio tem a mesma validade do requerimento em papel e tem como vantagens o reencaminhamento directo do processo para uma conservatória, marcando o dia para a consumação do divórcio.
(repare-se na subtileza da repetição do erro de uma para outra edição entre dois jornais do mesmo grupo)
(Segue-se o meu título favorito, notem a verdadeira efabulação do “editor”)
Com um título tão falso como os restantes mas ao menos uma leitura honesta e a reescrita da informação da Lusa, notando-se as dúvidas e o resguardo do jornalista:
Como leitura complementar para os conceitos de link journalism e networked journalism, é essencial ler Scott Karp em Publishing 2.0, aqui sobre McCain e aqui sobre a história de Eliot Spitzer.
Agradecimentos à Ana, que ao publicar no Dados pessoais um post que colocou o assunto na perspectiva correcta me motivou para a elaboração deste estudo de caso.
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Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (
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[...] artigo está dividido em duas partes e a segunda parte está aqui) Data: 13 Mar 08 18:11 Autor: Paulo Querido Arquivo: media Tags: divorcio, [...]
Uma belíssima lição! Abaixo o sensacionalismo apressado!
O Correio da Manhã também tratou o assunto correctamente o que até é irónico tendo em conta a sua fama.
“Tecnologia: Empresa encaminha processos
Divórcio pela internet
Maria Pinto Araújo e Carlos Rocha divorciam-se hoje na Conservatória do Registo Civil de Lisboa, transformando-se no primeiro casal português a fazê-lo com recurso à internet, graças ao portal http://www.divorcionahora.com.”
Marta, sim, eu referi o Correio da Manhã no post e citei o ante-título, o título e a entrada…
Peço desculpa. deve ter sido o sono.
Estou em crer que não dava uma boa jornalista.
[...] semana passada aqui publiquei uma nota dupla (1 e 2) sobre o perigo da indiferenciação do produto jornalístico quando na Redacção se desiste de [...]