Madeira: a derrota dos jornais

Sem gente nas Redacções, os jornais online reproduziram a Lusa. As informações chegavam atrasadas; em regra, uma hora ou duas. Era caricatural: estávamos a dar para a CNN, SkyNews e mundo informações confirmadas de 25 mortos e os sites dos jornais emitiam os número de 10, e até de 5, relativos a duas horas antes.

Uma vergonha. Sem ninguém para tratar a informação, produzir um dossiê e controlar a publicação, mais valia cortar os automatismos do que exibirem a sua incapacidade de produzir trabalho com valor.

A atenção de meios online internacionais (de Inglaterra aos EUA pasando por Itália e Holanda, para citar os que vi) ao que se passa no Twitter permitiu-lhes dar notícias mais actualizadas do que os congéneres portugueses, isto durante toda a tarde de sábado.

Uma vez mais, parece que só são capazes de fazer um slideshow se a CNN, a BCC e o El Pais fizerem primeiro — e isto num acontecimento em solo português.

Valeram a RTP-N e a SIC-N, já que a TVI também parece sofrer da doença da redução de pessoal aos sábados. Só às 17 horas largou a programação e entrou em emissão de acompanhamento.

Para manter as pessoas informadas valeu sobretudo o Twitter e o jornalismo cívico, de alguns profissionais e de muitos amadores.

Mas esse trabalho produzido pelas pessoas — tanto no local (um punhado de madeirenses pode estar horas a coligir e distribuir informação preciosa tanto para os jornalistas como para as pessoas) como fora dele (desde mapas à recolha de fotos, videos, dados dispersos concentrados em wikis), como na sua redistribuição no Twitter — necessita da capacidade e do treino dos jornalistas profissionais, sem os quais fica reduzido a quem está nas redes sociais.

Hoje, uma marca de media é uma marca de media global e multimeios: usa todos os canais ao dispôr. Ou então assume a escolha de não estar nalgum deles: não morre por isso, é mais corajoso e é melhor do ponto de vista da relação com os leitores, muito melhor do que fingir que está e falhar num acontecimento desta grandeza.

Mais que uma vitória do Twitter, saliento a derrota dos jornais portugueses. Afinal, a primeira já faz parte do cenário mediático. O papel da rede na recolha e na difusão de pequenos bits de informação, enquadráveis em blocos maiores que cumprem o papel das antigas notícias, já foi posto à prova mais de uma vez.

O que espanta (ou talvez não, infelizmente) é a demissão dos jornais. Deviam estar a aproveitar a rede para enriquecerem as suas edições. Não estão. Ser sábado à tarde explicará tudo?

A blogosfera portou-se igualmente mal. Além de comentários políticos de gosto duvidoso sobre — quem mais? — o Primeiro Ministro, o deserto. Nada. Nem mesmo as aceitáveis críticas ao ordenamento da Madeira, por exemplo, ou ao papel das autoridades de protecção civil, da meteorologia, ou a recordação de outros episódios e os links para os videos no Youtube — a conversa mais ou menos crítica que em tempos fazia parte dela, blogosfera.

Também se comprovou que nos directos televisivos é possível fazer uma excelente cobertura sem um repórter no local, e que ter um não significa só por si uma vantagem. Sobretudo nas primeiras horas da tarde, a experiência e a criatividade de Alberta Marques Fernandes permitiram que a RTP-N tivesse uma emissão mais substantiva e esclarecedora no que toca à informação do que se estava a passar do que a SIC-N, em que a centralização do fluxo na pessoa do jornalista em direto traiu, como de costume, o próprio e a emissão: é inevitável o recurso às emoções, que sempre se sobrepõem às informações. Mais tarde as emissões equivaleram-se, a SIC-N tem recursos e rotinas para isso.

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mini fotografia paulo querido Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (Mais)

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