Quem com ferros mata

No dia em que Barack Obama ia ser aclamado como candidato democrata às eleições presidenciais americanas, John McCain fez publicar nas televisões um anúncio — pago do seu bolso — dirigido a Obama e no qual dizia mais ou menos isto: amanhã continuamos a nossa guerra, mas hoje, um dia histórico (duplo sentido para o aniversário do discurso de Martin Luther King), quero felicitá-lo pela sua conquista.
Nos EUA as eleições são renhidas e os truques, trapaças e buscas de escândalos alimentam as candidaturas. McCain ganhou pontos, mas mais que ganhar pontos deu um tom à campanha.
Foi mais que um golpe de publicidade, foi um sinal de respeito.
Retribuído.
Obama recusou o aparente brinde da filha da vice-presidente que é menor, solteira e está grávida. Um rebuçado que tem vindo a ser insistentemente embrulhado pelos media engajados, apesar de ser uma mensagem que nenhum político americano aprove actualmente e não tenha despertado nenhum interesse particular das “audiências”. Na sua resposta veemente e sentida, Obama esteve ao lado de McCain — esta é a verdade a reter do episódio.
Ora. A transposição do exemplo para a política nacional é inevitável.
Nas últimas eleições nos grandes partidos é avaliável o grau de sensatez de cada organização. José Sócrates ganhou o PS em condições de extraordinária competitividade, com 3 candidatos de luxo. No PS as lutas intestinas não foram propriamente poços de virtude, nem isso se espera, mas tiveram o mesmo tipo de tom e correcção que McCain Obama imprimiram à campanha em curso.
Já o PSD… justos céus, o que se passa nas hostes laranjas?
O PSD sempre foi um clima mais agreste (eu podia usar palavras piores) para os seus candidatos a líderes que o seu grande rival.
Mas este século tem-se superado a si próprio.
Desde Durão Barroso, que chegou ao poder em circunstâncias normais (Marcelo Rebelo de Sousa perdeu eleições), a escadaria para o poder tem estado, digamos, particularmente escorregadia.
Durão negou a sucessão a Manuela Ferreira Leite (ele lá sabia porquê).
Depois, Marques Mendes — um homem pacífico, educado e trabalhador, ideal para fazer de Fernando Nogueira II — foi apeado a meio do percurso pelos “índios” populistas que lhe fizeram a vida negra, forçando o partido a uma escolha destempada.
Passe o trocadilho, o poder popular era, como sempre foi e será, uma ilusão. O chefe da tribo vencedora acabou ele próprio vítima de um golpe à bomba que visava estilhaçar o exército popular e “restituir a credibilidade” à nação social-democrata — e, aproveite-se, a Linha à São Caetano. As bombas incendiaram e puniram Luis Filipe Menezes com a mesma justeza com que este apeara o seu antecessor, não fosse o ligeiro detalhe de esse não ter feito mal a ninguém.
Esta semana a líder — que a esta hora já deve lamentar ter-se deixado envolver nisto — ficou sozinha com o bombista arquitecto do atentado a Menezes. Marcelo Rebelo de Sousa retirou o seu cardeal apoio a Manuela Ferreira Leite.
José Pacheco Pereira não o fará. Tal como com Cavaco, take one, se apostou em Manuela, vai com Manuela até ao fim do filme — ainda que possa sair antes do genérico final se houver argumento para nova fita abrilhantada pela estrela do Norte.
Mas Marcelo Rebelo de Sousa deixou-lhe a batuta fervente nas mãos. Muito claramente, na televisão, delegou nele a responsabilidade da estratégia. O que levanta uma curiosa interrogação. Como a água e o azeite, o PSD profundo e Pacheco Pereira não se misturam, não têm nada a ver — nem querem; até que ponto poderá Manuela justificar a presença de um corpúsculo estranho.
Bem, eu tenho uma resposta para isto que passa por Cavaco, de quem Pacheco é uma vez mais homem de mão. Quanto vale o cavaquismo no PSD — é uma pergunta com resposta: 1/3. A questão por responder é: os outros 2/3 fazem o quê?
Marcelo sempre correu a maratona.
Manuela não tem culpa. Os outros peões ainda menos. Alguns deles, dizem-me, são bastante bons. O problema é que no tabuleiro faltam torres, cavalos e bispos.
Vejam a coisa pelo lado positivo. Pela primeira vez, vejo falar-se por aí na criação de um novo partido ao centro e ninguém desata a rir. Até já foram criados dois — mas não é desses que estou a falar. É de um que rasgue de vez o manto podre da social democracia à portuguesa, um termo incaracterístico que já não significa nada nem designa nenhuma corrente.

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