Vai trabalhar, malandro! É uma daquelas frases vazias, que não significam nada, podem ser ditas em qualquer ocasião para acabar com uma conversa, reduzir a pó alguém que argumenta, muitas vezes uma escarradela.
Vai trabalhar, malandro! é a melhor solução das “elites” europeias para dizer às “bases” perante a insolvabilidade da economia delas (elites). As elites que em bons ventos aumentam geometricamente os salários (quatro dígitos para si, dois dígitos para os fatos, um dígito para a ganga) e quando sopram maus ventos os cortam proporcionalmente (um corte de 10% na massa salarial — o que pressupõe os fatos de Hugo Boss para baixo e toda a ganga, bem entendido).
O Expresso deste fim de semana balanceia a coisa. “Estamos a caminho dos horários de 65 horas, a Europa prepara-se para permitir horários de trabalho até 65 horas semanais. Em vários países europeus, o assunto está na agenda pública, como é o caso de França, onde vigora um regime de 35 horas.
Estaremos condenados a trabalhar mais e mais e a copiarmos os modelos indiano ou chinês? O Expresso falou com especialistas, com políticos e sociólogos, com sindicalistas e empresários, na tentativa de saber para onde caminhamos. E se, afinal, não haverá já muitos sectores de actividade em que se trabalha claramente além das 40 horas semanais. Em Portugal já são muitos os que, por rotina, têm os horários de trabalho alargados“.
Quando eu entrei no mercado de trabalho o duplo emprego era uma instituição. Não me assustam horários de 65 horas e sou que que pensa que a idade da reforma tem de ser prolongada — mas não para as gerações anteriores: não se brinca com as pessoas (é o que eu penso, não é o que pensam outros).
Mas a questão está mal apresentada. Permitir horários de trabalho até 65 horas semanais não significa que os trabalhadores vão passar a poder trabalhar em dois empregos. Recordo que eles JÁ PODEM fazer esses horários, se tiverem o bambúrrio de sorte de arranjar horas extraordinárias ou empregos para tanto.
A legalização do eufemismo “até 65 horas” significa, isso sim, que uma mesma empresa vai poder exigir ao trabalhador que hoje consegue 2 salários em, digamos, 50 horas repartidas desigualmente para 2 patrões, que trabalhe as mesmas 50 horas por 1,4, vá lá, 1,5 salários, para um único patrão. E quem diz 50 hoje, diz margem de manobra para as 55 amanhã, 60 para o dia seguinte.
Na prática, é apenas e só mais um mecanismo de tirar a gordura a quem a produz, canalizando-a para os depósitos regulares.
Só tem ilusões quem gosta: por cada grama de saúde que o trabalhador consiga ainda inventar nas dobras do sistema, o sistema arranjará maneira de lha retirar e, se possível, garantir que a descendência pagará cara a ousadia.
Pronto: sou eu que hoje estou particularmente azedo, que querem. Mas não consigo ler as 65 horas senão como uma artimanha que não produzirá, sequer, os resultados políticos com que vem mais ou menos embrulhada.
- O amor é uma vida dentro da vida
COLOPHON
Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros, artigos e algum código sobre a net e na net desde 1989. (Mais)Subscreva por e-mail
Por RSS:Siga-me no Twitter
Siga-me no Google+
- PROJETOS
Eis alguns dos meus projetos com visibilidade web:
- PluralMag (re)publicação multiplataforma
- Tópicos / Jornal de Negócios web application de curadoria
- Tópicos / Correio da Manhã web application de curadoria
- Do Melhor, 'primeira página' da atualidade decidida pelos utilizadores
- Neste momento, no desporto web application de curadoria
- Diário2 publicação sobre a vida em rede
- TwitterPortugal portal dos tuiteres portugueses

Mas certamente que sim! é uma publicação de Paulo Querido, jornalista e consultor de comunicação. Também autor de livros, artigos e algum código. Na net desde 1989. (
Siga o feed RSS
Receba no e-mail
