A calhandrice: mais 2 centavos para a discussão
A propósito do que ficará conhecido por “a calhandrice”, o Henrique Monteiro tem no Expresso uma síntese dos tempos que vivemos. Escreveu ele que “vivemos num mundo de grupos de Comunicação Social excessivamente dependentes do poder e com um primeiro-ministro doentiamente preocupado com o que dele dizem” (link).
Eu acho que o PM dá demasiada importância a quem a não tem, mas o caso não é esse, o caso é a não publicação de uma crónica em circunstâncias específicas, que levaram um comentarista a abandonar a actividade num jornal, por sua própria iniciativa, e a fazer disso um acontecimento político.
Como já dei o suficiente para essa conversa, prefiro agora ir mais longe e os meus 2 centavos vão para a questão que o Henrique levanta. Não me incomoda nada que aproveitemos a calhandrice para lançar um debate público que:
1) clarifique a relação dos grupos de CS com o Estado, uma relação proeminentemente económica;
2) estabeleça directivas sobre a repartição das benesses estatais — basicamente, a distribuição da publicidade e os concursos — pelos grupos de CS de forma justa para garantir que não há pressões de parte a parte;
e finalmente 3) traga garantias aos trabalhadores dos media e prestadores de serviços, de que não são alvo da “censura económica” nem do eventual cartelismo.
Isto porque considero preocupantes os sinais das pressões dos grupos de media sobre o Estado. Bem sei que estão a defrontar-se mutuamente e a controlarem-se entre si — isto é sobretudo visível na relação Impresa/Controlinveste/Media Capital, os 3 grupos significativos que operam no mercado –, mas as suas pressões não são exercidas directamente: são-no através do “distribuidor de benesses” que podem pressionar, isto é, o Estado (não podem pressionar a banca, outro grande cliente de publicidade).
Exercida através do poder de comunicação que detêm — em especial os grupos com canais de televisão — , esta pressão tem vindo a aumentar na proporção inversa do aumento de escassez de receitas publicitárias e da erosão de audiências. É natural, porque é a reacção primária dos agentes económicos portugueses, como a temos visto em todos os sectores e por todo o tipo de empresas: no aperto viram-se para o Estado.
Não menos crítico para o jornalismo é o efeito da concentração em grupos. Jornalista, ou prestador de serviços, ou vendedor de fotografias e textos, que caia em desgraça num órgão de CS, não caiu em desgraça só num órgão de CS: não conseguirá trabalho ou contratos em nenhum dos órgãos pertencentes ao grupo.
Os relatos de abuso de posição pelos concentrados de media são feitos em surdina, evidentemente, mas são. Uma empresa que venda, por exemplo, fotografias de eventos internacionais em geral está limitada de 2 formas: quando vende a um órgão de um grupo fica numa posição difícil para ir vender a outro grupo (“exclusividade implícita”) e em regra não consegue impedir o uso do seu material em outros órgãos do grupo (é vítima das economias de escala, uma das razões para a concentração).
Pior: a internacionalização de alguns dos grupos cria situações que confrontam os direitos de autor entre países. Uma situação-tipo: em Portugal a revista de barcos X compra fotos da regata internacional, a sua congénere espanhola sabe e sugere-lhe uma “vaquinha”, em vez de comprar as fotos ao detentor espanhol dos direitos sobre as fotos, poupando ambas — ganha o grupo. Se o agente português cede, corre o risco de perder o contrato internacional por violação da ética e do estipulado sobre o raio geográfico de acção. Se não cede, arrisca posição negocial para futuros negócios com o grupo de media, que lhe diz mais ou menos veladamente isso mesmo.
Em Portugal, dada a exiguidade do mercado de media, muito poucos prestadores de serviços se podem dar ao luxo de trabalhar livremente passando por cima dos problemas da concentração — e Mário Crespo é um destes. E isto não pode deixar de ser levado em conta pelo Estado na hora de distribuir as tais benesses das quais os grupos privados, incapacitados de desenvolver práticas económicas saudáveis que assegurassem a sua independência, cada vez mais dependem. Logo, proponho a sua inclusão no debate sobre a dependência excessiva dos grupos, da sua responsabilidade e da sua actuação no mercado. E que este comece já: assim, o caso Crespo terá utilidade pública.
Emprego: discursos hilariantes (don’t eat the yellow snow)
O discurso de muita direita e até de alguma esquerda sobre o emprego é tão hilariante que recupero com dificuldade dos ataques de riso que me causa a súbita preocupação com os desgraçados dos desempregados.
Realisticamente, desconfio de quem não faz mais que “análises” superficiais acerca do mercado de trabalho com fins meramente politiqueiros.
Sejamos claros. O desemprego não pode ser uma arma de arremesso política pela simples razão de que nenhum partido, associação, causa, sindicato — ou mesmo um grupo ad hoc dos 100 donos de Portugal aos quais misteriosamente acometesse a Nobre Preocupação de ajudar os trabalhadores — pode prometer acabar com ele hoje ou amanhã, ou mesmo minorá-lo.
Simplesmente, não é mais verdade que os grandes grupos económicos possam contribuir para resolver o problema do desemprego. Os grandes grupos económicos perseguem, sim, o desemprego. É genético. A maximização dos lucros tem como consequência inevitável, para não dizer desejável, cortar nos custos. Ora, o que não é politicamente educado dizer é que o trabalho humano é, cada vez mais, um custo dispensável. Na melhor das hipóteses, um mal menor, que felizmente custa cada vez menos.
De um lado, a crescente automatização de todos os processos industriais e mesmo de uma quantidade cada vez mais alargada de tarefas dos serviços.
De outro lado, os custos de produção que baixam por força das economias de escala e da informatização: a capacidade de processamento duplica a cada 18 meses mantendo-se o preço, a integração de chips no trabalho faz-se cada vez mais, e em cada vez mais sectores.
De outro lado ainda, a deslocalização para as economias asiáticas das tarefas que ainda são executadas por mãos humanas, por uma questão de preço ou de facilidade.
E finalmente as forças demográficas, imparáveis: os humanos vivem (e consomem) mais tempo, há mais humanos, ou seja, a oferta de mão de obra disparou nos dois extremos, tendo como consequência automática o embaratecimento do preço do trabalho.
Abundância de mão de obra + escassez de postos de trabalho + automatização de tarefas = cut the crap dos discursos sobre o emprego. Sejam sérios. Comecem a pensar em novos formatos de redistribuição do lucro do produto gerado e em políticas hiperactivas de fomento do empreendedorismo, da iniciativa individual e do auto-emprego, mesmo que com sacrifício da protecção dos lucros dos pobrezinhos dos grandes grupos económicos, coitadinhos. Ou em passarem à clandestinidade.
Adenda: como aspirina de curto prazo, as obras públicas são um dos poucos instrumentos que restam a um Estado para não deixar a situação do desemprego descambar.
Video: Frank Zappa – Don’t Eat The Yellow Snow, Live In Sydney 1973
(Leitores de feed e newsletter: este link para o video)
Peter Schiff Was Right 2006 – 2007
É sempre bom recordar: Peter Schiff Was Right 2006 – 2007. Todos os comentaristas de economia MENOS ELE falharam na previsão da crise do sub-prime. E GOZAVAM-NO.
Jornais: no Brasil, bons ventos e bons casamentos

Passando pela queda da publicidade e pelo declínio nas circulação de jornais no hemisfério Norte, o Brasil continua a assistir a um crescimento sustentado da sua indústria de jornais e tablóides.
O MediaGuardian titulava: Brazilian newspapers celebrate a rise in circulation: Print media booms in South America’s biggest economy. A notícia tem sido repassada pela Internet, nos sites dedicados ao jornalismo e media. A circulação total aumentou 12% em 2007e 5% em 2008. As receitas não pararam de subir desde 2001.
As razões deste contra-ciclo são óbvias. E as razões da sua previsível continuidade ao longo da próxima década são igualmente óbvias.
Nas primeiras: o Brasil de Lula descolou finalmente em termos económicos, originando um verdadeiro boom das classes médias. Que praticamente não existiam. O poder de compra destas cria uma situação de procura tanto de informação como… da publicidade associada.
Nas segundas: além da continuação do aumento das suas classes médias, é de esperar que o país, que exporta pobres, passa a importar força de trabalho com capacidade aquisitiva, tendo em conta a expansão da sua economia e a importância política crescente do Brasil no mundo. E a marcação dos Jogos Olímpicos para o Rio de Janeiro é a cereja no topo deste bolo.
É pena por cá preferimos o orgulhosamente sós da língua e recusarmos o acordo ortográfico com base num não-sei-o-quê que não é, sequer, compreensível, quanto mais aceitável. Editores e jornalistas com competência (e idade), perspectivem a emigração para o Brasil. A terra das oportunidades no século XXI.
(Foto: andremarmota, no Flickr)
O que significa deter o poder no mundo da informática?

A propósito da guerra aberta entre a Google e a Microsoft, perguntas e respostas (*).
Pergunta – Informação é poder. Acha, que cada vez mais, esta citação é uma realidade?
Resposta – Não diria “cada vez mais”. A informação sempre foi poder. Estando a mudar o acesso à informação, os equilíbrios de poderes levarão por tabela.
O que significa deter o poder no mundo informático?
Significa ter uma base de clientes maior que a concorrência.
O que despoleta esta “guerra” entre as empresas? LER CONTINUAÇÃO :.
Simplex: pesquisa simultânea de marcas e domínios
A FCCN, Fundação para Computação Científica Nacional acaba de disponibilizar gratuitamente uma ferramenta on-line, que permite a pesquisa simultânea de marcas e domínios .pt. É uma iniciativa conjunta da FCCN e do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Visa contribuir para a celeridade, racionalização e simplificação dos serviços por si prestados, respondendo ao desafio lançado ao abrigo do Programa Simplex 2009.
Esta ferramenta inovadora agrega, num interface comum, as Bases de Dados do DNS .PT e do INPI, possibilitando aos interessados consultar a existência de determinada marca/domínio em simultâneo e de forma gratuita, imediata e eficiente.
Inserida no âmbito do Programa Simplex 2009, esta iniciativa visa o cruzamento da informação essencial de ambos os registos, para simplificação e melhoria da eficiência dos processos inerentes a estas operações.
De acordo com Pedro Veiga, presidente da FCCN, “A parceria com o INPI vai permitir simplificar processos transversais, como o registo de domínios e de marcas, garantindo a protecção mais eficaz dos direitos que decorrem destes registos e a redução de tempo, custos e burocracias. Esta medida terá um impacto directo na dinamização da gestão e registo de domínios e, consequentemente, na promoção da comunidade portuguesa na Internet”
Websites de empresas portuguesas não cumprem acessibilidade

Uma entre as mil maiores empresas portuguesas cumpre regras de acessibilidade no seu sítio Internet. É a principal conclusão de um estudo realizado pelo Grupo Permanente de Negócio Electrónico da APDSI – Associação para a Promoção e Desenvolvimento da Sociedade da Informação, divulgado esta semana.
O melhor resultado do estudo foi conseguido pelo sítio Internet da Caixa Geral de Depósitos, que cumpria dois dos três níveis de prioridades internacionalmente definidos. De sublinhar que a plataforma concluiu entretanto o processo e hoje já cumpre os três níveis necessários para garantir a completa acessibilidade da sua morada electrónica.
O estudo concluiu que a esmagadora maioria das maiores empresas nacionais não cumpre as regras de acessibilidade definidas pelos organismos internacionais, no sentido de assegurar que as pessoas com necessidades especiais possam usar a Internet sem problemas ou restrições de navegação. LER CONTINUAÇÃO :.

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DoMelhor
Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (
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