Secção media

O Estranho Caso Do Artigo De Opinião Que Não Foi Publicado

O artigo de opinião que Mário Crespo insistia, ainda ontem à noite no seu Jornal das 9, que não foi publicado, diz o Google que está reproduzido, total ou parcialmente, em cerca de uma centena de publicações de diversos tipos.

E você, acredita em Mário Crespo ou no Google?

Caso prefira a versão de Mário Crespo, pode sempre ir à estranha manifestação. Se, pelo contrário, é um homem/mulher sem fé, fica em casa de castigo a ler 100 vezes em 100 sites diferentes O Artigo De Opinião Que Não Foi Publicado e incorre em pena de prisão por atentar contra a liberdade de expressão (eu sei, eu sei, mas que quer, amigo leitor, tenho de exercitar-me para o exame de surrealismo avançado, prá semana…).

A calhandrice: mais 2 centavos para a discussão

A propósito do que ficará conhecido por “a calhandrice”, o Henrique Monteiro tem no Expresso uma síntese dos tempos que vivemos. Escreveu ele que “vivemos num mundo de grupos de Comunicação Social excessivamente dependentes do poder e com um primeiro-ministro doentiamente preocupado com o que dele dizem” (link).

Eu acho que o PM dá demasiada importância a quem a não tem, mas o caso não é esse, o caso é a não publicação de uma crónica em circunstâncias específicas, que levaram um comentarista a abandonar a actividade num jornal, por sua própria iniciativa, e a fazer disso um acontecimento político.

Como já dei o suficiente para essa conversa, prefiro agora ir mais longe e os meus 2 centavos vão para a questão que o Henrique levanta. Não me incomoda nada que aproveitemos a calhandrice para lançar um debate público que:

1) clarifique a relação dos grupos de CS com o Estado, uma relação proeminentemente económica;

2) estabeleça directivas sobre a repartição das benesses estatais — basicamente, a distribuição da publicidade e os concursos — pelos grupos de CS de forma justa para garantir que não há pressões de parte a parte;

e finalmente 3) traga garantias aos trabalhadores dos media e prestadores de serviços, de que não são alvo da “censura económica” nem do eventual cartelismo.

Isto porque considero preocupantes os sinais das pressões dos grupos de media sobre o Estado. Bem sei que estão a defrontar-se mutuamente e a controlarem-se entre si — isto é sobretudo visível na relação Impresa/Controlinveste/Media Capital, os 3 grupos significativos que operam no mercado –, mas as suas pressões não são exercidas directamente: são-no através do “distribuidor de benesses” que podem pressionar, isto é, o Estado (não podem pressionar a banca, outro grande cliente de publicidade).

Exercida através do poder de comunicação que detêm — em especial os grupos com canais de televisão — , esta pressão tem vindo a aumentar na proporção inversa do aumento de escassez de receitas publicitárias e da erosão de audiências. É natural, porque é a reacção primária dos agentes económicos portugueses, como a temos visto em todos os sectores e por todo o tipo de empresas: no aperto viram-se para o Estado.

Não menos crítico para o jornalismo é o efeito da concentração em grupos. Jornalista, ou prestador de serviços, ou vendedor de fotografias e textos, que caia em desgraça num órgão de CS, não caiu em desgraça só num órgão de CS: não conseguirá trabalho ou contratos em nenhum dos órgãos pertencentes ao grupo.

Os relatos de abuso de posição pelos concentrados de media são feitos em surdina, evidentemente, mas são. Uma empresa que venda, por exemplo, fotografias de eventos internacionais em geral está limitada de 2 formas: quando vende a um órgão de um grupo fica numa posição difícil para ir vender a outro grupo (“exclusividade implícita”) e em regra não consegue impedir o uso do seu material em outros órgãos do grupo (é vítima das economias de escala, uma das razões para a concentração).

Pior: a internacionalização de alguns dos grupos cria situações que confrontam os direitos de autor entre países. Uma situação-tipo: em Portugal a revista de barcos X compra fotos da regata internacional, a sua congénere espanhola sabe e sugere-lhe uma “vaquinha”, em vez de comprar as fotos ao detentor espanhol dos direitos sobre as fotos, poupando ambas — ganha o grupo. Se o agente português cede, corre o risco de perder o contrato internacional por violação da ética e do estipulado sobre o raio geográfico de acção. Se não cede, arrisca posição negocial para futuros negócios com o grupo de media, que lhe diz mais ou menos veladamente isso mesmo.

Em Portugal, dada a exiguidade do mercado de media, muito poucos prestadores de serviços se podem dar ao luxo de trabalhar livremente passando por cima dos problemas da concentração — e Mário Crespo é um destes. E isto não pode deixar de ser levado em conta pelo Estado na hora de distribuir as tais benesses das quais os grupos privados, incapacitados de desenvolver práticas económicas saudáveis que assegurassem a sua independência, cada vez mais dependem. Logo, proponho a sua inclusão no debate sobre a dependência excessiva dos grupos, da sua responsabilidade e da sua actuação no mercado. E que este comece já: assim, o caso Crespo terá utilidade pública.

A calhandrice

Entretanto, o lado dos maus passa a ter mais um título de respeito (bem-vindo, JN), o socialismo criou mais um mártir e o texto censurado pode ser lido em qualquer blogue e em qualquer jornal perto de nós.

Eu já conversei nas redes sociais quanto baste sobre este tenebroso episódio, revestido de métodos pidescos, com a conivência do Sindicato dos Jornalistas e que constitui mais uma machadada na credibilidade do jornalismo doméstico. Fica a citação do post de Rogério da Costa Pereira no jugular, que faz a síntese e me poupa trabalho: PM e Ministros decidem, em conversa num restaurante, tramar o jornalista Mário Crespo

Também não é má ideia lerem Marco Santos: Uma tragédia de proporções crespológicas.

Haiti: a tragédia da pornografia mediática

Não me tem apetecido escrever sobre o Haiti. Em primeiro lugar porque a dor me coíbe. Em segundo, porque não faria mais do que acrescentar ruído inútil à cacofonia. Toda a solidariedade é tão escassa quanto justa e devida e não tenho nada mais a acrescentar sobre o Haiti.

Tenho leitores que me criticam por nem sempre ter uma opinião sobre os temas em que eles gostariam de saber a minha opinião. É a pensar neles, e não nos haitianos (a quem não poderei fazer nenhum tipo de bem nas minhas circunstâncias), que aqui indico duas notáveis peças, cujo teor endosso, não tanto sobre a tragédia haitiana, mas sobre a pornografia televisiva (expressão de Francisco José Viegas) — ou seja, sobre a tragédia da transformação em showbiz do que outrora foi uma indústria nobre.

O voyeurismo da tragédia, Francisco José Viegas

Notas haitianas, Eduardo Pitta

Nota adicional. Os acontecimentos no Haiti serviram para algumas vozes, das quais começo por nem sequer discordar, em tempo oportuno recordarem a diferença entre o jornalismo profissional e o “jornalismo do cidadão” — ou seja, uma posição de defesa da indústria mediática na altura em que esta se encontra sobre a pressão da imensa mudança de processos e de públicos. Argumento principal: sendo o Haiti um país atrasado e com pouca gente ligada nas redes sociais, falhou ali “por completo” a função de “informador” que noutros contextos tem sido cumprida pelos cidadãos, relevando a “necessidade” do jornalista para nos mantr informados.

Não estou nada certo que, em circunstâncias idênticas, cidadãos não treinados pudessem ter feito melhor do que profissionais do ofício de informar. (Nunca estive antes, quem me lê sabe de tais dúvidas.) Mas isto não os desabona. Já o comportamento dos profissionais do ofício de informar deixa-os garantidamente maus lençóis.

A quantidade de informação (para não falar da qualidade dela) de um qualquer telejornal doméstico (suspeito que noutras latitudes não seja diferente, mas falo apenas do que vejo) no tempo para o Haiti é vergonhosamente pouca quando comparada com a quantidade de espectáculo e de emoções. Tanto tempo de antena (do caro, com satélite) para tão pouco jornalismo!…

A quantidade de informação mede-se conta-gotas e quase toda ela é extraída fora do Haiti. A necessidade de jornalistas no terreno é muito inferior ao número dos que para lá foram deslocados com a missão de servir a telenovela da vida real às audiências das horas das refeições.

Só a custo consigo isentar um ou dois dos reconhecidos repórteres televisivos que temos, e mesmo eles sucumbem na maior parte do tempo à facilidade da emoção e do choradinho da causa social da semana (e todas as semanas há uma, a fazer esquecer a anterior). Sei que num ou noutro caso teremos umas reportagens para apreciar às 4 da manhã de um dia de semana, daqui por um mês ou dois.

Bem sei que é o que “as audiências” pedem. Mas esta voracidade pelo choradinho, sendo razão para alguns trade offs (não sou bizantinamente purista), não é pretexto para ceder. Cada segundo cedido é mais adiante pago a preço de vida em credibilidade perdida.

E, num ambiente info-rico, a credibilidade é das raras tábuas de salvação das marcas de jornalismo. É o que as distingue, ainda, das marcas de informação emergentes na Internet. A credibilidade é uma moeda ao alcance de qualquer um que disponha de tempo e vocação para o negócio. É, também, de erosão fácil.

A pornografia mediática devia ter um lugar na prateleira dos fenómenos que estão a mudar (para pior) o jornalismo, e os seus efeitos estudados. Uma tragédia é ninguém estar para aí virado.

Quais são as vantagens e desvantagens das novas tecnologias para o jornalismo?

…Sou aluna do 3º ano de Ciências da Comunicação da UTAD. Esttou a fazer um trabalho sobre jornalismo, seria possível responder-me a algumas perguntas?

Como vê o jornalismo de hoje?
Com alguma preocupação. O jornalismo está numa fase negativa, descaracterizado, sem uma boa imagem de si mesmo. A forma como as empresas de jornalismo têm reagido em função das mudanças na distribuição e no consumo leva os profissionais à desorientação — quando não mesmo a abandonarem o barco.

Quais acha que são as vantagens e desvantagens das novas tecnologias para o jornalismo?
Não vejo desvantagens directas para o jornalismo. Só indirectas, na medida em que o reforço do poder editorial e retransmissor do indivíduo, a par da ausência de geografia, aniquila o anterior negócio de transporte das notícias, que permitia pagar os salários dos jornalistas. Será necessário encontrar modos alternativos de financiar a actividade.
Vantagens, vejo muitas. As tecnologias são (podem ser, quando usadas nesse sentido) ajudas importantes para melhorar a eficácia da recolha de informação, do seu processamento e ainda da sua distribuição.

Qual a importância das redes sociais como Twitter, Facebook, etc?
As redes sociais são importantes na medida em que as pessoas estão lá. É lá que se concentra, hoje, uma enorme quantidade de olhos, de atenção. Além de serem, elas próprias, objecto de notícia, as redes sociais são uma plataforma de acção (na recolha como na difusão) e de relacionamento (conquista e manutenção de audiências).

O que mudaria na forma como o jornalismo é feito hoje em dia?
Eu? Nada ;) Nunca me passou pela cabeça ser capaz de mudar um processo global e tão plural como o jornalismo.
Sei que o jornalismo precisa encontrar o seu caminho na rede, na Internet. Esse caminho passa por tomar a tarefa de dirigir a narrativa da realidade (cf. http://pauloquerido.pt/media/3437) . Mas também passa pelo data journalism (compilar e processar grandes quantidades de informação de interesse público), pelo link journalism (linkar as melhores reportagens e notícias, sejam de quem forem, e não as reproduzir usando a própria marca, reservada para as investigações originais, próprias), pela Reportagem Assistida por Computador, e outras novidades permitidas pelo ecosistema reticular. E por uma relação aberta com as audiências e as tecnologias das redes.

As redes sociais e as reacções dos grupos de media

… sou aluna do 3.º ano da licenciatura de Ciências da Comunicação na FCSH [...] Gostaria de saber a sua opinião sobre a evolução das redes sociais na internet, a afectação dos mass media face a essa mesma evolução e o que pensa concretamente de uma das mais recentes plataformas da Google…O Google Fast Flip.

As redes sociais evoluem em função do tipo de utilização que lhes damos, por um lado, e dos objectivos estratégicos das empresas, por outro. Penso que crescentemente cumprem o papel que era da televisão: são o meio do entretenimento e do consumo de lazer. Mas também estão a substituir a consola de jogos.

Os mass media convivem mal com um meio que desconhecem e que decidiram eleger como inimigo a abater, antes mesmo de compreender a evolução. Estão, sistematicamente, a dar tiros nos alvos errados. A nivelação por baixo do jornalismo, bem como dos conteúdos em geral, só vai apressar o fim do negócio — ainda que seja uma atitude justificável financeiramente, para alguns: explorar a actividade o mais possível, até ao tutano, enquanto dura. A insistência na preservação do modelo de negócio anterior à custa do modelo emergente está agora a passar à fase de ameaça sobre as empresas tecnológicas, deixando antever a fase seguinte, de pressão sobre os governos e parlamentos, não sendo de excluir a chantagem.

Sejamos realistas: os grupos de media tudo farão para preservar o seu negócio; não têm nenhuma razão para se comportarem de outra forma.

O Google Fast Flip é um brinquedo gráfico. Serviu para a Google obter mais alguma atenção. Mas não passará disso.

Leiam também o Manifesto Internet, que diz em traços gerais o que é o jornalismo na rede, hoje e no futuro próximo.

Diálogos Facebook: blogs e tal

Paulo Querido RT @EmmanuelGonot: Fast Company: Blogging Is Dead, Long Live Journalism http://bit.ly/mITAw

Pedro Rebelo E tu que achas Paulo? Eu pessoalmente ainda penso que o blogging tem muito para dar, talvez de forma diferente…
Há 47 minutos
Paulo Querido Eu acho que o jornalismo ainda tem muito para dar, certamente de forma diferente :) O blogging mudou. Cresceu. Normal. Menos entusiasmo de principante. Quem tinha para dizer ao mundo, “olá mundo!”, já o disse. Repetiu. Agora calou-se e joga farmville e essas merdas. A conversa sobre gatos e flores torna-se cansativa ao fim de um tempo.
Ficam: quem tem densidade discursiva, quem escreve profissionalmente, quem tem uma missão ou função. Na escrita profissional cabem os “bons” bloggers que mantém essa coisa antes chamada blogosfera, e que procuram melhorar e rentabilizar o seu trabalho.
Há 8 minutos

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ACERCA
mini fotografia paulo querido Olá, o meu nome é Paulo Querido e Certamente! é o meu webzine pessoal. Sou consultor de new media, jornalista e escrevo livros e artigos (e também algum código) sobre a net e na net desde 1989. (Mais)

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